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sábado, 6 de setembro de 2008

EU PODERIA AMAR

Eu poderia amar,
mas amar tão infinita, tão candentemente,
que o mundo se tornasse uma lira de cálida doçura.
Eu poderia odiar,
mas odiar tão intensa, ardentemente,
que eu me aguerrisse e que matasse com a gana de animal enfurecido.
Eu poderia sorrir,
mas sorrir tão franca, alegremente
como o mais feliz dos homens deste mundo.
Eu poderia chorar,
mas chorar com tamanho sofrimento,
como se a ferida do meu peito fosse o tempo todo revolvida.

Mas o momento é para sentimentos comedidos,
sempre hora de pensar no pão, na agenda e na política.
Sempre tempo de astúcia para firmar posição ou subir algum degrau.
Triste vida onde as paixões devem ser contidas,
as emoções, dosadas e os desejos, reprimidos
em prol de um mundo árido de comoções e sensações,
onde as almas dos homens têm de ser desertas,
nuas de vida e de cores, cinzentas como o concreto dos viadutos que desumanizam as cidades.

2008

POEMA BANDIDO II

Abaixo as instituições!
Abaixo o sentimento de pátria e viva a nação brotada do amor, união e
[solidariedade entre as criaturas!
Que a família nasça dos laços de afeto a unir as pessoas,
Não mais das convenções e da falsa moral social.

Abaixo a autoridade, fonte purulenta e inesgotável de cinismo e
[torpeza a alimentar a corrupção,
Germe abjeto que infecta o Estado e faz deste Estado um verdadeiro
[ tumor estatal!
Viva Deus sem a hipocrisia sórdida e a falsa bondade dos religiosos!

Que Deus não seja mais instituição, mas crença.
Que a pátria não seja mais pátria, mas nação.
Que nunca mais as convenções e sim a ternura mantenha as pessoas
[sob tetos comuns.

2008

COMO O CARNAVAL

Ah(!), se cantasses tão divina, ardentemente
Como os rouxinóis prenhes de vida...
Se calasses numa mudez tão total e tão profunda,
Que mais parecesses teu retrato...
Ah(!), se chorasses triste, desoladamente
Qual quem perde o tempo, a casa, o chão...
Se sorrisses tão cálida e tão alegremente
Qual criança ante a plena liberdade...
Ah(!), se meu fosse o teu canto, teu silêncio,
O teu pranto, o teu riso e os teus olhos de ternura,
O mundo se faria a eterna, mais eterna alvorada,
A mais bela, doce explosão de música, de cores e de júbilo:
O mundo então seria alegre como o Carnaval.

2003

EMPORCALHADO OLIMPO

Eu poderia ser renegado e pouco depois, porém, tornar-me rei
e, altivo, olhar frio, indiferente,
caminhar por entre o povo, venerado por cantigas louvadoras
e aclamado pelo fervor das multiões.

Eu poderia ver curvar-se em reverência cada homem
e abrir-se em oferta sensual cada mulher...
Eu poderia ser cultuado como um deus de carne e osso.

Bastaria apenas que os deuses humanos desta terra
me estendessem a mão suja de lama
e me dessem um lugar em seu emporcalhado olimpo.

2003

A UM IMPERIALISTA ARROGANTE

Eu bem sei que o teu poder é imensurável
E que só não suplantaria a tua iniqüidade,
Tua desmedida maldade, tua infinita ganância.
Eu bem sei que os exércitos e armas que tens a teu dispor
Te fazem, sem dúvida, o mais temido e periculoso dos homens.

É, enfim, inegável que o teu poder de destruição é incalculável,
Mas tu não podes designar o rumo dos ventos.
Podes gerar e vencer guerras e mais guerras,
Devastar nações, territórios e gentes,
Provocar morte, flagelos, endemias,
Mas não podes conter a fúria dos vulcões,
Mas não podes transformar o desprezo que te tenho,
Que só se sente pelas mais abjetas entre as criaturas.

Podes, com teu arsenal nefasto, suprimir a vida na Terra,
Mas, ao tocares em ti próprio, vês que o material de que és feito não é aço nem urânio.
Podes espalhar desgraças pelo mundo,
Mas não podes fazer chover.
Podes ter controle sobre homens e países,
Mas jamais comandarás os furacões, os vendavais e os maremotos.

Jamais serás algo além de um homem,
Um mero homem, ínfima partícula do planeta.
Um homem, tão frágil, vulnerável, destrutível,
E, um dia, um atentado, um acidente ou uma doença
O conduzirá à morte, indiferente à tua vaidade, soberba, orgulho
E essa tola convicção de ser um deus.
De nada adiantará todo esse poder, todo esse prestígio:
A Natureza não respeitará a tua insuportável empáfia,
Nem a tua fortuna, nem a tua arrogância:
Ela te arrastará para a morte, como faz com todos os seres
E tua carne apodrecerá como a de qualquer rato de esgoto.
Tu um dia morrerás e apodrecerás. Tu, efêmero como qualquer forma de vida,
Tu, criatura impotente diante das leis e desígnios da Natureza,
Tu, que agonizarás como qualquer outro moribundo, nos teus derradeiros momentos.
Tu, tão vil e tão mesquinho, tu, tão respusivo e tão pobre de alma,
Tu, que, não fosse o poder que ostentas, estarias quieto em tua terra e cônscio da tua real
[ insignificância.

2007

ROSA

Linda Rosa, esta cantiga
inocente e tão sedosa,
infantil e cor-de-rosa,
me brotou do coração
na tardinha preguiçosa
de palavras maviosas,
entre as rosas do jardim.

Tão serena a minha Rosa,
tão menina, tão viçosa,
tão bonita como fada
na manhã quente e rosada,
flutuando no rosal.

2008

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

CANÇÃO TRISTE

Como eu poderia, menina, escrever-te poesias,
Se eu não sei falar dessa alegria
Solta, alegre, esvoaçante, tão menina,
Reluzente no teu ser?

Como, se eu só sei cantar tristeza
Com tristeza, por tristeza,
Nada mais?

Menina, a minha canção é qual silêncio,
É gemido, pranto, noite funda,
Fronte baixa, olhos mortos, pura dor.

Minha canção é qual crepúsculo de inverno,
Negro céu, bairro sem gente, mar sem vida,
Casa abandonada de desolado quintal.

Minha canção é um queixume tão desnudo de esperança,
Lágrima incessante deslizando pelo rosto,
Barco ancorado no deserto cais.

Minha canção é folhas secas arrastadas pelo vento,
Tarde sombria, olhar cansado, solidão.

Minha canção é escuridão, é desalento,
É fadiga, desencanto, lassidão, abatimento,
Melancolia, desconsolo, é vontade de morrer.

2003

NOBREZAS DE PAPELÃO

Salve a família brasileira...
com suas virgens grávidas,
com suas tias ávidas,
com suas mães faceiras
e com seus pais cornudos!

Salve a história desta terra
com seus quinhentos anos...
com seus heróis de pano,
suas versões que enterram
tudo aquilo que é verdade!

Salve os homens da política
com seu trajar estético...
com seu agir aético,
sua moral raquítica
e seu cinismo sórdido!

Salve o ser religioso,
que cultua o Pai Eterno...
e agrada o rei do inferno
com seu verbo mentiroso
e seus atos de maldade!

Salve a mídia, que informa...
o que querem os mais fortes
e existe pra suporte
do poder, que só deforma
o país em que vivemos.

Por que tudo é inverdade,
é torpeza, é sofisma,
é embuste, é cinismo,
a mais pura falsidade
nesta terra de belezas?

2003

MILENA


Vem de algum lugar, Milena, que meu canto te procura
Por todo beco,
Por todo canto
E pelas ruas , Milena, tão silenciosas;
Noites de frio
Que não revelam
A tua imagem.

Surge, Milena, assim de repente como fada;
Nasce de um clarão multicolorido de magia
E então flutua
Bem docemente
Ante meus olhos.
Vem, Milena, chega num relance de entre as nuvens;
Vem, que meus versos têm em ti sua nascente.
Chega antes que meu peito se transforme em  só cansaço,
Antes que meu verso cale, silencie,
E eu me torne folha seca  a vagar sem nenhum rumo.

1996


II

(OUTRO CANTO A MILENA)

Vem, Milena, ver a noite e suas luzes,
Fazer planos de um amor que nunca acabe.
Vem, porque jurar amor é qual cantar,
E, Milena, cantar é tão bonito,
É bonito como o encantamento dos teus olhos,
Quando sonhas debruçada na varanda.

Vem arder entre lençóis, quentes carícias,
Nossos corpos, qual vulcões ensandecidos,
Se espremendo numa fúria delirante
E na dança alucinada dos desejos.

Vem, Milena, ver cantar meus sentimentos,
Vem sentir o aconchego dos meus braços,
Vem fazer do meu abraço tua casa.
Tua casa, o teu canto é meu abraço.

2007


III

(ÚLTIMO POEMA A MILENA)


Adeus, Milena, até nunca, nunca mais...
Nunca mais um verso te farei.
Até nunca mais, Milena, adeus.

Ainda que eu fosse o orador que mais brilhasse,
pelo inteiro mundo  minha voz fosse aclamada,
e as turbas me aplaudissem, fascinadas...

Ainda que eu cantasse a mais linda das cantigas,
e o fizesse de forma tão doce, tão sentida,
que levasse a prantear as multidões...

Ainda que eu aniquilasse os demônios do universo,
e cruzasse fronteiras minha fama de bravura,
e eu fosse aclamado do planeta o grande herói...

Ainda que eu não fosse nada menos que deus vivo
a operar milagres estalando os dedos simplesmente,
e os homens me louvassem em milhões de reverências...

Ainda assim eu teria o desdém desses teus olhos,
a tornar-me nada mais que um mero, simples verme.
A tua voz, sem calor ou sem doçura, então faria
De minh'alma nada mais  que escombros puramente.
Adeus, Milena, até nunca, nunca mais.
Até nunca mais, Milena, adeus.

2008

Revisto e modificado (todo o poema) em 2012

DESEJO

Resplandecentemente linda,
Fulgurantemente sensual;
Sensualmente linda,
Lindamente sensual.
Provocantemente linda,
Escravizando meu olhar
E toda a minha emoção.
Minha emoção retumba,
Cativa do teu sorriso,
Atada à tua figura...
Senhora dos meus desejos.
Escandalosamente linda,
Despudoradamente bela,
Divinamente satânica,
Satanicamente divina.
Teu cheiro é magia erótica,
É teia de aranha enredando
Inteirinho o meu coração.
O teu olhar penetrante
Perfura meus olhos e invade
Minha'alma, que é tua morada.
Tua boca é cobiçada fruta,
Teus olhos, lascivos e sonsos,
Teu glúteo, protuberante e belo.
Cada detalhe de ti me acende,
Me faz sedento de afagos,
De beijos, amor, de lascívia,
Do cheiro das tuas entranhas,
Do gosto da tua saliva,
Do aroma da tua nuca,
Da chama do teu desejo.

A SOLITÁRIA

E se a solidão se transformar em angústia
E te der desejo de correr despida pelas ruas?
E se o silêncio te encher a alma de agonia,
E a noite te parecer tão negra e fria,
Que tu desejes te lançar pela janela
Do apartamento, num voo descabido e impossível?

Aderirás a uma seita em que irás depositar
Tua confiança e todo teu dinheiro arrecadado?
Poetarás tua ininita melancolia desolada?
Vestirás os teus vestidos mais ousados, provocantes
E mergulharás profundamente na noite e na lascívia?
Ou fecharás os olhos, te darás completa, inteiramente
Ao primeiro com que deparares numa esquina,
E entregarás em suas mãos a tua vida
Como filho que confia a segurança às mãos da própria mãe?

2008