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domingo, 1 de dezembro de 2013

REBENTO AO PEITO

Se você me olhar qual moça enamorada,
com ar de quem suplica e ainda sonha,
serei suave assim como silente noite
somente maculada por acordes leves
que venham do longe pra nos comover.

Serei seu poema de amor infinito,
serei seu abrigo, aconchego e calor,
serei sua lira, dançarino e cantor,
brinquedo, ciranda, seu frevo e folia,
menino, seu pai, seu irmão, seu ardor.

Eterno até quando permita este mundo,
mas seu como os dedos e as palmas das mãos,
entregue aos seus olhos, seu corpo e su'alma,
serei seu pedaço, seremos um só,
serei qual rebento ao peito da mãe.

ESCURIDÃO

Minha tristeza roubou a claridade,
e o dia então não pôde se acender.
É tão escura a noite deserta e fria...
Mas é tão triste o samba e a rua, as horas...
Ouço os cães uivando, lamentosos:
em tudo há pranto, silêncio e lástima.
Eu morro assim, de um modo sereno e triste:
não agonizo, não me contorço, tampouco grito.
Morro mansamente qual lentamente me dissolvesse:
minha'alma não tem lugar para infernos, céus:
apenas se dilui devagar na tristeza escura
e se perde no nada a que bem a tristeza nos sabe levar.


POEMA DA MINHA AGONIA

Ai, meu canto vem de uma agonia
que rasga a carne como lâmina afiada.
Ai, a dor é lancinante da ferida
das brenhas d'alma e transparece nos meus olhos,
no retrato, nos espelhos, nos meus versos.
Mas como sangro! É uma sangria que não finda.
Mas como é negra essa tarde ensolarada!
Esse horizonte não é mais que um precipício.
Desejo a morte, que não quero e me apavora.
Não creio em sorte, Deus, reviravolta.
Ah, o canto triste vem da chaga do meu peito,
e os membros, lassos, nem sequer mais se debatem,
e eu baixo os olhos e pranteio certos dias:
minha tristeza, sei, bem sei, vai me matar.