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sexta-feira, 12 de agosto de 2022

VIVENTE MORTO

 

O bar, a música, pessoas, gargalhadas.
Passa o homem tristonho, macambúzio,
Qual robô, por entre as mesas álacres.
Lassidão, a dor, fio de lágrima,
O vazio torturante do abandono
E a dor tão perfurante da traição.


Cambaleia o infeliz, embriagado,
Quer sentar como um mendigo na calçada
E chorar entre soluços, convulsões.


Ah, mas que desejo mais soturno
De tombar ali, sem cor nem vida,
Ou de ao menos cantar melancolias,
De correr, sumir, morar no nada.


Ai, o bar é claro e iluminado
E é contudo sombrio e tão escuro.
Tanta gente, conversas pelas mesas
E um deserto e quietude sepulcral.


Toca um samba tão bonito, tão sonoro,
E o silêncio é de à alma torturar.
A alegria toma conta do ambiente,
Mas não toca jamais aquele homem,
Cuja alma se encontra tão distante,
Num lugar onde a vida não tem vez.









A MEL E RAPOSA

 Que minhas mãos de afago puro
Sobre suas cabecinhas inocentes
Se façam a magia a guardá-las,
Protegê-las dos males do mundo.
Meu olhar de amor contenha o feitiço
De lhes dar todo, todo bem do universo.
Meu amor imenso seja o deus poderoso
A fazer que seus dias sejam sempre felizes,
Paraíso merecido por todo animal.

VIVER POR VIVER

 Missão alguma senão aquelas que me dei
Por amor, por entrega e os princípios que nutro.
Nenhuma entidade me sussurra ou dá rumo.
 A solidão, grande, obesa, inflada, gigante,
Expande-se e ocupa cada palmo da casa.
Que solidão -- me pergunto e replico
--Se as cadelinhas dividem cada espaço comigo?
A solidão, me respondo, do espírito árido e boca trancada
A fazer-se masmorra, calabouço do verbo
Pejado dos ódios, de dor, desprezo e descrença.
Não busco n'alguma mulher uma cúmplice,
Se a alma incrédula não quer mais confiar.


Nenhuma missão além das cachorras.
Às vezes desejo deixar-me morrer,
Assim como eu fosse criatura de areia,
E o vento me viesse desfazer, diluir.
Deixar as cadelas a um herdeiro bondoso?
Por que morrer, entretanto?
Por fastio, desengano, por tédio?
Morrer ou varar noites brancas na esbórnia,
Velho etilista, tardio notívago,
Veterano boêmio entre mesas de bar?


Se  dúvidas chegam, não busco por norte:
Qual homem tem luz pra saber seu caminho?
Pois nós, vis humanos, jamais somos sábios,
Ou então não teríamos deploráveis deslizes.


Sem ser aclarado, vou pisando somente
Os chãos dos meus dias, vivendo os momentos,
Sem buscar pão da vida ou sentido qualquer
Pra vagar pelo mundo, existir tão somente.



sábado, 16 de julho de 2022

A ILHA

 Existe uma ilha no Atlântico,

Onde o mar verde arrebenta

E só se desnuda quem quer:

Ali o nudismo é careta.


Na ilha ninguém tem par --

Só se o amor bater forte.

A deusa que ali se louva

É a deusa libertinagem.


Pra saciar Madalena

É necessário uma fila.

Lista de amantes do Saulo

É da grossura da Bíblia.


Não é uma regra andar louco,

Só quem deseja que pira.

Não há sistema ou trabalho:

Lá só se vive de brisa.


Se vem chegando a tristeza,

A poesia afugenta.

Todos bem sabem que a lira

Não necessita ser triste.


Ilha de pura paixão,

Da juventude à velhice;

Jorge José ama seis,

Ana Maria ama vinte.


Ninguém concorre ou compete,

Todos se irmanam profundo.

O ódio por lá não existe,

Só puro amor é o que impera.


Lá não se mata nem caça,

Comendo-se aquilo que a terra

Dá, faz brotar e ser fruto:

Martírio é pecado mortal.


Ilha formada do nada,

Vinda de um sonho tão claro

De um poetinha sem regras,

Com alma tão libertária...

quinta-feira, 14 de julho de 2022

O SAGRADO E O SATÂNICO

 

 Hipócrita é o ser humano,

Nocivo é o ser humano,

Pois sempre louvando o sagrado,

Mas sempre amando o satânico


Satânico é gerar a pobreza,

Satânico é encorpar a miséria,

Matar ou ferir a carne

Ou alma de seres viventes.


Que existe de mais sagrado

Que uma existência condigna?

Que existe de mais sagrado

Que o bem-viver dos teus filhos?


Que existe de mais sagrado

Do que o momento em que chegas

E que te aninhas no quarto,

Entregue de todo à paz?


Que existe de mais sagrado

Do que o momento em que paras

Pr'ouvir cantigas bonitas

E te emprenhar de emoções?


Que existe de mais sagrado

Que entrar na mulher tão querida,

Sentir vibrar o seu corpo

E um deleite descomunal?



Que existe de mais sagrado

Que o colo, a mãe e a criança,

Do que a ternura nos olhos,

Do que transbordar em paixão?


2022

Revisto e modificado em 11.02.2023





quarta-feira, 13 de julho de 2022

A MORTE DA POESIA IV


Não há não mais beleza matutina,

Não há não mais vontade de cantar,

Não há moça bonita debruçada na janela,

Não há não mais nostalgia nem saudade,

Não há passado porque o ontem nas memórias se apagou.


Não há  mais rosas nem jardins, nem jasmineiros,

Não há não mais lugar pra minha lira.

As maritacas viraram pássaros urbanos,

Os gaviões tiveram, então, destino igual,

E os micos hoje são caçados como ratos,

Sem "habitat" e sem abrigo ou belas matas.



Não há não mais o pio "agoureiro" da coruja

A inseminar na mente insana o que é funesto;

Nem há não mais ruas descalças de singela poesia;

Não há não mais lugar pra minha lira,

Se até em meu peito os anseios são de argila,

Se o mundo encheu-se de edifícios suntuosos

Pra cultivar poder, miséria e capital,

Se massacrar, sobreviver é que é o mister,

Se as emoções submergiram no asfalto tão brutal.


2022

Revisto e modificado em 11.02.2023







sexta-feira, 1 de julho de 2022

A MORTE DA POESIA III


 Não há mais dança de roda ou ciranda,

Não há mais bela moça a sonhar a varanda,

Nem mais há casais contando as estrelas,

Seresteiro nenhum cantando ao luar.



Não há mais poesia no mundo,

Não há mais poesia em meu mundo:

Meus anseios são todos de ferro,

Concreto, cascalho, pvc, pó de pedra.



O tempo foi duro, cimentou-me as quimeras,

Cobriu de azulejos meus campos de lira,

Tornou sons de draga as mais belas cantigas,

Secou a nascente da minha emoção.

RECANTO

  E então, você não canta Nem me chama pra sonhar Debruçado na varanda, Ante a luz do seu luar? E então, não me convida A dançar a dança ard...