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quarta-feira, 1 de abril de 2026

A REVOLUÇÃO DOS ARTISTAS

 Se não existe em definitivo a justiça dos homens

Nem Deus no Universo a nos defender, resgatar,

Pois que venham então de todos os lados

Multidões de artistas sem nome e sem palco

E que invadam as sedes mesquinhas dos bancos,

E vejam seus lucros com profundo desdém.

Que vão pelas ruas numa utópica gana 

De acabar co'a maldade, egoísmo e ganância.



Ocuparão os artistas auditórios e ruas,

Tocarão instrumentos de forma sagrada,

Cantarão nem fervor, num se-dar sem medidas.

Baterão seus tambores, seu bumbos, metais,

Mostrarão as pinturas de amadas despidas,

Paisagens   bonitas parecendo infinitas.

Viverão Cristo e César, Mr. Hyde e Otelo,

E as pessoas, então, num espanto assombroso,

Conseguirão ver que a Arte é coisa maior.




TEU POR DEMAIS

Perdoa-me, amor, desmaiar de tão bêbado,

Sem perceber as batidas do teu coração.

Perdoa não dar o teu nome ao meu samba,

Pois podia quebrar a prosódia dos versos.

Mas, saiba, ao compô-lo, foi em ti que pensei.


Deixa agora de cisma, de mágoa e de medo:

Sente o afã, sente a entrega no meu beijo tão quente,

Sente o quanto incandesce o meu corpo no teu,

Nas palavras percebe um amor sem tamanho

E a franqueza dos mais fascinados poetas.


Sorri, meu amor, e me dá tuas mãos,

Vem comigo cantar poesia ao luar,

 Olha fundo em meus olhos tão cheios de súplica

E entende, querida, que sou teu por demais. 


domingo, 22 de março de 2026

A MÚSICA

 De longe, uma canção tão tristonha

Atravessa as cidades, as ruas e  praças

E fica em minha alma, infinda, a tocar.

Não tem som, instrumentos a música,

Nem melodia, nem  nota, é silente,

À alma torna tão cheia de sombras

A música vinda de um canto longínquo,

Do fundo do fundo, de dentro de mim.


DIA INFINITO

 Hoje me fiz tão menino,

Hoje me fiz pueril,

Alumbrado tal como um bebê

Que brinca nas águas do mar.


Hoje me fiz sem pecado,

Hoje me fiz delicado

Como alma encantada de moça

Tomada de amor e paixão.


Beijei os teus lábios vermelhos 

Deitei no teu corpo rosado,

E tudo ficou na memória

E me agitou de emoções.


Segui por ruas pequenas, 

Andei por becos escuros, 

Mas tudo eu via tão claro,

E vasto e tão musical.


A minha alma ribomba, 

Parece dançar em festança

E se emprenhou da alegria

Que trouxe a fascinação.


Quando de novo eu te vir,

Não sei se terão teus olhos

O mesmo enlevo infinito

Ou serão frios, sem luz.


Só sei que o dia de hoje

Tem pura, doce magia,

Tem tanta lira, alegria,

Que, acho, não vai terminar.


segunda-feira, 9 de março de 2026

VERSEJAR COM MAGIA

 Quero escrever como canta Elis:

Co'a alma quente toda aflorada

E a voz candente a se irradiar.

Como  quem abre inteirinha a casa

E faz entrar a luz da manhã.

Qual deslumbrado da doce vista

Da serra verde em exuberância.

Como quem molha seus pés no rio,

Abrindo os braços pra natureza.


Vou versejar como me despisse

E me entregasse a um sedento amor,

Como quem olha, se embevecendo,

Gatos brincando pelos jardins.

Poetar qual fechasse os olhos

E levitasse na dança mágica.

Como deixasse que a viva lágrima

Molhasse as letras dos versos tristes.


Versejar como arrebatado

Por emoções mais angelicais.

Qual longamente beijasse a amada

E, de mãos dadas, com ela andasse

Em rumo a um canto tão magnífico,

Que só um sonho pode inventar.

Poetar num enlevamento

De quem vê quando brota a vida,

Quem se consome ao adeus da amada

Ou quem se enreda, surpreendido,

Num novo tempo de outra paixão.





segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

SEM POESIA

Não há mais poema que se possa escrever,

Nos semblantes não vejo ninguém a sonhar,

Nem noto nos olhos dançar esperança,

Não há estações nem apito de trem,

Nem moça inquieta, num afã de partir.

Se à volta a paisagem é tão trivial,

Sequer há casais em abraços febris

Nem alguém que chore o amor que partiu.


Não há beija-flores parados no ar

E o canto tristonho das aves noturnas.

Não há mulher doce com olhos de busca,

Não há nos jardins criança a brincar,

Não tem nos arbustos pardal a pousar,

Não sinto um desejo intenso de amar.

Não há mais poema que se possa escrever,

Não há poesia que se possa cantar.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

CANTEIRO BALDIO

  Sou apenas um canteiro que é baldio,

Não a vasta natureza majestosa

Que teus olhos inventam, delirantes.

Não sou, não, a estrela-guia que cintila

Ou flor que brota, inesperada, em rachadura,

Nem acordes de piano em bela tarde,

Muito menos o cenário que se espera

Que floresça além de todos horizontes.

Eu sou duro como as britas das pedreiras

Eu sou seco como a areia dos desertos.

Se me olhar detidamente, notará

Que não sou a brisa fresca que acarinha,

Mas punhal, espinho e posso machucar.

Vendaval e tempestade de enxurradas,

Um mendigo que caminha pelas ruas

Sem jamais tentar chegar a canto algum.

Não manhã nem alvorada, mas crepúsculo,

Não orquestra nem sonata, mas mudez.

Deixe apenas que eu me vá pra todo o [sempre,

Se deseja de verdade ser feliz.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

MARA, A RAINHA DA PRAIA


 Dança Mara

A mais viva dentre as danças,

Sua, brilha

Sua pele apessegada,

Seu rostinho,

Suas pernas torneadas.

Já mostrou que a vida é dança

E reluz como os luares,

Tanto quanto espelhos d'água

Da cidade onde ela mora.


Entra n'água,

Baila assim como sereia,

Vem à tona

E sorri seu riso franco,

Ergue o corpo

E caminha entre as areias,

Eu lhe vejo os olhos claros

Tão pejados de poema,

Seus cabelos encharcados

Sobre os ombros cor de bronze.

Pula, roda, volta à dança,

Porque pulsa como a vida,

Pois clareia a praia inteira

E é assim como o verão.

domingo, 4 de janeiro de 2026

OS HUMANOS E O FILHO DEUS

 Ó, humanos vis, mantende o deus

Que vós criastes, que essa torpeza, que essa maldade

Que carregais

Em vossas almas

Tanto demanda

Pra vos sentirdes

Menos mesquinhos,

Pra que as barbáries

Que praticais, humanos, tenham

Sempre perdão 

--Se a hipocrisia

De vossa índole,

Ao vos fingir-vos arrependidos,

Será clemente,

Pois vós ao fim

Que na verdade

Vos julgareis.

Mantende vivo, mas muito vivo

O deus parido

Da natureza tão mentirosa

Que cultivais.

Um deus vos dá essa certeza

Tão descabida

De serdes entre

As criaturas

As mais perfeitas,

As prediletas, 

Mais importantes

E, assim, sagradas.



Não 

Abandoneis

Jamais a fé,

Se o deus que criastes à vossa semelhança

É pra punir cruelmente vossos desafetos

E perdoar vossos pecados hediondos.

Deus ainda vos dá o grande privilégio

De poderdes exercer vossa preguiça

E entregar em suas mãos a concretização dos   mil desejos que alimentais.

Ah, humanos vis, como eu odeio

Ser, salvo quanto às crenças que nutris

--que necessito e não alcanço --

vil, pequeno como vós!


SE EU PUDESSE CRER

 Se eu cresse numa existência após a morte,

Veria essa tal vida como tão somente o [sobreviver da consciência à sucumbência                         [da matéria,

Sem que nenhum outro corpo essa citada  consciência viesse um dia a habitar 

Ou, resignado, contaria com longos anos em zonas umbralinas

Para, após purgados os pecados, ascender a um plano espiritual mais elevado?

E nesse patamar iria preferir permanecer eternamente ou quereria retornar à  [terra para me redimir dos malfeitos cometidos?

Mas e as pessoas que odeio mortalmente e [com repulsa, e aquelas que desprezo com [ausência total do mais pífio interesse ou emoção?

Como conseguiria eu aceitar o compulsório contato ou o convívio com essas       [novamente?

Se o Universo, dadivoso, reservasse a todos nós a vida eterna, 

Os nossos mortos, humanos e animais, não teríamos talvez motivo algum para  [chorar,

Justamente por serem eles infindos como nós.

Se o reencontro seria magnífico tal como o paraíso que a alma sempre almeja e  [sempre anseia.

Seria infinitamente bom se nisso eu cresse,

Mas o espiritualista que tentei com grande  esforço em mim criar

Sucumbiu infelizmente à falta de respostas e às lacunas que as religiões e filosofias não conseguiram preencher,

E, então, fiquei tão cru, descrente, triste e [inconformado com meu fim, que é  [uma certeza,

E com a ausência definitiva das pessoas e  bichinhos que eu amei.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

PARTIR II

  Só quero ir embora

Daqui da cidade:

Do lugar eu não tenho

O menor fragmento

E nela não vejo

Nadinha de mim.


Saí pelas ruas,

Bebi pelos bares,

Andei pelas vias:

Não vi poesia,

Não vi os campos belos

De Minas Gerais.


Até a mineirinha, 

Que agora mal vejo,

Não mais brilha ou dança

Nem tenho na cama,

Assim como eu,

Bem vi, envelheceu.


Só quero partir

Sem por um segundo

Olhar para trás

E de outra cidade

Sentir-me um pedaço,

Sentindo-a  em mim.


VELHICE

  O que me espera à frente,

Uns anos adiante,

Senão tentar debalde

Fugir das minhas trevas

Por labirintos negros,

Entre as assombrações?



Não nascerão auroras

Nem mesmo as esperanças,

Não ouvirei orquestras,

Será tudo sombrio,

Não haverá mais sambas,

Tampouco carnavais.



Temer o inevitável,

Ter salvação na morte,

Que é qual morar no nada,

Qual existir no nunca,

Que é tão absoluta,

Que é o fim de tudo, o fim(!).

A REVOLUÇÃO DOS ARTISTAS

  Se não existe em definitivo a justiça dos homens Nem Deus no Universo a nos defender, resgatar, Pois que venham então de todos os lados Mu...