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quinta-feira, 26 de março de 2020

EU E O BÊBADO

Vejo a noite, que termina quando os bares são fechados.
Em pouco a noite irá se aprofundar no próprio corpo
E adormecer na paz possível das cidades conturbadas.

Por minha vez, caminho para casa em passos largos,
E o bairro irá repousar pra renovar as combalidas energias
E despertar alimentando as descabidas esperanças.

Estou só na noite, que se apaga em seu cansaço,
E minha alma é o bêbado que cambaleia onde a vista mal alcança,
Numa esquina tão distante, erma e tão escura,
Que parece um lugar qualquer no fim do mundo.

Meus sentimentos estão vagos, apagados e quietos.
O demônio que há em mim dorme profundo,
E o deus que tenho não tem forças e nada que me ajude ou  possa me alentar.

Estou apenas levemente embriagado,
Mas me encontro naquele bêbado que é triste e nada espera
E na esquina escura a que em minutos vou chegar.
Eu, o bêbado, a esquina escurecida,
Nos tornamos os três um ente só.

ANA CAMILA

O que faz Ana Camila
nesta noite de verão?
Dançaria numa pista
de uma casa de sambão?

O que apronta Ana Camila
neste inferno de calor?
Despe o corpo pr'um sujeito
numa cama de motel?

Que diverte Ana Camila
nestas horas de luar?
Brincaria co'as estrelas
lá no fundo do quintal?

Com que brinca Ana Camila,
de sorriso tão constante?
Co'a roseira e meus anseios, 
e a paixão que ferve em mim?


2017

POEMA DE ÍMPETO

Se eu provasse o sabor da tua língua,
Degustasse o marrom da tua pele,
Se sentisse a paixão no teu semblante
Se tivesse a entrega dos teus olhos,
Eu chegava aos confins mais magníficos,
Me sentia o primeiro, mais feliz dentre os humanos.


domingo, 16 de junho de 2019

BAIRRO PERIFÉRICO


O sol se pondo, a tarde morna,
os operários e suas mochilas.
Ladeiras, ruas, vilelas,
mulheres de curtos vestidos,
decotes protuberantes.

Crianças brincando em calçadas,
poema quente ao crepúsculo.
Os homens, mulheres chegando
e entrando em casas pequenas,
despindo as vestes suadas.

Vai caindo a noite, quase festiva.
Os homens apertam as mulheres,
e estas se dão, sequiosas.
Suor, o sêmen, os fluidos,
verão acendendo os desejos:
quão linda é a magia do sexo!

Conversas, os risos, as mesas,
a dança dos copos nos bares.
Tevês, novelas, notícias,
queixumes, atrito nas casas.

Existe a tensão n'alguns becos
onde homens suspeitos conversam
e quase nunca sorriem, 
e o bairro lhes é como um servo.

A Lua, redonda, bonita,
reluz sobre as casas e bares,
prateia os telhados e muros,
atiça a alegria da gente
e é um canto lotado de vida.


sexta-feira, 17 de maio de 2019

A NOITE EM DUAS FACES

Vejo a noite da janela,
as mulheres caminhando
com seus trajes sedutores.

Eu, já velho, avisto a noite
como à lua tão distante.

Mas eu velho, mas que velho?
Que velhice que me assola?
Tenho pulsos, tenho anseios,
mas idade, não, jamais.

Quero a noite e seus pecados,
nessa noite me atirar.
Porém, sei que a noite é puta,
não a puta que eu respeito, 
por querer ganhar seu pão.

Não, a noite é meliante,
é rameira perigosa,
é sereia e é valquíria,
é uma ninfa tão mortal...

Mas que importa, se ela é ninfa?
Pois com ninfas já vivi.
E livrei-me todavia
do feitiço inebriante
com que as pérfidas satânicas
me enlaçaram nos seus braços.

Mas também a noite pode
ser doçura comovida,
se alguns olhos nos seus entram,
traduzindo acordes brandos
e o vulcão do coração.

Da janela fito a noite,
que é feroz e que é serena,
meretriz afeita ao crime,
que é uma amante apaixonada.

Ai, a noite e suas faces,
qual moeda para apostas.
Ganho ou perco nesse jogo?
Mas que noite a que me espera?

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

SE EU COMETER O ATO EXTREMO...

Se eu cometer, devastado, o ato extremo,
que infernos e satanases implacáveis me aguardarão,
num ignoto, imaginário e absurdo outro lado da existência?
Serão os entes maus e os sofrimentos frutos da imaginação de uma mente sobrevivente à morte  e perturbada,
Ou unicamente me libertarei de todos os percalços  e agonias que decorrem de existir?

domingo, 8 de outubro de 2017

DAS LICENÇAS POÉTICAS

Às vezes (ou muitas vezes) publico com licenças poéticas acidentais: reviso, reviso o texto e não vejo que repeti a expressão às vezes mais de uma vez. Mas em geral não retifico: fica como licença e pronto! Que me perdoem os amigos leitores e escritores, mas abuso desta liberdade (licença poética) que temos.

RECANTO

  E então, você não canta Nem me chama pra sonhar Debruçado na varanda, Ante a luz do seu luar? E então, não me convida A dançar a dança ard...