Pesquisar este blog

domingo, 12 de julho de 2020

O MASSACRE AOS ORIXÁS

--Conta a mim, Pai Oxalá,
Que foi feito de Xangô, 
Baluarte da justiça,
Seu machado e seus trovões.
--Que podia, dize, ó, filho,
Contra os torpes seguidores
dos demônios poderosos
Travestidos de profetas?

"Iansã também morreu, 
Consumida por seu fogo
E por obra de oradores
Que só pregam preconceitos."

--E de Oxóssi o que me dizes?
Que tem feito pelas matas
Nestes tempos tão malditos
De matar floresta e bichos?
--Afogado nos garimpos,
Por mercúrio envenenado,
Por grileiro, incinerado,
Moto-serra o retalhou.

"Iemanjá foi atolada
Em tapetes de óleo preto,
Ante o riso de homens sórdidos
que desprezam natureza."

"Pobre Oxum, foi ofendida,
Espancada por racistas,
Foi chamada de 'devassa',
Foi expulsa do País."

"Foi Exu também recluso,
Nomeado 'meliante',
Encerrado a sete chaves:
Não há mais um mensageiro."

"Omolu não fez mais curas,
Foi chamado 'charlatão'
Por pastores de mentira,
Milionários crimonosos."

"Ossaim se viu proibida
De curar com suas ervas
Usurpadas pelos brancos
Que detêm laboratórios."

"Espancado Oxumaré
Por ser macho e por ser fêmea.
As milícias 'moralistas'
O proíbem de dançar."

"E Nanã, capturada
Lá do fundo dos seus rios,
Foi trancada como louca
Torturada a eletrochoques."

"Ai, agora um negro odeia
Os irmãos da mesma raça.
Vejo os índios sendo mortos,
Declarados inimigos,
Quilombolas humilhados,
Declarados parasitas."


"Deus agora é o deus dos brancos
Arrogantes e cruéis.
Nunca vi tanto racismo
Numa gente tão mestiça:
Vou fugir lá pra Nigéria,
Vou pra Togo ou pra Benin,
Mas não fico nestas terras:
Negro aqui não pode, não."
 

sexta-feira, 5 de junho de 2020

SE EU SOUBESSE


Há coisas que em nossa vida
só trazem dor e tristeza:
soubesse, passava ao largo,
bem longe dos teus encantos.

Devia não ter provado
da água que tu me deste,
do almoço que preparaste,
do vinho que me serviste,
dos versos que me fizeste.

Devia não ter gozado
dos beijos que me beijaste,
do corpo que tu me abriste,
dos olhos com que me olhaste,
delírios que me causaste. 

Hoje, sozinho me vejo
mendigo de algum afeto,
saudoso de nossos dias,
frangalho do que era ontem,
um morto vagando em vida.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

AMOR, VOLÚPIA

Deixa eu te abraçar avidamente,
 Como se fosses
 Frágil menina.
 Deixa eu te morder os lábios quentes
 Num'ânsia quase
De um'agonia.


Deixa-me beijar então teu ventre
Qual venerasse
A pele fina.


Usa-me, que eu quero ser brinquedo
 Dos teus regalos
 E teus caprichos.


Quero te desfrutar inteiramente,
 Qual foras néctar,
Licor ou vinho.

Vou no gozo chegar à Via-Láctea
 E te encontrar
 N'alguma estrela,
 Num asteroide
Ou paraíso.


 2015

quarta-feira, 3 de junho de 2020

NÃO CONTE NADA

Não conte, não, dos espinhos lá de fora,
Se eu apenas quero lhe sentir o rosto quente
Repousando no meu peito, que te acolhe,
E os lábios que se amassam, ávidos, nos meus.

Não conte, não, qualquer vivência adquirida,
Que eu quero agora é esquecer sua partida
E a prostração que sua ausência trouxe a mim.

Faça de conta que o ontem nunca houve,
Que este momento é tudo, tudo quanto existe
E que nunca, nunca mais vai terminar.

Não conte, não, dos seus amores fracassados,
Não fale nada de aventuras mal vividas,
Não diga nada, não, sobre os seus dias,
Pra que eu não abra a porta e aponte a rua
E diga: "A volta dói bem mais do que a partida".

CANTA E DANÇA

A tua tristeza é tão grande,
que o dia de sol radiante
parece a teus olhos sombrio.
Conta, menina, onde nasce
o triste que tem nese olhar.
Canta, menina, em solfejos,
alguma canção de chorar.
e, assim, em teu pranto de moça
abranda essa dor do teu peito
e sai pela rua a dançar.

2020

VOCÊ, PRIMAVERA

Não fique, venha: como quero que me venha!
Tenho um paraíso em seus afagos,
Na sua voz, um cantar de renascença,
Na presença, um viver em plena chama,
No seu corpo, um delírio de queimar
E na ausência, um desejo de calar.

Venha à tarde como brisa vespertina,
Venha à noite como um céu de poesia
E se vista em transparências azuladas,
E se abrace ao meu corpo desejoso,
E não pense, não fale, apenas dance
E arda assim como se fora um sol candente.

Venha\comigo olhar a vida da janela
E dizer que a primavera se anuncia no horizonte
E, inda mais, já chegou e se eterniza
Com as flores coloridas, suas cores abundantes,
Sua vida em festa acesa, alegria que retumba,
Muito embora eu saiba, a primavera, ela é você.

RECANTO

  E então, você não canta Nem me chama pra sonhar Debruçado na varanda, Ante a luz do seu luar? E então, não me convida A dançar a dança ard...