Pesquisar este blog

quarta-feira, 31 de março de 2010

CERIMÔNIA

A autoridade tão esperada chegou.
As pessoas se agitaram, aplaudiam,
Sorriam como competetentes prostitutas
Ofertando-se aos homens passantes.

A figura central começou o discurso:
Fala vã em elegante linguagem.
Os olhos dos assistentes brilhantes,
Sorrisos de plástico concordantes.

Aglomerado de gente, roupas de caros tecidos.
Aplausos, reverências, emoções fabricadas,
Garçons circulando, drinques pedantes,
Gente interesseira traçando projetos.

O silêncio tomava conta de mim,
Porém, maior que o silêncio era o desprezo,
O fastio, a náusea, o impaciente tédio.
Saí pelas ruas idolatrando os indigentes
Tão cheios de verdade a se deitar nas calçadas.
Encontrei um cahorro, estalei os dedos,
E o bichinho veio logo buscar um carinho
Das minhas mãos imundas de humano.
Fiquei imaginando uma sociedade diversa,
Que tivesse a elevação moral dos cachorros.


2010

terça-feira, 23 de março de 2010

A ESTRELA CANTA

A estrela canta,
e a sua voz suave de pluma se expande pelos quatro cantos do teatro,
e atravessa as paredes para ganhar o Universo.
Fascínio, hipnose, alumbramento...
A voz da estrela me leva consigo pr'um mundo encantado
de puro lirismo.
Eu, embriagado de sua voz...
sua voz...
sua voz, que emana fachos de luz coloridos
que iluminam docemente a alma de todos.

Meu olhar embevecido contempla todo o tempo aquela diva,
e minh'alma se vê escravizada pelo seu cantar.
Eu, escravo, absorto, mais pareço um menino
arrebatado pela primeira paixão.

2010

DURMA

Não, menina, não se dê a esperas e divagações:
Não fique a aguardar seu príncipe encantado.
Se você não sabe, esse até já veio e já se foi
Sem que você se tivesse apercebido,
E nada tinha, menina, de encantado
E estava muito longe de se poder chamar de   príncipe.
Não se entristeça, menina, e não sonhe:
Apenas feche as janelas e durma.
Durma, menina, durma.

2010

domingo, 7 de março de 2010

MARIANA


Túlio Moura era de rocha,
Um valente tão calado;
Homem longe de gracejos,
Se tivesse uma pendenga,
Resolvia era na faca,
Já deitara mais de cinco.

Mariana era bonita,
E, se Túlio desabava,
Só se dava o acontecido,
Quando a tinha sobre o leito.
Mariana tanto ardia
E se dava de tal modo,
Que ele tinha uma certeza:
Outro homem não queria.

Pedro Souza ria à toa,
Nunca fora violento;
Piadista conhecido,
Se tivesse uma pendenga,
Resolvia era na paz:
Evitara mais de cinco.

Mas um dia Mariana
- ninguém sabe nem explica -
Deparou com Pedro Souza
E por ele se encantou.
Demorou um bom tempinho,
Mas um dia - que remédio? -
Mariana se entregou.

Mariana era bonita,
E, se Pedro não sorria,
Só se dava o acontecido
Quando a tinha sobre o leito.
Mariana tanto ardia
E se dava de tal modo,
Que ele tinha uma certeza:
Outro homem não queria.

Mas num dia de tragédia,
Túlio Moura tudo soube,
Disse ofensa a Pedro Souza,
Tirou faca da cintura,
Mas o Pedro era traíra:
Com um tiro o abateu.

E assim de modo triste
Se selaram os dois destinos:
Túlio Moura no sepulcro,
Pedro Souza na cadeia.

Com bem menos de dois meses,
Um viúvo da cidade
Visitou aquelas bandas,
Tendo visto Mariana,
Logo, logo, endoideceu.

Mariana era bonita;
Se o viúvo não chorava,
O tal fato só se dava,
Quando a tinha sobre o leito.
Mariana ardia tanto
E se dava de tal modo,
Que ele tinha uma certeza:
Outro homem não queria.

2010
Barão da Mata

sábado, 6 de março de 2010

NADA MAIS

Meu canino amado, sinto pelos teus olhos
e pelo teu resquício de ânimo, que já se está esvaindo,
que muito em breve tu me deixarás;
E a tristeza se bate sobre mim,
E traz como contrapeso este meu insano inconformismo.
Inconformismo, amado, pelo fato de, mesmo após os cinqüenta,
Não ter eu ainda alcançado crer na existência de uma alma perene
Que, invulnerável, resista à morte,
E porque exatamente esta descrença me deixará sem um alento quando te ausentares.

Lembro-me de quando te resgatei das sarjetas.
Não tinha um lugar para ti e por isto te deixei em casa de outrem,
Alguém que te batizou de Lobo, mas nunca te chamava,
Mas vivia chamando pelo nome do maltês da vizinha,
E tu, coitado, atendias, achando que te chamavas Snoopy.
Quando vieste então para minha companhia, tive então de te renomear: Snoopy.

Superaste a indigência e a indiferença, além de dois cânceres que te acometram.
Foste valente, venceste tudo. Tiveste fibra.
Mas agora envelheceste e adoeceste novamente.
E não me pareces, desta vez, pronto a enfrentar coisíssima alguma
Estás combalido e tristonho, frágil, sem garra,
E eu, igualmtente triste, sinto a tristeza impotente me corroer,
Justamente por ter a certeza de que nada posso fazer
Senão, enquanto vives, te abraçar e beijar teus pêlos com a sofreguidão de náufrago
[ agarrado à tábua de salvação,
Nada mais, meu amor,
Nada mais,
Infelizmente,
Meu amor.

2010

NOITE DESERTA

Na noite de surpreendente chuva as ruas se fizeram desertas
                                        [subitamente.
Poucas vivas almas circulam, fugidias e apressadas,
e o meu peito, ávido de vida, teve de guardar dentro de si
uma ebulição da imensidade de uma gigantesca cachoeira.

Eu queria ir às ruas e buscar a vida, mergulhar na vida
com a voracidade sem virtude dos inveterados pecadores.

Queria que Dionísio cantasse com sua voz licenciosa
os louvores mais sonoros às orgias desmedidas.

Queria que as ninfas formassem um coral febril, luxuriante,
e, lascivas, dançassem e se despissem entre cantigas sensuais.
Que se entregassem sobre mesas de bodegas
a nós, homens, caçadores de emoções.

Mas as ruas estão desertas, e Dioníso dorme no Olimpo,
talvez em ressaca e no recesso de um dia de pecado.
As ninfas devem estar adormecidas nas matas, bêbadas e nuas,
ressonando no cansaço de horas mortas de esbórnia e de risadas.

O meu peito faz que está calado, mas dentro dele há o enorme estrondo
da queda das águas densas sobre o rio caudaloso.
Tão silente a noite, e minh'alma sequiosa de vida, transgressão e liberdade,
de cores e de brilhos, dança, de aventuras e de risos,
vai-se pouco a pouco acinzentando, até se enegrecer tal como a noite
e também se entristecer, se aquietar e, frustrada, também silenciar,


2010

INCOMPATÍVEIS

Ela só queria a casa em ordem,
com berloques e aparelhos,
bela como altar de igreja,
e ele, o mundo inteiro, imenso,
pra se jogar, se perder.

Ela só queria, aos domingos,
o passeio às redondezas,
as visitas aos parentes,
e ele, a vida de aventuras
com meninas e loucuras,
noite inteira pra sambar.

Ela só queria noite ou outra
leve beijo, a carne morna,
os desejos saciados,
e ele, a amante mais fogosa
em volúpia incandescente
e a mais louca das paixões.

Ela só queria reuniões
com  parentes e os amigos,
uma festa vez por outra,
e ele, o ano inteirinho,
a mais plena das folias,
o mais inteiro carnaval.

O projeto que ela tinha
era os filhos já crescidos,
já rapazes bem vestidos
e a posição social.
E o projeto que ele tinha
era a vida mais intensa,
era a vida mais imensa
a bater dentro do peito
ou brilhar num bacanal.

1989
Revisto e modificado em 2017 e 2025

RECANTO

  E então, você não canta Nem me chama pra sonhar Debruçado na varanda, Ante a luz do seu luar? E então, não me convida A dançar a dança ard...