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sábado, 20 de janeiro de 2024

ANA CELINA

 Por que bebe Ana Celina,

Solitária em sua sala,

Tão tristonha, na penumbra,

Pranteando ao fim da tarde

Iluminada de verão?


Lembrará momentos plenos

Soterrados no passado,

Numa dor de quase luto,

Corroída de saudades,

Sem podê-los retomar?


Sofrerá por ter perdido

Um amor que nunca esqueça

Ou então porque este mundo

De tão rude, a tenha feito

Se sentir medrosa e só?


Que pretende Ana Celina,

Mergulhada no seu gim,

Num silêncio de deserto,

Num olhar vago e distante

A fitar somente o nada?


O que dói n'Ana Celina

Que se estampa no semblante

Do seu rosto delicado,

Tão suave, apessegado,

Tão bonito de mulher?


O que chora Ana Celina

Na clausura dessa dor

A torná-la  débil, tênue,

Indefesa e pequenina,

Porcelana a se quebrar?


Proteger Ana Celina

Eu queria sem demora,

Se seus olhos permitissem,

Suas mãos se me estendessem

No abandono à solidão.


Quero ver Ana Celina

Deslizando pelos dias

Como fosse uma menina

Num sorriso luminoso,

A correr sobre patins.






sábado, 30 de dezembro de 2023

ONDA

 Que coisa é essa que vibra no meu peito?

Seria um grito, música, agonia;

Seria arroubo, afã, fogo de vida?

O que brinca assim na minha alma

Tão baça, pálida, obscura?

Seria uma cantiga que vencesse o tempo,

O siso, os desencantos e a fadiga,

As agruras, os percalços e as vivências,

E se instalasse em mim qual flor no árido?

O que será que dói, que canta ou que extasia,

Ou que tortura ou desvanece e não decifro?

Mas que onda é essa que vem, rebenta assim de súbito

Na calmaria  quase que imóvel deste meu mar

Assim tão quedo, na linha do equador?

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

HOMEM DE FERRO E CIMENTO

 Quem não se encanta com sons de uma canção

Nem se rende a um olhar angelical de um animal...

Quem não se enleva em contemplar as verdes matas

Ou ver o mar a tocar o céu bem no horizonte...

Quem não delira nas paixões mais extremosas

Nem ama ser algum neste planeta...

Quem não se deixa bulir por arte alguma 

Anda e vegeta, sem viver jamais.

Não mais do que um robô de carne e osso,

Não tem alma nem carrega sentimentos,

É rude e insípido qual pó de asfalto

A voar pelas pistas sem poema e sem canção.


O ABANDONO À ESPERANÇA

 Deixemos de lado toda esperança:

Ainda pensamos como há cem anos,

Ainda amamos os generais e caudilhos

E os influentes senhores feudais.


Esqueçamos os sonhos de dias sublimes

Pejados de paz, felicidade e alegria,

E ergamos nossas taças, brindemos

Ao nada, ao nada, não mais do que ao nada!

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

A AMANTE

 Por que eu não iria embora,

Se cá nós trocamos injúrias,

Com ela é a mais pura luxúria,

E aqui nosso tédio é demais?


Não peça a mim que não vá,

Se a moça se encanta co'a Lua

E quer se banhar das estrelas

E, cálida, vem me beijar.


Por que eu ficaria sem ela,

Que aperta as mãos minhas nas suas,

Cantando uma linda cantiga,

E pisa nas águas do mar?


Tem tanta esperança nos olhos,

No rosto, um sorriso que é luz,

Na cama, delírios frenéticos,

No sono, uma paz sem igual.


Por que deixaria essa moça,

Se volto aos dezoito de idade,

Se sonho qual fosse um menino,

Se agora só entendo de amar?

domingo, 22 de outubro de 2023

NOSTALGIA III

 A juventude acesa, as mil emoções, mil anseios,

Os dias luminosos, o rock e os amores efêmeros 

A funda tristeza dos amores perdidos

E a mais indescritível alegria de viver.


Não tenho jamais a insana, descabida quimera

De desejar minha volta aos vinte de idade,

Mas quero a alacridade das cheias manhãs

E das tardes se abrindo na festa da vida,

Assim como flor desabrochada ao sol claro.

Não quero, não, as assombrações de minh'alma

Em seus gemidos apavorantes, agoureiros e tétricos.

Só busco fazer que a folia dos dias

Adentre inteirinho meu coração desbotado.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

O MEDO

 O medo envolveu-me de súbito,

E não me consegui libertar.

Falei: "Arreda-te já 

E volta pro fundo das trevas,

Pro inferno de onde vieste!"

Ao que ele me respondeu: 

"Não venho de canto algum

Nem mesmo surgi do nada:

Não lembras que te sou um pedaço

E moro dentro de ti?"

A REVOLUÇÃO DOS ARTISTAS

  Se não existe em definitivo a justiça dos homens Nem Deus no Universo a nos defender, resgatar, Pois que venham então de todos os lados Mu...