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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

BRITA

  Sou apenas um canteiro que é baldio,

Não a vasta natureza majestosa

Que teus olhos inventam, delirantes.

Não sou, não, a estrela-guia que cintila

Ou flor que brota, inesperada, em rachadura,

Nem acordes de piano em bela tarde,

Muito menos o cenário que se espera

Que floresça além de todos horizontes.

Eu sou duro como as britas das pedreiras

Eu sou seco como a areia dos desertos.

Se me olhar detidamente, notará

Que não sou a brisa fresca que acarinha,

Mas punhal, espinho e posso machucar.

Vendaval e tempestade de enxurradas,

Um mendigo que caminha pelas ruas

Sem jamais tentar chegar a canto algum.

Não manhã nem alvorada, mas crepúsculo,

Não orquestra nem sonata, mas mudez.

Deixe apenas que eu me vá pra todo o [sempre,

Se deseja de verdade ser feliz.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

MARA, A RAINHA DA PRAIA

 

MARA, A RAINHA DA PRAIA

 Dança Mara

A mais viva dentre as danças,

Sua, brilha

Sua pele apessegada,

Seu rostinho,

Suas pernas torneadas.

Já mostrou que a vida é dança

E reluz como os luares,

Tanto quanto espelhos d'água

Da cidade onde ela mora.


Entra n'água,

Baila assim como sereia,

Vem à tona

E sorri seu riso franco,

Ergue o corpo

E caminha entre as areias,

Eu lhe vejo os olhos claros

Tão pejados de poema,

Seus cabelos encharcados

Sobre os ombros cor de bronze.

Pula, roda, volta à dança,

Porque pulsa como a vida,

Pois clareia a praia inteira

E é assim como o verão.

domingo, 4 de janeiro de 2026

OS HUMANOS E O FILHO DEUS

 Ó, humanos vis, mantende o deus

Que vós criastes, que essa torpeza, que essa maldade

Que carregais

Em vossas almas

Tanto demanda

Pra vos sentirdes

Menos mesquinhos,

Pra que as barbáries

Que praticais, humanos, tenham

Sempre perdão 

--Se a hipocrisia

De vossa índole,

Ao vos fingir-vos arrependidos,

Será clemente,

Pois vós ao fim

Que na verdade

Vos julgareis.

Mantende vivo, mas muito vivo

O deus parido

Da natureza tão mentirosa

Que cultivais.

Um deus vos dá essa certeza

Tão descabida

De serdes entre

As criaturas

As mais perfeitas,

As prediletas, 

Mais importantes

E, assim, sagradas.



Não 

Abandoneis

Jamais a fé,

Se o deus que criastes à vossa semelhança

É pra punir cruelmente vossos desafetos

E perdoar vossos pecados hediondos.

Deus ainda vos dá o grande privilégio

De poderdes exercer vossa preguiça

E entregar em suas mãos a concretização dos   mil desejos que alimentais.

Ah, humanos vis, como eu odeio

Ser, salvo quanto às crenças que nutris

--que necessito e não alcanço --

vil, pequeno como vós!


SE EU PUDESSE CRER

 Se eu cresse numa existência após a morte,

Veria essa tal vida como tão somente o [sobreviver da consciência à sucumbência                         [da matéria,

Sem que nenhum outro corpo essa citada  consciência viesse um dia a habitar 

Ou, resignado, contaria com longos anos em zonas umbralinas

Para, após purgados os pecados, ascender a um plano espiritual mais elevado?

E nesse patamar iria preferir permanecer eternamente ou quereria retornar à  [terra para me redimir dos malfeitos cometidos?

Mas e as pessoas que odeio mortalmente e [com repulsa, e aquelas que desprezo com [ausência total do mais pífio interesse ou emoção?

Como conseguiria eu aceitar o compulsório contato ou o convívio com essas       [novamente?

Se o Universo, dadivoso, reservasse a todos nós a vida eterna, 

Os nossos mortos, humanos e animais, não teríamos talvez motivo algum para  [chorar,

Justamente por serem eles infindos como nós.

Se o reencontro seria magnífico tal como o paraíso que a alma sempre almeja e  [sempre anseia.

Seria infinitamente bom se nisso eu cresse,

Mas o espiritualista que tentei com grande  esforço em mim criar

Sucumbiu infelizmente à falta de respostas e às lacunas que as religiões e filosofias não conseguiram preencher,

E, então, fiquei tão cru, descrente, triste e [inconformado com meu fim, que é  [uma certeza,

E com a ausência definitiva das pessoas e  bichinhos que eu amei.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

PARTIR II

  Só quero ir embora

Daqui da cidade:

Do lugar eu não tenho

O menor fragmento

E nela não vejo

Nadinha de mim.


Saí pelas ruas,

Bebi pelos bares,

Andei pelas vias:

Não vi poesia,

Não vi os campos belos

De Minas Gerais.


Até a mineirinha, 

Que agora mal vejo,

Não mais brilha ou dança

Nem tenho na cama,

Assim como eu,

Bem vi, envelheceu.


Só quero partir

Sem por um segundo

Olhar para trás

E de outra cidade

Sentir-me um pedaço,

Sentindo-a  em mim.


VELHICE

  O que me espera à frente,

Uns anos adiante,

Senão tentar debalde

Fugir das minhas trevas

Por labirintos negros,

Entre as assombrações?



Não nascerão auroras

Nem mesmo as esperanças,

Não ouvirei orquestras,

Será tudo sombrio,

Não haverá mais sambas,

Tampouco carnavais.



Temer o inevitável,

Ter salvação na morte,

Que é qual morar no nada,

Qual existir no nunca,

Que é tão absoluta,

Que é o fim de tudo, o fim(!).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

TURBILHÃO

 Soam raios, trovões  casa adentro.

Tão sonoros, passeiam nos cômados

E repercutem nas paredes e tetos.

Soam raios, trovões   casa adentro,

Que não vêm  da atmosfera ou do céu,

Mas do fundo do meu peito repleto de chagas

E retumbante de milhões de emoções.


Há vendavais, soam trovões, soam raios

E são gritos do desejo de vida,

São brados do desejo de morte,

Um acúmulo imenso de amores,

Profusão de intensas paixões,

Um querer  chorar convulsivo

E partir para muito distante,

Depois, para ainda mais longe

E pisar regiões inúmeras,

E dançar pelas ruas lotadas

E pelos bordéis das cidades.


Soam raios, trovões  casa adentro:

É o peito implodindo de anseios,

Profusão de sentimentos imensos,

Turbilhão de minh'alma a berrar.


BRITA

   Sou apenas um canteiro que é baldio, Não a vasta natureza majestosa Que teus olhos inventam, delirantes. Não sou, não, a estrela-guia que...