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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

DESENGANOS

Como não  alimentar este tamanho desencanto,
Se nenhum vento subitâneo, inesperado
Vem trazer motivo de felicidade duradoura
E desejo de viver e festejar a própria vida.

Como abrigar no peito já cansado a esperança,
Se é tão firme a certeza de  que nada irá mudar,
Se não há justiça além da imoral justiça humana
Ou mundo etéreo onde os erros sejam reparados?

O olhar incrédulo olha o mundo, sem enganos,
O tédio se abate sobre a alma de anseios muito poucos.
Cansativa e árdua se faz a travessia pelos dias.
Tudo é pálido, tão desbotado, não tem qualquer razão.

2013




IMPUDÊNCIA GERAL

Na pornográfica emissora
Da tevê tão pornográfica,
A pornográfica autoridade
Disse mentiras pornográficas,
Para a pornografia geral.

O político impudente,
No telejornal sem pudor,
Declarou, despudorado,
Que não era um impudente,
Para a impudência total.

O obsceno locutor,
Obscenamente, não contou
O que havia de obsceno
No obsceno território,
Para a obscenidade universal.

2013




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

MESA DE BOTEQUIM

Mesa de botequim, tu és muito mais ampla
Do que as dimensões em que te veem nossos olhos,
Porque comportas alegrias, ideais, tristezas
E as mais baratas e as mais fundas filosofias.
Mesa de botequim, tu és infinita.

Acolhes a dor mais profunda,
O desespero mais latejante
E a inquietude cansada dos vencidos,
Sendo a confidente dessas coisas todas
Que o peito da gente bem sabe sufocar.

Suportas, impassível, compreensiva,
O murro inflamado inflamado de veemência
Dos mais ardorosos convictos
E ainda vês as imagens dos devaneios
Dos que alimentam seus ideais.

És inteirada, bem-informada,
Sabes da política,  do futebol,
Da fome, da história, da violência...
Sabes de tudo, de todos, dos meros boatos,
De todas as coisas em todas versões.

És ainda lasciva como a proposta
O o acerto feito com a mulher impudica
que sobre ti, seios à mostra, se debruça.

Mesa de botequim, és filosófica,
És culta, política, idealista,
És humana com mil sentimentos:
Mesa de botequim, tu és o mundo.

1980





O FOLIÃO


Não venha falar de vida, morte ou sorte
Nem da minha estrada com os seus espinhos,
Pois o que eu quero é me perder por entre cores,
Plumas, flores, brilhos, danças, tangas, brigas,
É me derramar
Pelo Carnaval.

Não venha falar das horas que eu já passo
No trabalho e dos momentos mais suados que virão,
Pois o que eu mesmo quero
É entrar no tumulto
Tal qual quem mergulha
Nas nuvens e voa.

Quero é me embriagar por entre penas,
Cores, danças, marchas, brilhos, sambas, luzes,
Ser onipresente
Neste Carnaval.

Quero é me espalhar por todo canto
Feito bomba que estilhaça e que cada pedaço
Seja vivo e reluzente como as cores deste dia.

Quero estar alheio a todo drama,
Fome, tiro, preço, "papo", acordo, míssil;
Só sei que nós, homens,
Somos ante Deus
Todos foliões.

1981

sábado, 12 de janeiro de 2013

REZA DO CAMPONÊS

Oh(!), meu Jesus
Crucificado,
Venho pedir:
Dai-me, Senhor,
O pão, trabalho e algum cantinho pr'eu morar.
Dai-me, Senhor,
Muito sossego,
A terra, a chuva e uma mulher pra muito amar.
Dai-me, Senhor,
Uma varanda
E um bom roçado bem verdinho pr'eu olhar.
Dai-me, Senhor,
Uma família,
Filhos bonitos pr'eu na missa apresentar.
Dai-me, Senhor,
Muita saúde,
Mas, se preciso, um bom doutor pra me curar.
Não me negueis,
Porém, Senhor,
Uma viola e a alegria pr'eu poder tocar, dançar, cantar.

2013

Revisto e modificado em 26.01.2023

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

IRMANAÇÃO

Minha harmonia co'a Natureza
É uma irmandade que reconheço
Em face às plantas, em face aos bichos
E cada árvore e cada regato que, cristalino,
Por entre ramos, por entre pedras, vejo fluir.

Olhar embevecido o verde das colinas
E das serras exibindo uma beleza  exuberante.
Notar entristecido os micos e gambás
Buscando o que comer em urbanas regiões.
Urbanizadas matas, invadidas pelas bestas
Humanas asquerosas que as usurpam por ganância.
Ah! Bichinhos despejados de seus lares e de abrigos,
Territórios estuprados por covardes racionais.

Eu me fascino ante as matas e folhagens majestosas
E assim cultuo as águas, cada arbusto e cada pássaro,
Numa emoção tão transcendente e tão singela de menino,
Na consciência plena que dos seres, todos seres sou irmão.


Armas e venenos no encalço de inocentes,
O fogo ao seu redor, lancinantes sofrimentos,
Morte, morte, profusão de mortes dos infernos
E a satânica alegria dos vis negociantes.


Quem disse que o Diabo não existe?
Ele existe em quantidades incontáveis
De malditos que entre feitos demoníacos
Vão matando os animais e agredindo a Natureza.
Como eu gostaria de os poder chamar de homens
Na bendita acepção dos que têm bom coração.

2013

DOS MEUS MORTOS

A ausência dos meus mortos é tão triste, inconsolável.
Falo dos mortos humanos e dos mortos animais,
Falo que não creio em vida que não seja esta da Terra
E por isto minha dor é muito mais profunda.
Meu consolo é que um dia morrerei como eles todos
E, inexistente, nunca mais terei saudades
E esta dor tão torturante que maltrata as  criaturas.

II

Se houvesse outra vida, eu abraçaria e beijaria os meus humanos mortos
E os meus mortos de quatro patas e focinho
E, sem exceção, todo finado animal que eu encontrasse:
E assim formaria com eles, os humanos e os bichinhos,
A família maior  do Universo sem tamanho.

2013

RECANTO

  E então, você não canta Nem me chama pra sonhar Debruçado na varanda, Ante a luz do seu luar? E então, não me convida A dançar a dança ard...