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sexta-feira, 17 de maio de 2019

A NOITE EM DUAS FACES

Vejo a noite da janela,
as mulheres caminhando
com seus trajes sedutores.

Eu, já velho, avisto a noite
como à lua tão distante.

Mas eu velho, mas que velho?
Que velhice que me assola?
Tenho pulsos, tenho anseios,
mas idade, não, jamais.

Quero a noite e seus pecados,
nessa noite me atirar.
Porém, sei que a noite é puta,
não a puta que eu respeito, 
por querer ganhar seu pão.

Não, a noite é meliante,
é rameira perigosa,
é sereia e é valquíria,
é uma ninfa tão mortal...

Mas que importa, se ela é ninfa?
Pois com ninfas já vivi.
E livrei-me todavia
do feitiço inebriante
com que as pérfidas satânicas
me enlaçaram nos seus braços.

Mas também a noite pode
ser doçura comovida,
se alguns olhos nos seus entram,
traduzindo acordes brandos
e o vulcão do coração.

Da janela fito a noite,
que é feroz e que é serena,
meretriz afeita ao crime,
que é uma amante apaixonada.

Ai, a noite e suas faces,
qual moeda para apostas.
Ganho ou perco nesse jogo?
Mas que noite a que me espera?

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

SE EU COMETER O ATO EXTREMO...

Se eu cometer, devastado, o ato extremo,
que infernos e satanases implacáveis me aguardarão,
num ignoto, imaginário e absurdo outro lado da existência?
Serão os entes maus e os sofrimentos frutos da imaginação de uma mente sobrevivente à morte  e perturbada,
Ou unicamente me libertarei de todos os percalços  e agonias que decorrem de existir?

domingo, 8 de outubro de 2017

DAS LICENÇAS POÉTICAS

Às vezes (ou muitas vezes) publico com licenças poéticas acidentais: reviso, reviso o texto e não vejo que repeti a expressão às vezes mais de uma vez. Mas em geral não retifico: fica como licença e pronto! Que me perdoem os amigos leitores e escritores, mas abuso desta liberdade (licença poética) que temos.

BUSCA AO IRREAL

Vida, traga a mim as esperanças
Ou bem  menos, por favor: uma utopia.
Ou seria a utopia maior do que a esperança?
Mas é claro, vida, que é maior uma utopia(!),
Se ela é livre das amarras da verdade,
Que desola, martiriza e aniquila as  criaturas.

Quem me dera, dera mesmo a fantasia,
Que tem asas e que voa sem limites,
Por estrelas, por delícias, ribeirões e paraísos,
Não conhece bom-senso, juízo nem razão.

Mas, meus dias, por demais contentaria
Crer que um dia os perversos, os que usurpam e os que oprimem 
Muito caro pagassem os pecados cometidos
E que a injustiça humana, que é infalível,
Sucumbisse sob os pés  da justiça verdadeira,
Que viria de um Deus justo ou bons espíritos.

Ah, se o Universo nos desse uma outra vida
E reparasse a todo ser o mal sofrido 
Neste mundo de maldades e tragédias...

Vida, traga a mim uma utopia, fantasia, uma loucura,
Porque, mundo, a realidade nos indigna, nos dói demais.









domingo, 30 de julho de 2017

UTOPIA

Se uma doce emoção repontar
na gente rude das ruas cinzentas...?
Se o ódio silenciar tão profundo
de parecer estar morto e sepulto...?
Se eu me apaixonar pela prostituta
e viver uma inquietação mais sem fim..?
Se as pessoas quebrarem o asfalto
e plantarem jardins nas estradas...?
Se eu vir a ternura brotando
nos olhos tão frios de Helena...?
Se alguma voz bela cantar 
e encantar toda a praça e a cidade...?
Se tudo for só poesia,
sem juízo, sem bom-senso ou limite...?
Se esta utopia crescer de tal modo, 
que arrebente a impalatável verdade...?
Se minha quimera vencer o real,
parecerá vivermos pura felicidade.


SE EU AMAR ESSA MULHER?

E se eu amar essa mulher
de olhos tão despidos dos afetos?
E se eu amar essa mulher
loucamente de segui-la sorrateiro pelas ruas,
verificar furtivamente seus papéis, seus aparelhos,
suas vestes íntimas no cesto e no varal?

E se eu amar essa mulher,
obsessivo de falar seu nome o tempo todo,
nas noites frias de tristeza e de distância?
E se eu amá-la de um modo assim tão tresloucado
de perdoar-lhe as traições e os seus desprezos?
Se eu amá-la de um jeito tão servil e tão demente
de sentir-me um ser chão diante dela?
Se eu amar demais essa mulher, 
de querer morrer caso ela suma dos meus olhos,
de querer matá-la caso queira me deixar,
ou ainda me deitar pelas sarjetas se perdê-la para sempre?

Vou deixar que essa mulher siga em paz o seu caminho:
não, não posso, não, jamais amar essa mulher!

domingo, 2 de julho de 2017

Não creio em nada. Ou em quase nada.  Não creio em Deus. Nos homens, muito menos.  Não alimento ilusões e esperanças quanto às coisas à volta e ao mundo.  Não vivo destilando alegria pelos quatro cantos do planeta.  Sou um misantropo e não cultuo deuses nem homens.   Mas me embeveço quando de manhã olho pra fora da janela do meu quarto e vejo a árvore florada e repleta de vida, uma pequena mostra do quanto a Natureza é sublime, que contrasta com a rua pavimentada e quase totalmente desprovida de verde.  Beija-flores, besouros, percevejos.  Às vezes mariposas entram de madrugada, e tenho de acender alguma luz para que elas se aquietem.  Uma vez entraram dois beija-flores por volta das três da manhã, e precisei apagar as luzes para deixarem de se bater e não se ferirem.  Na primeira claridade abri as bandeiras porque não souberam sair pela janela aberta.  A Natureza, os bichos: este é meu culto, meu alumbramento, minha crença absoluta.  Eu creio na vida, nos animais, nos besouros, nas árvores e plantas e me me irmano com eles, e a simples vista de tais criaturas me traz uma paz de nirvana, me faz contente com a própria existência, me faz encantado, enlevado e feliz.

RECANTO

  E então, você não canta Nem me chama pra sonhar Debruçado na varanda, Ante a luz do seu luar? E então, não me convida A dançar a dança ard...