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terça-feira, 24 de março de 2009

E SE EU FOSSE...?

E se eu fosse o anjo lírico
Que, entre cantos delicados,
Te abraçasse avidamente,
Pra voarmos em quimeras...?

E se eu fosse o anjo louco
Que invadisse teu sobrado,
Te despisse nas escadas
E te amasse no jardim...?

E se eu fosse o aventureiro
Que roubasse-te de súbito,
Pra sairmos mundo afora
E sem dia de voltar...?

Tu então te entregarias?
Tu então te envolverias,
Sendo minha e tão só minha,
Minha assim como meus olhos?

2001

A PAIXÃO

A paixão é o imensurável, insuperável, inequiparável êxtase;
É nas narinas o aroma do perfume que envolve, que arrebata, que inebria:
É na língua o gosto do mais sublime néctar,
No sexo o paladar do corpo da morena a fremir num fervor inqualificável.

A paixão é, por si só, o tudo: a chegada, a conquista,
O nada-além-almejar, o nada-além-desejar.
A paixão é delícia, é delírio, é orgasmo, apogeu.
É a beatitude maior, é o mais pecaminoso e mais delicado nirvana.
2006

NÃO QUEIRA AINDA A MORTE

Não, não queira ainda a morte:
Ainda existe entardecer,
E a cidade ainda é bonita de se ver.

Não, não queira ainda a morte:
De manhã algum pássaro ainda canta
E ainda nos resta alguma natureza.

Não, não queira ainda a morte;
Vez por outra algum olhar concupiscente
Ainda pousa nos seus olhos longamente.

Não, não queira ainda a morte:
Ainda há distâncias para viajar
E talvez algum caminho a seguir.

Não, não queira ainda a morte:
O além-horizonte pode ser lugar algo diverso,
Amanhã pode ser dia algo diverso,
Quem sabe?
- Embora eu muito duvide.
Não, não queira ainda a morte.

SOLIDÃO

Não, solidão, não te consumas:
Já estou aqui de volta:
Tu és minha, sempre foste,
E eu sou teu eternamente.

Sou tão teu, tão teu completamente,
És tão minha, tão minha inteiramente,
Que a aflição, temor, desassossego
Das paixões a mim sempre trouxeram
Uma saudade de ti tão sem tamanho.

Sim, solidão, sei que és muda e  sei que és gélida,
Mas sei também que em ti há paz,
Que há sossego, sem receio, apreensão
Que  tampouco existe algum espaço
Para o medo da cruel desilusão.

Sim, solidão, estou eu aqui de volta
Como tu, calado e sozinho nesta casa.
Já maduro, sem enganos, sem quimeras.
Tão sisudo e tão silente como tu,
Mas feliz de certo modo pela paz que tu me trazes.

Eu, sombrio, mas vivendo sossegado,
Eu, tão triste, mas a salvo de ilusões
E sem risco de um tamanho desencanto
Vir ferir-me mortalmente cruel e mortalmente.
Eu, feliz de certo modo por estar
Retornado ao nosso eterno casamento.

II

Toda vez em que uma amada distante parecia,
Te sentia tão por perto e muito minha.
Toda vez em que uma jura  insincera me soava,
A tua voz, tão verdadeira,  eu sempre ouvia.
Quando um caso de amor tristemente se acabava,
Eras tu, braços abertos, que acolhias
Minha dor nesse teu peito tão gelado.
Aqui estou, solidão, enfim de volta,
Para nunca, solidão, te abandonar.

2005
revisto e modificado em 2012

ABRIR AS JANELAS

Eu quero abrir minha janela em música,
eu quero abrir minha janela para lançar música no ar
e transbordar a casa da claridade da manhã.
Eu quero me lançar sobre a vida e o luzir do dia,
com a alegria de ave a deixar o cativeiro,
com a paz de anjo a planar no firmamento,
com o deleite de quem goza no corpo da mulher amada.
2003

O SILÊNCIO

O silêncio, mudez total, completa,
atravessa cada cômado,
aquieta a casa inteira,
silêncio tumular, absoluto.

O silêncio de fazer perder o sono
e revirar-se qualquer mortal por toda a noite.
O silêncio, que é calado como a morte,
encontra todavia, com perplexidade imensa,
minha alma ainda mais silenciosa.

O silêncio, a minha alma.
A minha alma, que é sem dor nem rigozijo,
sem sonhos, sem desejos, sem enganos,
que fica imóvel, sem folia e nenhum pranto,
a sorver lentamente esse silêncio.

Minha alma se atou de vez a esse silêncio,
numa comunhão de eterno casamento,
e ambos se fundem e se tornam coisa única:
a minha alma é o próprio silêncio então.

II

Quero apenas a quietude do silêncio,
O semblante inexpressivo do silêncio:
Quero somente o silêncio,
Nada, nada que não seja o silêncio.
2004

OUVIR MÚSICA

Ouvir música é como um transcendente culto.
Quando ouço música, é como se me ligasse estreita, profunda e harmonicamente a Deus.
Mas, se alguém abre a porta e e barulhos entram no cômado,
É como se adentrassem inúmeros demônios
Que me tirassem, sarcásticos, dos braços do Pai Eterno.
2005

RECANTO

  E então, você não canta Nem me chama pra sonhar Debruçado na varanda, Ante a luz do seu luar? E então, não me convida A dançar a dança ard...