Google+ Followers

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

ÀS VEZES

Às vezes,
faço versos como criança
que joga papéis ao vento,
pelo simples prazer de brincar,
pelo gosto singelo de ver
os meus versos apenas flutuar.

2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Sou um louco: quando vim ao mundo, a medida dos meus sentimentos se espatifou, e tudo se derramou em extrema abundância. Por isto amo sempre demais, odeio sempre demais, desprezo sempre demais, sofro sempre demais. Mesmo quando adoto posturas moderadas, faço-o porque às vezes evitar hostilidades é o melhor caminho, e oculto assim o meu pensamento eternamente radical. Tudo em mim é demasiado, não vim ajustado ao planeta em que vivemos

domingo, 22 de novembro de 2009

AMOR VERDADEIRO

Quero um amor verdadeiro
que cante na noite estrelada,
que brilhe nas noites sem luzes,
que seja intenso, tão belo, profundo
como os versos de amor do Vinícius.


Quero um amor verdadeiro
que assanhe de vida os meus dias,
quero um amor verdadeiro,
tão prenhe de querer e de entrega,
que nos faça uma só criatura.


Quero um amor verdadeiro
que seja imenso e de aço,
inabalável nas tempestades,
que seja uma orquestra de vida
e, invulnerável, se ria da morte.

2009

quinta-feira, 9 de abril de 2009

SERENATA

Serenata,
o canto
suave
em lamento,
em súplica.
Violão,
acordes
cortantes,
a música,
a voz...

O canto
pedinte,
os sons,
a noite,
a música,
as cordas...
as cordas...!
Acordas
e vês
que tudo foi sonho,
apenas um sonho,
não mais do que um sonho,
mulher tão sozinha...

Debalde
tu tentas
dormir novamente,
viver noutro sonho
a tal serenata
que nunca existiu,
a tal esperança
que sob a janela
jamais te cantou.

2009

CANTA

Canta vibrantemente como guerreiro enfurecido.
Solta a voz com toda a força da alma intensa, ensandecida,
Espalhando milhões de emoções ardentes pelo ar.

Canta, minha cantora... canta com a gana de quem ama,
De quem goza, quem odeia, de quem sofre enormemente.
Canta lindamente como um coral de passarinhos
Num iluminado, colorido, ensolarado amanhecer.

Canta, minha cantora, e me leva em tua voz
A todos os sentimentos que brotarem do teu peito fogueado,
Numa viagem encantada e banhada em delírio
[ e poesia.

2009

terça-feira, 24 de março de 2009

E SE EU FOSSE...?

E se eu fosse o anjo lírico
Que, entre cantos delicados,
Te abraçasse avidamente,
Pra voarmos em quimeras...?

E se eu fosse o anjo louco
Que invadisse teu sobrado,
Te despisse nas escadas
E te amasse no jardim...?

E se eu fosse o aventureiro
Que roubasse-te de súbito,
Pra sairmos mundo afora
E sem dia de voltar...?

Tu então te entregarias?
Tu então te envolverias,
Sendo minha e tão só minha,
Minha assim como meus olhos?

2001

A PAIXÃO

A paixão é o imensurável, insuperável, inequiparável êxtase;
É nas narinas o aroma do perfume que envolve, que arrebata, que inebria:
É na língua o gosto do mais sublime néctar,
No sexo o paladar do corpo da morena a fremir num fervor inqualificável.

A paixão é, por si só, o tudo: a chegada, a conquista,
O nada-além-almejar, o nada-além-desejar.
A paixão é delícia, é delírio, é orgasmo, apogeu.
É a beatitude maior, é o mais pecaminoso e mais delicado nirvana.
2006

NÃO QUEIRA AINDA A MORTE

Não, não queira ainda a morte:
Ainda existe entardecer,
E a cidade ainda é bonita de se ver.

Não, não queira ainda a morte:
De manhã algum pássaro ainda canta
E ainda nos resta alguma natureza.

Não, não queira ainda a morte;
Vez por outra algum olhar concupiscente
Ainda pousa nos seus olhos longamente.

Não, não queira ainda a morte:
Ainda há distâncias para viajar
E talvez algum caminho a seguir.

Não, não queira ainda a morte:
O além-horizonte pode ser lugar algo diverso,
Amanhã pode ser dia algo diverso,
Quem sabe?
- Embora eu muito duvide.
Não, não queira ainda a morte.

SOLIDÃO

Não, solidão, não te consumas:
Já estou aqui de volta:
Tu és minha, sempre foste,
E eu sou teu eternamente.

Sou tão teu, tão teu completamente,
És tão minha, tão minha inteiramente,
Que a aflição, temor, desassossego
Das paixões a mim sempre trouxeram
Uma saudade de ti tão sem tamanho.

Sim, solidão, sei que és muda e  sei que és gélida,
Mas sei também que em ti há paz,
Que há sossego, sem receio, apreensão
Que  tampouco existe algum espaço
Para o medo da cruel desilusão.

Sim, solidão, estou eu aqui de volta
Como tu, calado e sozinho nesta casa.
Já maduro, sem enganos, sem quimeras.
Tão sisudo e tão silente como tu,
Mas feliz de certo modo pela paz que tu me trazes.

Eu, sombrio, mas vivendo sossegado,
Eu, tão triste, mas a salvo de ilusões
E sem risco de um tamanho desencanto
Vir ferir-me mortalmente cruel e mortalmente.
Eu, feliz de certo modo por estar
Retornado ao nosso eterno casamento.

II

Toda vez em que uma amada distante parecia,
Te sentia tão por perto e muito minha.
Toda vez em que uma jura  insincera me soava,
A tua voz, tão verdadeira,  eu sempre ouvia.
Quando um caso de amor tristemente se acabava,
Eras tu, braços abertos, que acolhias
Minha dor nesse teu peito tão gelado.
Aqui estou, solidão, enfim de volta,
Para nunca, solidão, te abandonar.

2005
revisto e modificado em 2012

ABRIR AS JANELAS

Eu quero abrir minha janela em música,
eu quero abrir minha janela para lançar música no ar
e transbordar a casa da claridade da manhã.
Eu quero me lançar sobre a vida e o luzir do dia,
com a alegria de ave a deixar o cativeiro,
com a paz de anjo a planar no firmamento,
com o deleite de quem goza no corpo da mulher amada.
2003

O SILÊNCIO

O silêncio, mudez total, completa,
atravessa cada cômado,
aquieta a casa inteira,
silêncio tumular, absoluto.

O silêncio de fazer perder o sono
e revirar-se qualquer mortal por toda a noite.
O silêncio, que é calado como a morte,
encontra todavia, com perplexidade imensa,
minha alma ainda mais silenciosa.

O silêncio, a minha alma.
A minha alma, que é sem dor nem rigozijo,
sem sonhos, sem desejos, sem enganos,
que fica imóvel, sem folia e nenhum pranto,
a sorver lentamente esse silêncio.

Minha alma se atou de vez a esse silêncio,
numa comunhão de eterno casamento,
e ambos se fundem e se tornam coisa única:
a minha alma é o próprio silêncio então.

II

Quero apenas a quietude do silêncio,
O semblante inexpressivo do silêncio:
Quero somente o silêncio,
Nada, nada que não seja o silêncio.
2004

OUVIR MÚSICA

Ouvir música é como um transcendente culto.
Quando ouço música, é como se me ligasse estreita, profunda e harmonicamente a Deus.
Mas, se alguém abre a porta e e barulhos entram no cômado,
É como se adentrassem inúmeros demônios
Que me tirassem, sarcásticos, dos braços do Pai Eterno.
2005

AGUARDA!

Fica quieto, homem açodado!
Ainda nem deu meio-dia,
Ainda não é a hora,
Ainda não é o dia.

Ainda não é o momento
Da glória dos revoltosos,
Ainda não é chegado
O Dia da Rebeldia.

Ainda não é a vez
Do fim da tua agonia:
Conserva a tua esperança,
Espera voltar o Messias.

Ainda estás no estágio
De padecer pelos dias:
Aguarda com paciência
Chegar a fada-madrinha.

Espera só três milênios,
E os homens serão mais justos.
Aguarde uma linda rainha
Chamar-te para uma orgia.

Homem precipitado,
Espera que ao menos se cumpram
As bíblicas profecias.
Não percas as esperanças
Da vinda do teu triunfo,
Do prêmio por tuas virtudes,
Da tua prosperidade,
Da tua felicidade
E explosão de alegria.

Aguarda com paciência,
Espera resignado:
Ainda não são três horas,
Ainda não deu meio-dia,
Um dia virá o momento,
Um dia, seu apressado!
Um dia, meu caro, um dia.

2007

A VIDA

Carros loucos, desembestados, bandidos, tiroteios, guerras,
Aviões caindo, vulcões, tempestades, terremotos,
Quantas crianças, jovens, adultos, velhos,
Pessoas boas, pessoas más, puros bebês, inocentes animais,
Quantos já viste e já soubeste
Tragicamente mortos!
Por que então alguma santa entidade
Viria do céu
Para acudir
E proteger
A ti e aos teus?

Quando não se morre de desastre ou violência,
Ou de fenômeno da natureza,
A doença destrói as criaturas.
Então? Tu te crês mesmo a salvo de tal contexto?
Quem viria te salvar?
Ora, amigo, entende, és mero objeto de caçada
Perseguido pelos carros, balas e moléstias:
Presa que cedo ou tarde, obviamente,
Irá tombar.

Não és nenhum privilegiado,
Nem tampouco os teus o são.
Por mais que rezes,
Por mais que implores,
Tu estás decididamente desprotegido.

A morte é nefasta presença em tudo.
Povos massacram povos por ambição.
Facínoras espalham terror e morte.
Animais precisam matar para sobreviver.
Homens matam animais por troféu e por "gourmet".
A natureza também mata sem hesitação:
Droga! Onde há bondade, compaixão ou justiça?!
O que existe para nos proteger?

Procuras esquecer a morte e te lembras da vida,
Pensas agora em teus amigos.
Aliás, por neles falar,
Quantos deles, dize-me, te amam?
Cogitas, cogitas, não sabes enfim.
Não sabes. Talvez nenhum.
E tua mulher? Será que te ama?
Menos condições tens ainda de responder.
Mas, agora, e tu?
Amas tua mulher e teus amigos?
A pergunta, eu sei, te embaraça,
E vês ainda que não és para eles
Melhor do que eles são para ti.
Agora tu te sentes vazio de sentimentos
Como todos os que te cercam.

Quantas vezes as pessoas foram torpes e más contigo!
Mas quantras vezes foste torpe e mau com as pessoas?
Os políticos são crapulosos,
As autoridades, em geral, são crapulosas, corruptas,
Os poderosos são autoritários.
Mas tu próprio já não foste infame algum dia?
Neste momento te sentes vilão entre os vilões.

Quantas injustiças já sofreste!
Se crês em Deus, não o achas justo.
Mas quantas injustiças já cometeste?
Tu não estás entre as raras pessoas boas e justas,
Tu, mau entre os maus,
Injusto entre os injustos.

Entende, amigo, é a vida,
Não mais que a vida...
A vida, insolente, a te dar na cara uma bofetada
E a te dizer que é tão rude, tão iníqua, tão crua,
Injusta, sórdida, impiedosa,
Sem alma, poesia ou bondade.
É a vida, amigo, que te faz deserto de sentimentos,
Que te faz um homem de mármore,
Que te resseca por dentro.
É a vida, amigo,
Que te faz criatura incrédula,
Que te mata toda beleza,
Que te mata toda esperança.
É a vida, amigo,
Que te faz igualzinho a ela,
Que te faz um ser deformado,
Que te faz cansado do mundo,
Que te faz cansado da vida.
2003