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domingo, 30 de setembro de 2007

WONDERFUL BITCH

A carreira em minha arte
comecei muito menina.
foi modesto o meu início,
mas vi logo a ascensão.


Toda a arte que eu esbanjo
é uma veia de família:
minha mãe reinou em Ramos,
foi "Rainha do Bambu".


Estreei na Tiradentes,
logo, um justo produtor
desfrutou  meus mil talentos,
me levou lá prá Mimosa.


Prossegui, determinada,
pois sabia dos meus dotes;
em dois anos, era a estrela
de uma termas em Campinho.


Mas Campinho era pequeno
pros meus sonhos tão dourados,
não tardei a ser rainha
de uma termas lá de Copa.


Hoje, sou  celebridade,
dançarina mais cotada
para os shows de strip-tease,
pelas taras dos turistas.


Sou Maria Dejanira,
mas ganhei um nome artístico,
batizada por um gringo
co'a alcunha Wonderful Bitch.


As mulheres  me invejando,
tantos homens me esgotando,
me esfolando, me exigindo
todo tipo de prazer,


sou princesa dos bebuns,
sou a deusa dos tarados,
sou a "star" Wonderful Bitch.

1994

VOCÊ E A TARDE

É tão bela a tarde,
Alvas são as nuvens.
Seu rosto mimoso
É divina imagem
Que transpõe meus olhos
E me adentra a alma
A fazê-la doce
Qual seus olhos lânguidos.


Também doce a brisa...
Seus cabelos negros,
Longos e de seda
São mansa magia
Me enredando inteiro
Em inquietantes,
Quentes emoções.


Tão azul  o céu...
Branco o seu vestido,
Que, dançando ao vento
Sobre essa escultura
Do corpo moreno,
O meu corpo acende.


O seu jeito afável,
Seus lábios carnudos,
Seu batom carmim...
É tão clara a tarde
Com gosto de vida,
Odor de desejo,
Sonhos de pecado,
Cores de paixão


Tão bonita a tarde,
Tão tocante a tarde...
É você a tarde;
Ambas se confundem
E assim bem se fundem
Em uma só lira,
Que é de sol e brisa,
De alegre beleza,
De amor e querer.

1993

UM SER BANAL

Enquanto eles se ocupam em querer saber o que é Deus
e a sua essência,
eu apenas gostaria de que ele existisse
e fosse assim
tão simples, bondoso
como o pai da gente.


Enquanto eles querem encontrar transcendência em si próprios,
na própria existência,
descobrindo quem somos,
de onde viemos,
pra onde iremos
e a nossa missão,
eu nada mais quero senão tocar a vida
entre as dores
e os prazeres
de quem apenas
nasceu e existe;


ser corriqueiro,
feliz ignaro
como os pardais
banais e libertos
que voam nas ruas.

1994

TUA IMAGEM

Negra, hoje, a manhã cantou alegre
ao passares por teu negro,
sob o sol, toda formosa,
e, ao passares, tão viçosa
e tão viva, e tão bela,
percebi, eras o sol.

Quando passas, me arrebatas,
porque bebo tua imagem,
tua imagem me extasia,
teu olhar me hipnotiza,
pois teus olhos são os olhos
imantados da serpente.

Tuas formas, que me  atiçam
são tal como a primavera
assanhando a própria vida.
Os teus olhos me conduzem
à mais doce das quimeras,
e eu te quero como a planta
quer a água, o ar, o sol.

1990

SUBLIMES ANIMAIS

Ladrem, doces cães vadios,
Chilrem, belos pardais errantes.
Animais de todo tipo,
Animais de todo o mundo,
Quão sublimes são vocês!

Com fastio e com escárnio,
Festivais da hipocrisia,
Desfiles de falsidades
Vi, querendo adormecer.

Vi canalhas pelos becos
E também em gabinetes,
E também em todo canto,
E são eles tão inúmeros...

Aquele brilho escarlate
Que traduz pura maldade,
Que traduz sede de sangue,
Vi nos olhos do bandido,
Vi nos olhos do mocinho.

Frigidez, indiferença,
Egoísmo odioso
Há no ar dos poderosos
Ante a fome e a miséria
A matar seres humanos,
A matar tantas crianças,
Vidas breves nos infernos.

Doces cães, belos pardais,
Animais de todo tipo,
Animais de todo o mundo,
Quão sublimes são vocês!

1993






ROSANA

Vem, Rosana, pros meus braços:
Tua presença enche meus dias
De sol, música, alegria,
É a canção da alvorada
No peito do teu cantador.


Vem, Rosana, que em teu riso
Vi meus dias de menino.
Vem, Rosana, o céu dos místicos
Vi na paz desses teus olhos,
Na meigura do teu rosto,
No teu cândido falar.


Vem, Rosana, que meu corpo
É luxúria enlouquecida,
É um braseiro, uma fogueira
A querer te consumir.


Vem, Rosana, de mãos dadas
Passear por estas ruas,
Caminhando sob a lua,
Como dois adolescentes.


Vem, Rosana, que teu beijo
É um passeio entre os astros,
Navegar entre as estrelas,
Voar pela imensidão.


1992

REALERTA

Eu já lhe falei
e tô repetindo
que Batman e Robin
não encaram braba
e ganham propina
do vilão Coringa.


Eu já lhe falei
e tô repetindo
que a bela Penélope
saciou os desejos
dos seus pretendentes.


Eu já lhe falei
e tô repetindo
que o corpo da Vênus
não é mais que um monte
de fartas pelancas.


Eu já lhe falei
e tô repetindo
que James Bond
se borra de medo
de seus inimigos.


Eu já lhe falei
e tô repetindo;
ou você aprende,
ou eu não sei, não.

1981

QUERIA

Eu queria ter a fé de aço dos romeiros,
dos penitentes, dos evangélicos
mais visionários.


Eu queria crer no caráter dos políticos,
da gente pública,
dos dirigentes
e autoridades.


Eu queria crer nos discursos necrológicos
e na grandeza
de todo aquele
que já partiu.


Eu queria crer na mídia e seus sofistas,
nos seus “heróis”,
nos seus produtos
“miraculosos”.


Eu queria ter a paz dos ignaros,
a credulidade dos simplórios,
a alegria dos inocentes,
a esperança dos otimistas.


Eu queria crer no Homem e no Mundo.
Eu queria crer num amanhã feliz.
Eu queria ter os olhos puros fitando um mundo de cores alegres
e belas, suaves, repleto de música, repleto de amor.


Eu não queria sentir na alma
o gosto do fel
que há ao redor.

1992

PROPAGANDA POLÍTICA

Para presidente,
vote
Crapulino Lúcifer,
alguém honrado pelo bem-estar do povo.


Para senador,
Judas Iscariotes:
esse não trairá seu voto.


deputado federal,
Al Capone,
pelo fim da sonegação.


Para governador,
Porcolino Sujeira,
um basta no mar de lama!


Para prefeito,
Rapacofre Dopovo,
respeito ao dinheiro público.


Para vereador,
Vagabundino Larápio,
trabalho e honestidade.


II


Para presidente,
Satanás,
um anjo de candidato!

1995

ESQUERDISTA BRASILEIRO

Puxa, gente, genial!
Sou da esquerda radical.
Sou do mundo a palmatória,
Sou herói da Nossa História.


Nos discursos, me inflamei,
Fervoroso, já ataquei
O imperialismo ianque:
Como sou bom de palanque!
Quero agora governar:
Deus vai ter que me ajudar.


Eu já tenho meus projetos:
Vou criar um ganho-teto
Pros peões, os operários,
Os que vivem de salários.
Puxa, eu sou tão progressista...
Sou um anjo socialista.


Essa gente tão sofrida.
Tão doente, esmilingüida
Vem sofrendo tantos danos,
Que agüenta mais mil anos;
Tem que dar mais sacrifício:
Criar teia no orifício.


Muito altos os salários:
Ah! Coitados empresários!
São besteiras de artistas
Os direitos trabalhistas.
Vou com eles liquidar
Pro patrão se alegrar.


Sou um esquerdista sério:
Até todos ministérios
Vou querer privatizar,
Internacionalizar.
A Justiça e as escolas
Vou vender à Coca-Cola.


Essa gente é tão dengosa,
Tão queixosa e lastimosa.
Sou um grande democrata,
Mas a coisa anda chata:
Vou dar fim a tanto excesso:
Reclamou, levou processo.


Eu sou justo e reformista,
Grandioso e progressista.
Sou um herói proletário
Com salário milionário
E negócios no estrangeiro:
Esquerdista brasileiro.
1993

O ELEITO

Ah! Meu Deus, meu grande Deus!
Ah! Mas como é bom viver!
Consegui me eleger...
Como valeu o tom ousado,
O discurso decorado,
Fielmente copiado
De um eleito no passado!


A revolta ensaiada,
Minha fala exaltada
Em prol dos pobres famintos
(Sou convincente quando minto)...
Como tudo me valeu!


A grana gasta na campanha
E a gasta agora na champanha
Em dois tempos vou recuperar,
Em três tempos vou multiplicar...
Eu vou me locupletar!


A cabeça do trabalhador
Vou vender sem pena ou dor.
Ah! Vai ser muito cômico:
Pro viril poder econômico,
Que quer gozar até cair,
As pernas do povo vou abrir.


Ah! Quanto porre, quanta "gata"!
Quanta grana e negociata!
Defendi tanto os salários,
Ataquei os empresários...
Tudo chega a ser hilário:
Saio dessa milionário.


O banqueiro que ajudou
Pr'eu chegar aonde estou,
Já me disse: "És grande ator,
És exímio orador.
Fala sempre em tom de fúria
Que te dói essa penúria
Em que vive essa gente,
Que te votará, contente."
Atalhei de peito inchado:
"Sei de cor e salteado
Que o povo é o condenado
Que, inocente amolador,
Do carrasco executor
Sempre afia a espada."

1993

POETA

Poeta não é só aquele que ostenta diversos recursos literários,
Que brilha em sua deslumbrante intelectualidade,
Que tem livros publicados ou mesmo escreve versos.
Poeta é todo aquele a quem a música desvanece,
A quem os jardins e as matas encantam,
A quem o luar e o sol embevecem,
Para quem o canto dos pardais é uma bela orquestra da Natureza
E uma casa velha, singela e desbotada é de infinita beleza.
Poeta é todo aquele em cuja alma cada gesto ou palavra da namorada toca mais fundo,
Todo aquele cujo peito abriga os mais serenos e os mais desembestados sentimentos.
Poeta é todo aquele que morre, ressuscita, morre, ressuscita, até vir a morte física, tão
[ tétrica e antipoética, para acabar com tanta vida e tanta morte.
É todo aquele que entristece nos momentos menos propícios – como em pleno Carnaval –
E se alegra com uma simples manhã domingueira coberta de sol.
Poeta é, enfim, todo aquele em que a alma é como o corpo em carne viva, ultrassensível ao
[ mais leve arranhão e à carícia da brisa mais suave.

1992

POEMA BANDIDO

Vivam os rebeldes e os desregrados!
Vivam os irreverentes e os mal-comportados,
Os libertinos, os pornográficos, os anarquistas!


Salve os que chacoteiam os rígidos preceitos,
Os tabus, os protocolos, os preconceitos,
Os que injuriam o poder e a verdade estabelecida!
Deus salve os profanos e os blasfemos,
Os despojados, os “porraloucas”, os liberados!


Abaixo os idiotas metódicos,
Os moralistas e os religiosos!
Abaixo vocês com seus eufemismos cretinos e seu injusto rótulo de pessoas de bem!
Abaixo as autoridades, os políticos, os poderosos,
Os executivos, os gerentes e os chefinhos,
Essa gente que defende a ordem e promove falcatruas, engordando a fome e a miséria
[ reinante no país,
Que engana os simplórios e suga o sangue e o suor de quem trabalha!


Abaixo os cínicos sofistas que rezam, oram, cultuam e que proferem que a pobreza é
[ um desígnio divino que se deve aceitar com resignação!
Abaixo os ridículos defensores da moral, incônscios do seu real significado e que são
[ na verdade mais licenciosos que aqueles que assim denominam!


Abaixo a sociedade com os seus cacoetes repulsivos,
As suas regras enfadonhas e reacionárias!
Vivam aqueles que vocês renegam!
Vivam os malditos! Vivam os malditos!

1994

POEMA ARCÁDICO

Enquanto eles amam poder e fortuna
e atingem orgasmos só em imaginar
o quanto podia Alexandre, O Grande,
os imperadores de ontem e de hoje,
o que eu mais quero é o doce do beijo
da linda cabocla que encontro ao crepúsculo,
no portão desbotado da casa singela.


Enquanto eles sonham viajar nas galáxias,
pisar em Saturno, em Marte e em Júpiter,
eu nada desejo senão me sentar
à beira de um córrego, os pés dentro d’água,
os olhos mirando uma borboleta que pouse na relva,
descanse um momento e saia a voar.


Enquanto eles querem viagens compridas, voar supersônico,
viver em Paris, em Roma., Zurique, New York e em Londres,
só quero uma estrada que seja de terra e que leve a um rancho;
do rancho, à noite, ao canto dos grilos,
contemplar as estrelas, a sublime beleza da lua distante
luzindo no céu.

1995

PÁSSARO LIBERTO

Pássaro liberto, conta para mim
O que tens vivido, o que tens voado
E das verdes matas e das claras águas,
Do extasiante gosto da aventura
E do deleitante espaço sem fim.


Quero navegar nesse infinito mar de coxas,
Bocas, mamas, vulvas, nádegas,
De músicas, poemas, bebida e botequins.
Quero orgias, mil festas dissolutas,
A luxúria onipresente e as almas muito ébrias.


Quero a paixão em flama no meu peito,
A arder por Tânia, Mara, Sandra e  Noemy,
A ferver por Nara, Sônia, Suzana e por Nancy.


Quero, errante, não mais ter morada,
Quero os ares,  mares, rios e as estradas,
Desfrutar das matas, ranchos, roças e cidades;
Desfrutar do mundo sem cabresto e rédeas,
Fora desta jaula, solto das algemas,
Sem o calabouço a me aprisionar.

1993

UM BRASIL PR'ORGULHAR OS BRASILEIROS

Fiquem quietos e me ouçam: tenho grandes novidades:
O Brasil, de ponta a ponta, vai criar tantos eventos!
Vão ser obras, festas, filmes, peças,tantas, tantas coisas!
O Brasil vai ser o máximo, o Brasil vai ser Brasil!


O cinema nacional vai renascer, florescer e decolar.
Um convênio co,a Warner Brothers lançará uma produção:
Com Tom Hanks, Sharon Stone, "Lampião, o Popstar".
Ela está mais do que linda no papel de Mary Beautiful.


Do Recife pra esta país tão gigante e sem tamanho,
Traz a Globo ao vivo e a cores o festão bumba-"my-ox".
A feira dos nordestinos é hoje em dia  North-East Shopping.
Terá "wisky", "rum",  "poire", filmadora japonesa.
Os poetas de cordel vão seguir a nova moda,
Abecês serão cantados a Bill Clinton, Abraham Lincoln.


Ouro Preto vai ser logo totalmente demolida,
Construções velhas, arcaicas vão sumir deste planeta,
Vão ceder lugar a algo no estilo americano:
Serão prédios de alto luxo com "design" tão  moderno,
Avançada arquitetura a sugerir quarto milênio.


Vou a Minas pra fartar-me de um tutu-à-Califórnia,
Numa couve-à-holandesa, num torresmo-à-Frankfurt.
Na Bahia, um vatapá bem à moda Saint-Germain,
No Pará, um tacacá bem nos moldes anglicanos.


Vejam como é belo tantos  índios a seguir as procissões,
Cultuando com fervor nossa mãe Virgem Santíssima
Ou então as orações de ianomâmis protestantes
Os incensos perfumados dos budistas pataxós.


Ouviremos renovado todo tipo de canção:
Belos sambas em inglês, o baião em alemão,
A toada em bom francês.
E dos livros nacionais surgirá um grande herói,
Que é bravura e que é audácia, a mais pura intrepidez:
O Guarani Novaiorquino, um louvor a este Brasil.

1994
Revisto e modificado em 2012

O BOTEQUIM

Não vou nem chorar
o preço que pago
por estar no mundo,
se é fim de semana,
tem muita bebida
neste botequim.


Vou já esquecer
o recente fracasso,
se é fim de semana,
tem mulher bonita
neste botequim.


Já nem me afeta
a recordação
de amargas passagens,
se é fim de semana,
tenho companheiros
neste botequim.


Nada mais me atinge,
se é fim de semana,
se resume a vida
a este botequim.

1980

O ANTI-HERÓI II

Não, não há dúvida, não há sombra de dúvida:
Não sou em definitivo o audaz mocinho,
Que é belo, intrépido, que é pura
bravura:
Sou mal-encarado, temo até meu ronco,
Minha própria sombra.


O revólver do mocinho nunca erra o alvo
E o que só tenho é um estilingue e a mira risível.
O mocinho é austero, é seguro, tem mãos firmes,
E eu sou fraco, debochado, um bandido acovardado.


O mocinho arrisca a pele, eu me escondo até de chuva.
O mocinho é elegante, alto, forte, genial,
E eu me visto de farrapos,
Sou nanico, manco, tolo, a burrice ambulante.


O mocinho salva todos dos perigos deste mundo,
Eu empurro criancinhas de penhascos gigantescos,
Eu espanco as mulheres e os velhinhos indefesos.


Não, definitivamente, não sou um herói:
Feito um cão sem dono, deito pelas ruas;
Coço as partes íntimas ante o rubor das senhoras,
Preguiçosamente, vou-me deleitando
Em ser o bandido, mero vagabundo,
Um sujeito à toa, este anti-herói.

1993

O ANTI-HERÓI

Não, não sou o belo mocinho intrépido,
Cabeleira esvoaçante, num cavalo imponente,
Atirando com firmeza os seus tiros infalíveis.
Sou bandido avacalhado, sou mendigo desdentado,
Vagabundo escarninho a deitar pelas calçadas,
A cobrir-se do luar.

1993

NUMA FITA DE VÍDEO

Eu tenho a sublimidade dos campos celestes guardada num fita de vídeo.
Eu tenho um momento sagrado da música registrado numa fita de vídeo.
Eu tenho a prova cabal de que os deuses têm forma numa fita de vídeo.
Eu tenho um momento proporcionado pela mais elevada inspiração divina, numa fita de
[ vídeo.
Eu tenho os sons mais lindos que há no Universo, numa fita de vídeo.
Eu tenho a mais transcendental beleza e poesia numa fita de vídeo:
Eu gravei Elis e Tom cantando juntos,
Deixando-me clara a existência dos deuses.


Por falar em deuses, e Deus com essa mania de ficar chamando para junto de si os
[ deuses...

PARAÍSO

Aquele que te tem na cama
Com os teus cabelos derramados
E esparramados
No travesseiro...
Aquele que te tem os beijos
Da língua ávida,
Dos lábios quentes...
Aquele que teus olhos súplices
Contemplam cálidos
E com ternura
E com fascínio...


Esse de quem falo habita o paraíso,
Vive em delírio, incessante êxtase,
Como fosse a vida feita de volúpias,
Vive em regozijo, como navegasse
Por todo o Universo em astrais viagens
Entre céus, cometas, luas, sóis, estrelas...
Aquele que te tem nos braços,
Aquele que te tem nos dias.

1995

Revisto e modifificado em 2012

NEGRO CENÁRIO

Não me diga asneiras, não conte mentiras:
Não existe praia com gente morena,
Não existe aurora e nem sol que brilhe
E que se derrame sobre as paisagens.

Só há a procissão dos infortunados
Indagando suplicante ao infinito:
“Meu Deus, por quê?”
Só há a prostração dos arruinados,
Só há o semblante dos desolados,
Só há a eterna noite de inverno
Sobre os becos mudos e desertos;
E o ar que há é abafadiço
E incomoda e apoquenta;
E os sons que há são cantos tristes
Como o lamento dos cães uivantes.

1982

MORENA DO MATO

Morena do mato, que tanta magia
te encanta todinha,
te faz reluzente
de tantos encantos?


Teu riso criança
me lembra os meninos
nos piques e rodas,
me lembra os bichinhos
saltando de alegres
ao sol das manhãs.


Morena do mato, teus olhos redondos
têm paz de alvas nuvens
no céu azul claro,
de córregos plácidos
e de águas bem límpidas.


Teu beijo é tão quente
E a voz delicada
É o vento sereno
Soprando em rosais.


Teu corpo em ardores
é o cio das potras,
as chuvas em fúria,
em pleno verão.

Morena do mato,
teu ar de ciranda,
teu fogo de fêmea
me fazem um bicho
que corre na relva
qual indo pro céu.

1989

MEUS DIAS

Por que, negra, foi embora,
Se alumbrava meus momentos
E os fazia tão intensos
Como fosse o Universo
Todo feito de folia?
Por que foi, mulher, embora,
Se cantava em mim a vida
Como pássaros em bandos
Na alvorada, nas manhãs?

Que fez, negra, dos meus dias!
São noturnos os meus dias,
São tão tristes os meus dias,
Como notas de piano
Em crepúsculo de inverno.


Por que foi você embora,
Se era doce, era tão bom
Quando em horas de carícias
Me chamava de "meu negro"?

Todo o encanto do seu riso,
A lindeza do seu rosto,
Da nudez dos seus contornos...
Tenho já sua figura
Tão marcada na memória.

Triste, lembro nossas noites:
Os lençóis, o seu perfume,
Nossos corpos se esfregando,
Com furor se devorando,
Tão sedenta, tão faminta
Uma carne d'outra carne.


Logo, logo, sei, meus dias
Serão quietos e silentes,
Não terão qualquer cantiga,
Serão baços, incolores
Quais manhãs sem cor ou canto
Que se despem da alegria,
Que não têm sopro de vida.

1994

MATERIALISMO

Um dia, toda lição aprendida,
Toda experiência vivida,
Todo conhecimento adquirido,
Tudo se esvairá de nós com a vida, no último suspiro.


Um dia, tudo se apagará,
E não teremos sequer a consciência
De que tudo para nós se haverá apagado.
Um dia, a escuridão,
Sem termos ao menos a noção
De tamanha escuridão.


Quisera crer em outra existência além da existência...
Os meus momentos de espiritualismo são tão passageiros e fugazes...


Um dia, tudo se perderá de nós:
A razão, a consciência das coisas,
E seremos mera carne putrefata que a terra diluirá.
Não usufruiremos de nada que porventura tenhamos construído,
Quer no plano afetivo, no campo das idéias ou no aspecto material.


Deixaremos, no máximo, heranças, ensinamentos e saudades,
Mas não poderemos, nós próprios, usufruir dos nossos dotes intelectuais, espirituais e
[ patrimoniais,
Nem nos regalar do amor daqueles que nos lamentem a ausência.


De que adianta a reverência do busto em praça pública,
O nome em algum logradouro
E os dons e feitos rememorados e exaltados,
Sem que sequer possamos nos regozijar em nossa humana vaidade?


Tudo se acabará para nós,
Tudo se perderá para nós,
Nós acabaremos e tudo perderemos,
Nada para nós haverá,
Nada seremos senão o nada,
Nada senão o nada.
1995

LUZ TARDIA

Por que, morena, só agora,
Ao despertar da aurora,
Voltas a mim, se a noite inteira,
Desde a escuridão primeira
fiquei a te esperar?


Por que só agora, morena,
Trazes tua claridade pequena,
Se já uma outra amada
Afugentou a madrugada,
Trazendo nos braços o sol?

1976

INUTILMENTE

Eu te fiz tantos poemas,
te mostrei toda a lindeza
de canções que mal ouviras,
de um  pardal a saltitar.


Eu tentei te fascinar:
fui poeta, vagabundo,
anarquista, embriagado,
o herói que pude ser.


Fiz sentires a delícia
de um passeio pela noite
entre planos delirantes,
de sonhar sob o luar.


Nada disto no entanto
fez, na hora do abandono,
que calasses no teu peito
teu anseio de partida.

1995

INFÂNCIA

Eu morava na esquina da rua Tomás Lopes com a rua Helvétia,
A rua Helvétia era intransitável para os carros
E servia por isto, para nós, meninos, toda tarde de campo de futebol.
Ambas as ruas eram descalças e mal-iluinadas,
E nós, meninos, toda noite brincávamos de pique por ali.

“Pique-tá”, “pique-ajuda”, “carniça”, “pique-esconde”, “pique-bandeira”,
E a gritaria e a correria alvoroçavam as noites.
Eu não conhecia ainda o caráter humano e o ódio.

Éramos todos crianças pobres, e a simplicidade das nossas casas e das nossas vidas era doce
[ e romântica.
Quase toda noite passava uma lindeza de moça adulta (tinha lá seus dezoito anos) que me
[ beijava no rosto,
E aquele beijo era como uma dádiva dos céus.
Era como se aquela diva fosse a própria Vênus e, despida e lúbrica, a mim se entregasse.
Era tão bom sonhar!... Era paraíso e era volúpia.

Algumas noites a meninada se reunia sentada no muro de minha casa,
E ficávamos contar histórias de assombrações:
Era tão bom sentir medo...!

Eu era feliz como um potro solto na várzea
E não conhecia ainda o desgosto e a dor.
Eu vivia a mais bela poesia...
Deus(!), eu vivia a mais aprazível poesia.

Como dói em mim a saudade!
Eu acreditava nos santos protetores,
Eu acreditava em Deus e nos homens.
Eu acreditava na vida e era puro sonho e pura esperança;
Eu acreditava num amanhã ainda mais feliz do que aqueles dias.

Eu não tinha este gosto amargo entranhado na língua da alma.
Eu não tinha este tédio, este cansaço, esta náusea das coisas.
Eu era menino, puro, simples, inocente:
Eu era um anjo que me deliciava das maravilhas do Éden.

 1995

INCREDULIDADE

Não me negue seu perdão se erro,
Mas não me abandona, Deus, o pensar
Que você é como a miragem que surge
Diante dos olhos do sedento, no deserto.

1975

IMPOSSÍVEL POEMA

Desolada essa paisagem:
é o mangue negro e podre,
os casebres de madeira
com remendos e cupins.


É o choro dos lactentes,
é a fome, o desespero,
é a morte e é a doença,
as vorazes ratazanas.


São os rostos sem esperança,
as crianças que não sonham,
as navalhas dos meninos,
que adolescem odientos,
cujos peitos petrificam.


É essa gente favelada,
tão sozinha, abandonada,
renegada, espezinhada,
ao inferno condenada.


Que poema é então possível
sobre toda essa miséria,
o infortúnio  que consterna,
esse inferno que revolta?

1994

IMPLÓRIO

Dias, vida, deixe de maldade:
o meu coração é um tufão dentro do peito:
não me traga ao peito
a calma dos altares,
a quietude das estátuas
desnudas de vida.

1989

FAVELA

É uma tarde plácida. A fogueira acesa
E o valão imenso onde atirar pedras
São prá meninada uma grande festa.


Vai a mulher preta, caixa na cabeça,
Passos cuidadosos, neném na barriga.


O sol de outono pinta de amarelo
Os casebres pobres, ruços de poeira.


O homem encurvado de cabeça branca
Traz bolsa pesada, muita ferramenta.


A moça bonita chega da janela
E tão bela imagem nos enche de sonhos.


É uma tarde mansa, toda colorida,
E um homem tristonho fala pros amigos
Que até mesmo os santos os abandonaram.

1981

EU E A ESTÁTUA

Venho pelas ruas , paro um instante numa praça,
Fico a mirar a estátua erguida a um calhorda:
Tanto busto, tanta estátua... tanta homenagem a tanto calhorda.


Tanta gente cultuando tantos gélidos assassinos,
Que mataram tanta gente, devastaram tanta coisa
Por ganância e sordidez.


Tantas palmas tantos batem aos discursos de tantos patifes,
Que decidem nossos rumos, nos condenam à pobreza,
À miséria, ao infortúnio, à tristeza e aos infernos.


São canalhas travestidos de reis da magnitude;
Atos banais transformados em façanhas as mais elevadas;
Sacanagens mascaradas de atos da mais alta grandeza.


Olho a estátua com olhos incrédulos e expressão cansada,
Porém, um assombro vem a mim quando constato:
Deus, como são longas  as pernas da mentira!

1994
Revisto e modificado em 2017

ESTELA

Eu poderia contentar-me porque tenho Estela em minhas noites
E amanhecer os dias com vontade de cantar,
Como se Estela não vivesse a me cortar o peito,
Como se Estela me fizesse feliz como um passarinho solto.


Eu poderia fugir com Estela pra bem longe da cidade
E sentir junto dela o aroma bom do mato,
Como se Estela fosse qual menina que pulasse amarelinha,
Como se Estela fosse apenas simples e bonita
Como as tardes mansas nos roçados verdes.
Como se Estela usasse um vestido de flores pequeninas
E tons desmaiados, sobre a pele fresca.
Como se Estela viesse de um poema arcádico,
Como se Estela fosse a própria flor do campo.


Eu poderia acarinhar Estela sem dizer qualquer palavra,
Como se, deleitada, nada mais quisesse Estela;
Como se Estela fosse como uma felina mansa,
Como se Estela fosse bonita simplesmente.


Eu poderia apenas proteger Estela em meu abraço,
Como se Estela murmurasse o meu nome entre os lábios carnudos,
Quando a solidão se apresentasse nas noites silentes
E nas tardes em que a chuva açoitasse os vidros da janela.
Como se Estela me quisesse como ao vento que afaga o corpo nu nas noites de verão.
Como se Estela fosse suplicante, fosse minha de verdade.


Eu poderia me abrigar da verdade escondendo o rosto no peito de Estela,
Mas eu prefiro fugir a Estela e ao seu encanto frio de serpente,
A me consumir sozinho na escuridão do quarto fechado.

1994

ESPERANÇA

Eu me reerguerei da minha letargia
E lamberei a vida com o prazer de quem lambe suculenta fruta.
Eu, coisa obscura que perambula encolhida pelas ruas sombrias...
As ruas sombrias... As ruas são sempre sombrias...

Eu, contraído e velho, envergado a vagar num passo arrastado;
Eu, ancião franzino, recortado de rugas,
Reerguer-me-ei do marasmo como quem se levanta dos próprios escombros
(Eu me reerguerei dos escombros de mim próprio),
Reerguer-me-ei da morte e saltarei para a vida como parido das negras entranhas da terra  para a folia do Carnaval.
Rejuvenescerei da minha velhice, ressuscitarei da minha morte
E, leve, me refestelarei numa mesa de bar
E pedirei a bebida com gosto e alegria.
E desfrutarei deste momento sublime de saborosa preguiça,
E me deleitarei com a vida como uma criança que se banha nas águas do mar.

1995

ESPELHO

Cruéis, torpes, insensíveis...
Vocês são tão desprezíveis...
Vocês são tão odiosos...
Mas é já resignado
Que, diante do espelho,
Vejo a cara de vocês.

1992

COMO UM SALVADOR

A incerteza está morta, morta de verdade;
Eu bem sei que os pardais e as luzes da aurora
Anunciarão a sua chegada.
Você virá... Você virá...


Virá com a sua auréola cristiana
E os seus ornamentos de carnaval.
Virá num gozo frenético da carne
E me abrirá as portas do Céu.


Beberá cerveja, dará gargalhadas
Nas beiras das praias e nos botequins.
Virá batucando, contando anedotas,
Virá numa banda que sacudirá as almas.


Soltará foguetes, bombas de artifício,
Decretará dia para a vida inteira,
Andará de moto nas tardes de sol,
Terá gosto de manga, de mel, de anis.

1981

CHUVA FINA

Estou triste... estou tão triste...
Mas não me consumo. Apenas baixo a fronte.
E me resigno. Apenas me resigno...
Na mansidão da tristeza quieta.


Há uma chuva fina na tarde sombria.
A minha tristeza é como a chuva fina na tarde sombria.

CANTO AOS HOMENS NO TRABALHO

Os braços dos homens erguem instrumentos:
Pás, enxadas, marretas, picaretas,
Ancinhos, foices, tesourões e talhadeiras.
Os braços morenos erguem ferramentas;
Os braços retintos erguem ferramentas;
Os braços mulatos erguem ferramentas;
Os braços brancos já se amorenaram.


O sol é perverso como torturasse;
Os corpos suados brilham sob o sol perverso;
Os corpos reluzem no dia infernal de quente.


Em algumas mentes brincam sonhos;
Em algumas mentes, rostos de amadas;
Em algumas mentes, nada mais que o dia-a-dia
-- Com sua rudeza, com sua crueza – e o medo do amanhã.


De algumas bocas ouvem-se canções;
De algumas bocas ouvem-se galhofas;
De algumas bocas ouvem-se queixumes;
E de outras bocas, nada mais que histórias,
E de ainda outras, doces ilusões.


Os corpos suados, o sol implacável.
Ferramentas sobre a terra, baque surdo soa;
Ferramentas ao cimento, baque seco soa;
Ferramentas sobre o ferro, soa som metálico.


Ferramentas, homens, músculos, suor.
São os homens no trabalho, pro trabalho,
Do trabalho, são os homens num poema
De poeira, sol e terra, de cimento,
Ferro e pedra, braços fortes, sem lirismo,
Mas que canta desse jeito a própria vida.

1994

CANTO À SERRA DA MANTIQUEIRA

Serra da Mantiqueira, quando da janela do veículo eu vejo Engenheiro Passos ficando para
[ trás
E a tua estrada sinuosa a dançar diante de mim,
Uma alegria me assanha, coisa assim de uma criança.


Quando eu me encontro entre tuas árvores, tuas plantas, tuas flores e teu mato,
Uma emoção me enleva, como se eu fosse um passarinho
Liberto da gaiola e entregue à natureza.
Estar em ti é como o primeiro beijo na mulher que se quer.

1994

BELA, LINDA...

Bela... bela... bonita...
Bonita... linda... linda...
Bela como a noite quieta
A cantar silenciosa
Aos corações enamorados.


Bela... bela... linda...
Loura como o sol dourado
A ornar as praias, praças
E ruas da cidade.


Seus olhos verdes parecem um mar de águas amenas
Repousando na paisagem,
Encontrando o céu claro
Na linha do horizonte.

1989

AUTOBIOGRAFIA DE UM ZÉ

Em guri, neguim de morro,
Eu vivia a tomar bolas
Dos guris de lá do asfalto
E a levar e dar porradas.

Empurrei carrim de feira
E sonhava ser um craque,
Afanava nos mercados
E sonhava a seleção.


Pela minha adolescência,
Ouvi que era um negro lindo
E quis ser galã da Globo
Ou, então, um gigolô.


Hoje, aos vinte e cinco anos,
Tenho mais de três ofícios,
Mas componho alguns pagodes:
Quero mesmo é ser artista!


Fui servente de pedreiro,
Trabalhei já de mecânico,
Tive muitas profissões,
Mas nem todas tão honestas.


Fui porteiro, vigilante,
Camelô, pintor, garçon,
Já fui cabo-eleitoral:
O que eu quero é ficar vivo.


Já rezei pra todo santo,
Me enfiei entre evangélicos,
Pus despachos nas esquinas,
A pedir vida de gente.


Já fiz parte de uma greve,
Já votei nesses sujeitos.
O que eu quero não é muito:
É levar vida de gente.


Quando sem querer meus olhos
Dão co'os olhos tão opacos
E tristonhos dos meus entes,
Já não sei mais o que quero
Ou se mesmo quero algo:
No sem-vida dos seus rostos
Eu enxergo o que é real,
Vejo morto qualquer sonho,
Qualquer fio de esperança.


1995

AQUELE TEMPO

Ah, aquele tempo
perdido
no tempo,
na turbulência dos dias...
Ah, aqueles dias
perdidos
entre os dias,
no emaranhado do tempo,
no embaraçado dos dias...
Ah, como dói a saudade!
Ah, me enlouquece o afã
de retornar ao passado.
Ah, me enlouquece o desejo
de explodir de tristeza,
de mergulhar sobre a morte.


Ah, aquele tempo
tinha gosto de folia,
tinha jeito de licor
e cheiro de paraíso.
Ah, aquele tempo
mais parecia os campos
cobertos de luzes e cores,
mais parecia a aurora
e os raios de sol nos jardins.
Ah, aquele tempo
mais parecia volúpia,
mais parecia o Céu
dos sonhos celestiais dos místicos.


1990

APOLOGIA DO FIM AO ANTIGO

Se é pra renegar tudo o que é antigo,
Acabe logo com tudo o que é antigo,
Mate seu avô.
Se você tem mais de vinte,
Mate-se também.


Se você é evangélico,
queime sua bíblia.
Se você é paleontólogo,
Destrua os seus fósseis.
Se você é arqueólogo,
Dê um fim nesses resquícios
Que você tem do passado.
É preciso destruir tudo o que é antigo.
Toque fogo nos museus.


Bote abaixo Ouro Preto,
As ruínas da Acrópole,
O Instituto Oswaldo Cruz.,
As pirâmides do Egito...
Mande a História pros infernos,
A cultura pro diabo.


Beethoven, Chopin, Mozart...
Destrua essas velharias.
Destrua os “museus” do Chico,
Da Elis, do Mílton, da Bethânia...


Dê um fim ao que é antigo,
Em tudo aquilo que é antigo,
Em você principalmente,
Pois você cultiva o hábito
Velho, arcaico, ultrapassado
Do desprezo ao que é antigo.

1995

APARECIDA

Aparecida,
minha querida,
é tão pura,
é criatura
tão sem maldade,
que na cidade
é desfrutada
pela moçada
pulha, anarquista,
qual jamais vista.


Trimestralmente,
sofregamente,
de Antonina
vou a Medina
ver a menina
tão pequenina
nos seus enganos,
seus vinte anos.
Quando lá chego,
me aconchego
nessas belezas
que a malvadeza
já conhecida
dos casticidas
deixa marcadas,
escoriadas,
porque a coitada,
dócil pureza,
tão indefesa,
não tem firmeza
pra dizer não.


Aparecida,
desprotegida,
tão acanhada...
quando flagrada
com o padeiro
e um motoqueiro,
frágil mimosa,
de tão nervosa,
me apontou,
riu e gozou.


Mando dinheiro
o ano inteiro:
pro seu Natal,
pro Carnaval,
nosso enxoval,
que vai bem mal,
que não tem mais
que dois dedais:
um vagabundo
nauseabundo,
rei da torpeza,
chora pobreza
e a tolinha
o acarinha
e, em caridade,
pura bondade
que se exacerba,
repassa a verba
àquele verme.


Muito apanhei,
bati, briguei,
fiz muita cena:
valeu a pena:
tenho a pequena,
que é tão pura,
oito fraturas
que não são nada
se comparadas
com a firmeza
desta certeza
que ela me ama,
meu nome chama,
mesmo na cama
de um vil qualquer.


Mas Deus é pai
--não digo um ai:
minha criança
-- tenho esperanças --
um dia cresce,
amadurece,
pr,esses carrascos
olha com asco
e, assim, amigo,
parte comigo,
moça casada
mui respeitada
-- não concubina! --
pra Antonina.

1993

AO MEU PEITO

Grita, alma,
canta alguma coisa;
peito, acorda,
nunca mais tu adormeças,
nunca mais tu permaneças
na preguiça do sossego
d’alma quieta e vazia
das pessoas incolores
que transitam pelas ruas,
que vegetam pela vida.


Peito, balança,
trepida, apaixonado,
rebenta, ebulindo,
com paixões da adolescência,
com loucuras e azáfamas,
com entregas quixotescas.


Peito, arde
com o fogo adolescente
da primeira entre as orgias,
da primeira entre as volúpias.


Alma, canta
a mais serena das cantigas,
mais suave dos amores,
os mais brancos dentre os sonhos,
as mais alvas fantasias.


Coração, acorda,
pulsa feito aos vinte anos,
bate no frenético delírio
dos amantes romanescos.


Corpo, luta
pela mais tola das causas,
mais utópico motivo
e o direito de voar.
Corpo, luta,
pra mostrar que em ti há sangue,
pra mostrar que em ti há vísceras,
pra mostrar que em ti há vida.

1989

ANSEIO DE PARTIDA

Ah, quem dera fosse a vida
um eterno partir sem despedida,
um constante renascer num amanhã
tão diverso, que a alma se espantasse encantada.


Quem me dera partir sempre, sempre partir,
para Minas, Holanda, para Vênus,
a cada tempo viver nova vida.


Ah, quem me dera o eterno partir,
o eterno chegar,
eternos novos ares respirar,


liberto da mesmice que faz tediosos os dias
e sitia a alma no deserto estéril de anseios,
árido de paixão, de emoções, de desejo de viver.


II


Partir sempre, e sempre partir para todo o sempre,
mas não partir para a morte:
a morte é, no mínimo, tediosa
E, partida medonha e poucas vezes voluntária,
rouba da gente o poder e o direito de partida.

1995

A VOZ DE ELIS

Deus me deu ouvidos para ouvir a voz de Elis,
Sinfonia doce, suave e encantada dos anjos,
Cantar que embriaga, que bole com a alma da gente,
Som repleto de tudo que existe nos peitos:
Traduzindo a dor, a alegria, a paixão.
Que, leve, desliza, planando no céu infinito,
Que se delicia nos banhos de rio,
Que arde nos leitos, na mais alta volúpia,
Que transborda em mais de mil sentimentos,
Que se impregna de toda existente emoção.


Voz tão viva e tão fértil como a Mãe-Natureza...
Deus levou Elis para cantar para Ele.


Deus fez a voz de Elis à imagem e semelhança de como o devoto vê Deus.

1993

A TODO AQUELE QUE NUTRE UM DESEJO, POR MENOR QUE SEJA, DE MORRER

Não, amigo – besteira! – não morra:
A vida é tão dinâmica, tão cheia de fatos,
Tão cheia de gente, tão cheia de cores, tão cheia de vida,
Que, indiferente a você, seguirá seu curso.


Que diabos de prazeres idiotas você quer para si?
Terá que se contentar com os enfados de um velório,
As lágrimas sentidas dos entes mais próximos
E dos amigos aturar insinceros elogios
Com lugares-comuns de péssimo gosto
Murmurados à sua família, ante seu caixão.
Sem falar as ordinárias anedotas sobre defuntos
Em que eles o incluirão, quando, enfim livres de sua cerimônia funérea,
Reunirem-se no primeiro botequim.


Não seja tolo, amigo, não morra.
Será lembrado apenas por aqueles raros que de fato o amam,
Mas que – ora bolas! – não podem ficar a vida inteira
Chorando você.


Os outros somente muito de quando em quando
É que de você se lembrarão.
E a sua mulher ou, se for o caso, as suas mulheres
Encontrarão logo, logo, cada qual o devido consolo
Nos braços de um sujeitinho qualquer .


Não, meu amigo, por que morrer?
De que vale um bom necrológio, um enterro de arromba,
Uma missa das boas, dar nome a uma rua,
Se do prazer da carne não poderá mais desfrutar?
De que adianta ser um defunto famoso
Ou mesmo chorado e lembrado por muitos,
Se das cores, das luzes, da alegria da vida
Estará tão distante, simplesmente ausente?


Não, meu caro, não queira morrer.
Há tão belas mulheres de formas lascivas;
É tão bom ir ao bar para rir e falar;
São tão lindas as músicas, envolventes as ruas
Repletas de gente, vitrines e sol.

1994

A NAMORADA DO BANDIDO


O meu homem é um cavaleiro andante
Audaz, afoito,
Herói que empunha AR-15
Nas mãos seguras
Que tantas mortes já provocaram.

Não é o chefão aqui do morro,
Mas quase isso,
E, orgulhosa,
Eu desfilo meus ares de primeira-dama
Por estes becos,
Muito embora eu o saiba homem de muitas outras,
Me contentando
Em ser mais uma das suas dezenas
De prediletas.

Promotor de festas, danças, alegrias,
Comendador,
Paladino da luta contra as injustiças,
Meu doce rambo,
Que acolhe, satisfaz e aquieta meus desejos;
Que me sacode nos braços fortes, quando tem raiva
E que me bate;
Mas me comove quando traz presentes caros,
Lindos, mimosos,
Alimentando, superinflando meu narcisismo.

Um dia, eu sei, meu homem tombará desfigurado,
No encerramento
De sua carreira gloriosa e de seus dias
Aqui no mundo.
Aí, eu chorarei como a mais inconsolável das viúvas;
Mas sei que logo
Um outro herói com os mesmos predicados
Me aquecerá
No peito forte
E ganhará meu coração.

 1994


É bom deixar bastante claro que “A NAMORADA DO BANDIDO” não pretende de modo algum glorificar a imagem do traficante de drogas ou do membro do crime organizado, mas focalizar a visão que as moças pobres que se envolvem com tais criminosos têm destes, além da sua quase impossibilidade de livrarem-se da condição de mulheres de delinquentes.
1994

A MORTE DE TUPÃ

Os deuses da mata agonizam,
aniquilados por gringas missões.
O jeito de viver a vida
é já diferente do de viver na mata.
O olho de ver o mundo
já foi trocado pelo olho impingido
da civilização.


Índio pilotando escavadeira,
tombando a mata,
já nem conhecendo língua de índio.
O Kuarup virando
atração de tevê.


Madakalá posou nua pra revista,
de adereços dourados e batom carmim:
Madakalá erótica,
sofisticada.


Jandaia montou uma termas
e transa com todos
os brancos que chegam:
Jandaia aidética,
sifilítica.


Jakalo já trocou a moto
por outra mais possante
e vive a mil por hora:
Jakalo piloto
malucão!


Paru montou uma boate
que toca o bolero,
o rock, o jazz:
Paru dono das noites
do Xingu.


Yakuí constrói edifícios
com playground, piscina,
com quadra e sauna:
Yakuí construtor,
capitalista.


Mas o Peri virou assaltante,
vive às tocaias,
todo sorrateiro,
com seu trinta-e-oito.
Peri facínora,
meliante.


E o Karuta lê Drummond, Veríssimo,
Machado, Bilac
e os grandes clássicos,
e fala inglês,
francês, espanhol
e mais outras línguas:
Karuta ilustrado,
poliglota.


Os deuses da mata
em pleno ocaso,
as missões de Cristo
fazendo o diabo;
a turma de Brasília
e os poderosos...
essa gente toda
engolindo os deuses,
engolindo os índios
com a voracidade
de bestas famintas.


1989

A CASA

A casa é antiga, de desbotado amarelo e comprida varanda,
Tem muro de pedras, jardim, mangueira, outras árvores.
A casa remonta décadas perdidas no passado
E está encravada no subúrbio da Penha,
Em contraste com o trânsito, o asfalto, os ruídos,
O ar da cidade e a fria arquitetura
Das outras construções.


É preciso destruir totalmente a cidade!
É preciso urgentemente demolir a cidade!
E reconstruí-la com jardins e pracinhas,
Com trilhos de bondes e bondes correndo,
Com mocinhas sonhadoras e violões em serenata...
É preciso adequar a cidade à casa.


É preciso desmantelar o mundo e refazê-lo
Para torná-lo compatível co’a casa.

1995

A ADOLESCENTE

A tarde canta, silenciosa.
O mar diz coisas que ela entende
ao mergulhar os olhos claros
no imenso azul, na espuma branca.


Da areia fina, fofa, sedosa,
ela navega seu infinito
e então desvenda os seus mistérios
e então os conhece intimamente.

Toda figura feita de nuvem
ela distingue num só relance.
Cada gaivota que voa ao longe
é mensageira da natureza.


Ali sozinha, ali estendida,
já sonolenta, ela se encontra,
entre os anjos, entre as harpas
do Céu distante, inatingível.

1981

domingo, 9 de setembro de 2007

O CANTO POSSÍVEL

Eu quero cantar a vida em sua intrínseca dança.
Quero cantar as pessoas que passam em rumo ao trabalho ou que tão-somente andam
           [ à toa, descompromissadamente por aí.
Eu quero cantar a viveza saltitante e solta dos sábados cariocas de verão.


Eu quero cantar por cantar os bares do Rio com sua animação colorida,
A atmosfera pagodeira do centro da cidade nas noites de sexta,
A descontração das crianças que correm nos parques,
A exultação dos cães na chegada dos donos...


Eu queria cantar a faceta alegre da realidade dos dias...


Mas o meu canto é cheio de mágoa, é pejado de ódio,
É triste como um silente crepúsculo de inverno...
O meu canto, furibundo, melancólico, ferido,
É só o que sai de minh’alma amarga, sombria, envelhecida.

1997

sábado, 8 de setembro de 2007

VERSOS ERÓTICOS

O sexo é a sublimação dos corpos
e dos espíritos,
é a deificação dos humanos.
O teu corpo foi feito para o amor.
Ama com a incandescência do teu ato de amor primeiro,
ama como se amar fosse teu ato derradeiro.


1996

VERSOS DE PORCELANA

Lua delicada,
Porcelana acesa
A luzir imóvel.
Música de seda
Me tocando o espírito,
Fica a me enredar.

Já cantei seus lábios,
Suas mechas negras
Quais penduricalhos
Sobre o rosto lindo.

Já fiz um poema
Do seu corpo esguio
Desnudo no leito,
À luz de penumbra.

Recordei o vinho,
Seus sussurros lúbricos,
Seu "ballet" selvagem
Entre finos mantos.

Venerei seu riso,
Seu odor de flores,
Olhos de felina,
Pele de veludo.

Retribua agora:
Do meu pensamento
Saia sem demora:
O meu peito é tênue,
O meu medo, imenso:
Não mais quero amar.

1995
Quando eu escrevo, faço-o com tal entrega e tal enlevamento, que é como se me distanciasse a milhões de anos-luz do mundo. E, mesmo sem a leveza e sublimidade dos anjos, fosse um ser etéreo e impalpável, simplesmente desprovido de corpo ou matéria. É onde me resgato e encontro algum conforto para seguir viagem pela vida

CÉTICO

Quando dou-me a averiguar
O passado mais remoto
E retruco as Escrituras,
Falo a crédulos de ouvidos moucos:
Eu, tão ávido de verdade,
Eles, tão prenhes de mentira.


Quando abro minha mente
A buscar versão plausível
Do que possa haver além
Do que captam os sentidos,
Só descubro fantasias,
Devaneios mais simplistas.


Não posso crer nos missionários,
Sacerdotes e profetas,
Nos pregadores visionários:
Não acatarei nenhum deus, nenhuma entidade
Nada nascido do delírio ou do embuste humano


2000

E SE EU FOSSE...?

E se eu fosse o anjo lírico
Que, entre cantos delicados,
Te abraçasse avidamente,
Pra voarmos em quimeras...?


E se eu fosse o anjo louco
Que invadisse teu sobrado,
Te despisse nas escadas
E te amasse no jardim...?


E se eu fosse o aventureiro
Que roubasse-te de súbito,
Pra sairmos mundo afora
E sem dia de voltar...?


Tu então te entregarias?
Tu então te envolverias,
Sendo minha e tão só minha,
Minha assim como meus olhos?


2001

VERSOS DE PORCELANA No 2

Quero te fazer um poema co’a delicadeza de quem toca harpa,
Co’a mansidão de quem dedilha violão.
Quero versejar para ti assim como quem toca flauta,
Como quem docemente canta ao silêncio da profunda noite.
Quero te cantar como quem se dá de todo às estrelas e ao luar,
Numa coisa assim que é mais que prece, que oração, que reza,
Mais que entrega, enlevamento, que viagem,
Algo que nenhuma língua tem palavras para exprimir.

2000

RESQUÍCIO

Quem senta
Na sala,
Quem ouve
A canção,
Revolve
Lembranças,
É apenas
Meu vulto,
O pouco
De tudo
Que fui.

Quem cala
Na casa,
Quem passa
Por entre
Os umbrais,
É o morto
Sem corpo,
Não mais
Que mero
Resquício,
A leve,
A vaga
Memória
De mim.

Quem deita
Na cama
Querendo
O sono
Perpétuo,
Mais fundo
Dos sonos,
É a sombra,
É o vulto,
É o éter,
Memória,
Resquício,
O nada,
O nada
De mim.

 1996

VERSOS COM OLHOS DUROS DE PEDRA

Escrevi pra vocês uns versos
Que falam de minha visão do mundo.
Versos que não encerram beleza,
Versos que não sugerem leveza
Ou que possam a alma adoçar;
Mas que foram escritos co’a tinta
Da nua, crua, perversa,
Da fria realidade.


Versos sem sonho, esperanças ou o riso
Mais tímido entre todos os risos;
Versos que nada desejam,
Mas que somente constatam.
Versos despidos de adornos,
Versos tão duros e ríspidos,
Que nem ousam se lamentar,
Que não sabem sequer prantear.


Versos cruéis de tão rudes,
Cruéis como o médico que anuncia
Ao paciente a proximidade da morte.
Versos com olhos duros de pedra
E com certo rubor de ódio;
Versos de carrancudo semblante,
Versos de impiedosa verdade.


2001

O TEMPO

O Tempo
Que pouco
A pouco
Faz velho o que antes
Foi novo;
O Tempo, insensível,
Que risca
Nos rostos,
Contorna nos corpos
A marca indelével
De sua presença...


O Tempo,
Que aplaca
Os anseios,
Que os doma e os torna
Vontades serenas
Ou sonhos sepultos...


O Tempo, infalível,
Que abranda as dores
Até extingui-las.
Que deixa perdidos
Violentos amores
Em cantos remotos,
Atrás de si próprio.


O Tempo, tão rude,
Tão frio e tão cru,
Insensível a tudo,
Traz morte e traz vida,
Traz era após era,
Mudando cenários,
Incapaz de saudade,
Qualquer nostalgia
Ou fio de lágrima...


O Tempo, invulnerável, imbatível,
Ereto, hercúleo,
Egoísta, impassível,
Apenas toca seu rumo incessante,
E nada há que o comova,
Que pare ou reduza
A velocidade devastadora do tempo.


II



O tempo passou e os meus sonhos ficaram para trás;
Os meus projetos ficaram para trás,
Todo eu fiquei para trás,
Perdido, tentando, já sem forças
E já sem vontade,
Correr atrás do tempo.


Minhas aspirações e utopias caducaram,
Eu próprio fiquei caduco, lá atrás, bem na cauda do tempo.


O tempo de ser feliz se foi e eu o perdi.
Agora deixarei apenas que o tempo me vá pouco a pouco desintegrando,
Eu, coisa vã, obscura, esquecida, perdida
No tempo...
No tempo.

1996

O meu poema é um lamento, o inconformismo, o desalento, a desolação diante da vida e da realidade das coisas.

LÁ FORA / DESOLAÇÃO

Por que refestelar o corpo numa cama
E ouvir as mais serenas das canções,
Se lá fora a vida é tão acesa,
Tão festiva com seu samba e tamborins?


Por que o quarto com o mofo das tristezas,
Se há nos bares radioso burburinho,
Alegria tão vibrante, radiante,
Que parece que as pessoas vão voar?


Por que então a quietude tão plangente,
Se essa vida lá de fora é tão dançante,
E espontânea como a jovial e linda negra
Que daqui vejo no bar a rebolar?

1997
Revisto e modificado em 2012



DESOLAÇÃO


Eu versejo com a mágoa que corta e perfura devagar a carne já à dor habituada.
Eu canto com o ódio impotente, murmurante e manso dos guerreiros derrotados.
Eu falo com a desolação cansada e a desesperança dos idosos no crepúsculo da vida.
Eu olho com o olhar opaco do mais puro desengano,
Eu vago pelo mundo com a indiferença e alheamento de uma folha seca arrastada pelo
[ vento.
Eu sigo pelos dias sem saber se estou vivo, se estou morto, confundindo vida e morte,
[ tão enorme a semelhança entre ambas em meu ser.


2001
Revisto e modificado em 2012

POR QUE MARIA MARTA É TÃO TRISTONHA?

Por que Maria Marta é tão tristonha,
se o sol doura a janela desbotada
onde a moça, tão bonita, se debruça
para olhar  os arbustos do jardim?


Por que Maria Marta é tão tristonha,
se, ao despir-se ante o espelho prateado,
faz que surja a figura de uma ninfa,
de Afrodite, de uma fada camponesa?


Por que Maria Marta é tão tristonha,
se, de noite, maravilhas povoam os seus sonhos
de lugares distantes, diferentes,
de cidades agitadas e lotadas?


Por que Maria Marta é tão tristonha,
se em seu canto o tempo passa lentamente,
tão sem pressa, que dá tempo de sonhar,
ver cavalos, potros, éguas a pastar.



Por que Maria Marta é tão tristonha,
se as manhãs são de relvas orvalhadas
e nas tardes chuvas mansas sempre banham
sua pele morena de veludo?


Poderiam os seus sonhos de terras tão longínquas,    
por não terem simplesmente acontecido,    
a fazerem tão calada e  tão soturna,
de tristeza tão profunda e suplicante
que se estampa tão flagrante  em seu olhar?

1996

Revisto e modificado em 2012

O VERSO E O POETA

A cor do verso
é a verde cor dos olhos
da moça pálida e bonita.
O afã do verso
é a pele de bronze da morena
convertida em lira quente e sensual.


A dor do verso
vem do peito cortado do poeta,
da chaga sangrando detnro d'alma.
A força do verso
vem do peito retumbante do poeta,
vem do ódio, do amor e vem dos sonhos,
do querer incandescente e delirante.


A cor do verso
vem também das tardes de alegria,
das noites festivas pelos bares
e das madrugadas tristes de dar dor,
de dar pranto e vontade de morrer.


O verso é filho do poeta,
da circunstância ou do momento do poeta.
O verso nasce, cresce, robustece,
logo, logo, se faz independente.
O verso é opulento de tantos elementos,
que resplandece e que ofusca o seu poeta,
que, ante Ele, é pequeno , tão nanico, diminuto,
 osbscuro, que parece que é uma coisa bem chinfrim.

1996

ANSEIO DE AUSÊNCIA

Partir daqui para o longínquo,
Tornar este lugar irretomável
Como os dias que ficaram no passado.
Tornar os momentos de hoje tão distantes,
Que eu os possa esquecer inteiramente.


Partir tão completa, totalmente,
A ponto de me diluir e desfazer-me.
Evaporar na memória das pessoas.
Eu, volátil, vago, disperso e sem forma
Na mente dos que eu deixe para trás.


Distante, inacessível, vivo ou morto – não importa!
Mas distante, inalcançável,
Em lugar tão diferente,
Em um tempo tão diverso,
Que eu me esqueça destes anos
E também destes lugares,
Que me esqueça de mim próprio
Para todo, todo o sempre.


1997

MORTE

Quero deixar que me caiam os dentes,
Me cresça a barriga,
Me enlangueçam os músculos,
Me adoeçam os órgãos,
Sem ligar prá vida,
Sem ligar prá morte,
Sem sonhar um sonho,
Sem nada esperar;


Contemplar a vida
Sem nenhum apego,
Sem qualquer desejo,
E que passe o tempo,
Que ele apenas passe
Na monotonia
Das segundas-feiras.


1996

DOS MEUS VERSOS

Não sei se o meu poema é bom ou ruim.
Pudera: quem sou eu, mero escrevinhador, para sabê-lo?
Sei apenas que o meu verso é repleto de vontade de morrer e de viver;
Que odeia e ama com fervor candente.
Que sangra, que é lágrima de profunda melancolia, é riso de festiva alegria.
É deboche, escárnio, incontrolável desejo de gargalhar.

Meu poema é a fascinação diante das maravilhas mundanas ou transcendentais,
É intenso como os sentimentos desenfreados do meu coração.

DEVOÇÃO

Entender precisamente a linguagem imprecisa dos teus olhos
E ler neles o querer-me,
Beijar-te com gana  e frenesim animalesco,
Sorver-te com o prazer de quem degusta inebriante néctar,
Possuir-te com os mais ensandecidos dos ardores.


Beijar teu ventre com a veneração dos muçulmanos,
Tocar teu rosto co’a leveza de quem bole delicada porcelana,
Dizer-te as coisas tolas das paixões menos maduras.
Seguir contigo uma estrada incerta, imprevisível,
Mas repleta de aves,  sol, de flores, frutas, de jardins,
De cores, de luar.


Canta para mim umas palavras de ardor, de mel, de açúcar
Que venham do mais fundo do teu peito amante,
Pra que eu seja finalmente alegre e bem feliz.

1996

CHUVA

O sol de inferno é enfim vencido, e os corpos suados
Bebem com volúpia as águas divinas que caem do céu.
A terra aconchega essas águas no ventre de fêmea,
A se regalar no mais infinito prazer.


Depois nascem as plantas, rebentos do amor
Entre a terra e a chuva... a chuva... a chuva...
A chuva, que traz verde aos sertões,
Que faz viver os bichos,  faz sorrir as gentes.
Faz florir os campos, faz dançar a vida,
Faz brilhar meus olhos num enlevamento.

1996

BRASIL-FOLHETIM

O Brasil parou para ver o último capítulo da novela.


As ruas estavam desertas, os bares permaneceram vazios:
As oito horas mais pareciam alta madrugada:
Era preciso saber quem era o assassino!


Meu Deus(!), não fosse aquele personagem bonzinho!
Que caísse o mundo sobre nossas cabeças, que uma explosão nuclear devastasse todo
[o planeta, mas não fosse jamais o assassino aquele sujeito bonzinho!
Teria cabimento – ora vejam! – ser ele um patife, um sonso?


Mãos que se apertavam, peitos que tremiam, olhos fixos na tela sem um piscar, nem um momento
[ de distração.
A vida corria nas ruas... Aliás, nada havia nas ruas!
Sequer havia ruas e vida: só a tela e a novela existiam.


Brasil de expectativas, Brasil de bolsa de apostas,
De mais de uma centena de milhão de detetives.
As pessoas esquecidas de seus problemas... Problemas?!
Mas que problemas?! Não havia nenhum problema, não havia qualquer pessoa!
Só havia a tela e a novela, só havia a telenovela!


Afinal a revelação bombástica, o Brasil conhece o assassino.
O país já sabe quem é seu bandido, o país já prendeu seu bandido único e é feliz como uma
[criança ante um presente de Natal.
Na tela, os casais se formam, se acertam, se reconciliam,
E o Brasil inteiro sorri naquela felicidade plácida dos que já concretizaram todos os seus projetos.


O Brasil, agora contente, aliviado, sereno,
O Brasil, gigantesco, variado, majestoso,
Reduziu-se então a um folhetim.

1996

AMOR DE ESTAÇÃO

Não te sintas jamais senhora absoluta de um poeta;
não me sintas atado à tua pele, à tua boca:
eu te amarei durante os dias de outono,
e amarei Marina pelos meses frios de inverno,
e Maria Rosa por toda a primavera...


Contudo, fique certa como de que os dias anoitecem:
eu te amarei com a intensidade dos sóis de verão.


1996
Revisto e modificado em 2017

SE AS COISAS FOSSEM DIFERENTES/VERSEJAR / DEVANEIOS / A POESIA DO COTIDIANO /CONSOLO NA CERTEZA DA MORTE

Se o homem não fosse tão perverso...
Se o homem não fosse tão sem vísceras...
Se o homem não fosse tão mesquinho...
Se o homem não fosse só ganância
E a mais pura, mais inteira sordidez,
Não precisaria o religioso fervoroso,
Cruel também como qualquer de nós,
Ansiar tão cruelmente pela volta do Messias,
Para este, imbuído da mais pura crueldade,
Condenar-nos a arder nas entranhas do inferno.


1999






























VERSEJAR



Eu quero versejar o amor que me afaga o peito.
Eu quero versejar o ódio em brasa que chamusca meu peito.
Eu quero fazer canto da dor a latejar
Aqui dentro do meu peito apertado
E do calafrio de tristeza que me encolhe e me contrai.
Mas quero também expressar a dilatação do meu coração diante da alegria;
Mas quero também fazer estrofes de deboche e de ironia.


Só não quero é silenciar meu verso.
O que eu quero é parar no meio do mundo
E, abrindo os braços, por todo motivo, bem alto cantar.

1998





























DEVANEIOS


Se outras vozes ecoassem, poderosas, retumbantes,
proclamassem a mais inteira, absoluta das justiças...
Se os homens de alma intrépida e tão forte como ferro,
de heróica ousadia e de coragem leonina
não tivessem sucumbido sob as patas da maldade...
Se as idéias florescidas fossem nuas de ganância,
e a gente se irmanasse e se tornasse a mais sólida corrente...
Se este sítio desse à gente os bons frutos deste sítio...
Eu pegaria nas mãos punhados de terra que beijaria ardentemente,
na volúpia de criança a chupar manga no quintal.


1999































A POESIA DO COTIDIANO


Os carros, o asfalto, o concreto, a correria
Das pessoas que adentram, superlotam conduções.
As sacolas, as maletas, as buzinas e os sinais.


Mulheres nos portões à espera dos maridos.
O pai botou o filho pra casa a safanões.
A morena ficou linda no vestido esvoaçante.


Nas vitrines, roupas, ferramentas, alimentos.
Um comerciante comemora bons negócios,
E o trânsito irritante já começa a emperrar.


Numa casa simples alguém ouve a Ave-Maria.
Gente a saltar dos ônibus, chegando do trabalho.
Um pardal retardatário procura pelo ninho.


Uma moto quase bate contra um carro,
E o homem de casaco que ali passa
Mais parece um marginal.


Na fachada de uma casa, há a estátua de um santo.
Casais adolescentes se encontram nas esquinas.
No céu há um filete de sol a se esconder.


A gente já começa a entrar nos botequins.
Nas mentes há projetos ou vagos pensamentos,
Nos corações, emoções ou letargia.


A mulher gorda traz bolsas cheias do mercado.
Um grupo de homens discute futebol.
Carros de todos os tipos passam soprando fumaça.


Ruas suburbanas, poeirentas e cinzentas,
O fim da tarde, os bares, os carros, os casais:
É o crepúsculo a se cobrir da cotidiana poesia.

1997



CONSOLO NA CERTEZA DA MORTE



Não chores, não rias, não cantes,
apenas fica imóvel, permanece imóvel.
Não te angusties, não te inquietes,
apenas fica imóvel, permanece imóvel
e calado,
e mudo,
estático,
parado.


Fica quieto, porque o tempo nunca para,
porque a morte é infalível,
porque o tempo leva à morte,
que te será a consolação.


A morte, que te acolherá nos braços gélidos
e, fria, te afagará o peito ferido
e, silenciosa, te abraçará em sua frigidez noturna,
e assim dará o conforto e o bálsamo de que tua alma em dores necessita.
A morte, que te aconchegará em seu peito frígido,
que te acarinhará como se tu fosses criança
e como fosse ela a tua mãe.

1999

QUE TAL? / FUNDO DESENCANTO N. 2 / QUE MAIS, SENHOR? / FUNDO DESENCANTO

Que tal, amigos, a gente, unidos,
Tentar virar de pés pro alto
Este mundo tão injusto?


Cada um pelos seus meios,
Cada um pelo seu modo,
Cada um como bem sabe.


Vocês ficam de guerreiros,
Eu, de ardente orador.
Vocês ficam na masmorra,
Eu versejo à liberdade.


Vocês ficam co’a dor física,
E eu fico de poeta,
Sob aplausos da “galera”.


Vocês morrem na tortura,
Eu lhes faço um necrológio,
Um discurso bem baiano.


Depois entro num partido
Que lhes faça exaltações.
E, mais tarde, os seus carrascos
Eu procuro pr’alianças.
E, assim, de amigos novos,
Fico rico e poderoso,
E asseguro então o futuro
Dos meus netos, decanetos...

1996










FUNDO DESENCANTO No 2



Se um dia tu parares, refletires longamente,
te lembrares de que, das mulheres que tiveste, muitas não te amaram
e algumas nem sequer te foram fiéis...
que entre todas só uma ou raríssimas te deram amor e te foram leais,
que tu mesmo igualmente te limitaste a usar a maioria das mesmas e a não ser exatamente
[ um exemplo de amor ou virtude...


Se notares que nenhuma força sobrenatural há que livre e acuda os seres dos acidentes e
[ infortúnios da vida e da maldade humana...
Se notares, ainda, que nenhum ser supremo te irá reparar as injustiças sofridas, quer hoje,
[ amanhã ou num suposto juízo final,
e que nenhum juízo final castigará os maus e recompensará os bons para fazer valer o teu
[ parco senso de justiça...
Se, nesta própria questão, olhares para o teu próprio umbigo e reconheceres que também
[ não és um modelo de justiça ou bondade...
Então tu te acharás um verme entre tantos vermes
e te sentirás tão só, esmorecido e perdido...
e terás da vida um desencanto e desalento profundo...
e então tudo a teus olhos será tão baço, cinzento, deserto,
será tão sem cores, sem brilho ou canção,
que amarás do fundo d’alma a certeza de um dia morreres.

1999
















QUE MAIS, SENHOR?



Que mais quereis, Senhor, pra que eu mereça o Céu?
Já falei teu nome, já preguei tua palavra
Pelos quatro cantos do Universo.
Fiz pregão da tua ira,
Orações já fiz milhões,
Passei horas, dias, anos,
Incontável tempo nas igrejas.


Que mais quereis, ó Deus Supremo?
Dizei ao meu ouvido que estou salvo.
Já cantei cânticos sacros
Tantos, que cheguei a confundi-los.


Chorei só em mencionar-vos,
Aprendi um ar de arcanjo
Que comove até o mais rude
Dos humanos que criastes.


O que mais quereis, Meu Pai?
Mitigai minha aflição
Em dizer-me que já tenho
Garantido o Paraíso.


Rogo pragas ao demônio,
Cuja obra só maldigo,
Cujo nome eu só grafo
Com inicial minúscula.
E então, dizei, Bendito,
O que mais quereis de mim?


Bajulei-vos mais que pude,
Decorei as Escrituras,
Dediquei-vos cega fé.
E então, Maravilhoso,
De uma vez, enfim, por todas,
Entendei: mereço o Céu.

1999


FUNDO DESENCANTO




Eu não clamo mais pela Justiça:
Abandonei as lutas vãs.
Eu não grito mais pela Verdade:
A Mentira é, para a alma humana, venerável.


Eu não tenho nenhuma tola esperança
Guardada quanto ao terceiro milênio.
Eu sei que não evoluirão humanisticamente os homens.
Eu não creio na salvação das espécies,
No resgate das matas, dos rios, das plantas:
Não nutro ilusões de um mundo melhor.


Não acredito no olhar súplice de amante,
Não acredito no abraço caloroso de amigo.
Eu questiono Deus e não creio nos homens.


Eu não creio em nada, em nada absolutamente.
Eu sou como o arbusto ressequido
A se decompor no meio de infinitas terras áridas.
Eu sou como o seco sertanejo de rugas fragmentado,
Que, impassível, contempla os campos mortos,
Aguardando apenas que a morte o toque também.


1996

QUE IMPORTÂNCIA? / O DEVOTO / O VÍRUS HUMANO / SE EU FOSSE DEUS

Que importância tem você no mundo?
Apenas mais um rosto entre tantos rostos,
Apenas mais um passageiro na fila do ponto de ônibus,
Somente alguém na fila do banco,
Somente alguém na fila do Sus.


Se morresse agora, de acidente, de tiro ou de enfarte,
Alguém diria um vago "coitado",
E a vida, indiferente, imediatamente seguiria,
A vida em sua indescritível monotonia.


1996





O DEVOTO


Reservou a manhã bela para a sacra devoção.
Caminhou até a igreja, na humildade de um asceta.
Repetiu a ladainha sem um erro nem tropeço
E rezou com o semblante suplicante dos pedintes.


Doou notas à igreja, deu moedas aos mendigos,
Comovido de ir às lágrimas co’a bondade de si próprio.


Venerou a estatueta de uma santa no altar
E sorriu com a certeza de se haver purificado.


Ao deixar a imensa igreja, foi andando pelas ruas;
Sobranceiro, bem sisudo, olhou toda aquela gente
Que não fora a qualquer missa, não se dera a qualquer reza.
Desejou que o Deus Supremo reservasse a todos eles
Os piores infortúnios e o fundo dos infernos.


Já em casa, entredentes, dirigiu-se à empregada
Com palavras de aspereza, com severo menosprezo.
Entregou tarefa dura à criança favelada
Que explorava de costume.
Mas beijou a oleogravura de Jesus crucificado.
Mas conhecia já de cor as Sagradas Escrituras;
Mas pregava em todo canto a palavra do Senhor:
Era alguém santificado, o mais sublime entre os homens.
Garantira para si uma vaga lá no Céu.



II


Não há nenhuma dúvida de que as religiões podem modificar a conduta dos homens. Entretanto, e infelizmente, jamais transformarão a sua índole, a sua essência, a sua natureza pejada dos mais lamentáveis defeitos humanos.


1996

O VÍRUS HUMANO


Um vírus se aloja no organismo e depois prolifera.
O homem surge no Planeta e desenfreadamente se multiplica.
O vírus destrói defesas e devasta um ou mais órgãos.
O homem destrói a camada de ozônio e devasta ecossistemas e florestas.
O vírus é de alta endemia e atinge outros corpos.
O homem lança lixo espacial pela galáxia.
O vírus leva o corpo à morte irremediável.
O homem vai levar todo o Universo à destruição.


O carcinoma não tem consciência de que é carcinoma,
O HIV não tem consciência do mal que faz,
Mas o homem, sim, e por isto é pior que ambos.
O homem, câncer dotado de razão,
HIV racional e perverso do Universo.

1997



II


SE EU FOSSE DEUS


Se eu fosse Deus,
Dizimaria da Terra os homens
E deixaria por aqui as outras espécies,
Que viveriam em perfeita harmonia co’as águas,
As plantas, os solos, os ares, as árvores,
Fazendo assim do mundo o céu almejado,
O Céu dos delírios prazerosos dos místicos.


1999



III


A George W.Busch, presidente do Estados Unidos, que rompeu com o Protocolo de Kyoto e declarou que não aceitaria qualquer acordo que impedisse o seu país de devastar o meio-ambiente quando a destruição fosse ao encontro dos interesses econômicos de sua terra. Faço-lhe esta anti-homenagem na esperança de que o mundo o eleja o pior homem do planeta.
03 de abril de 2001

POEMA DE NÃO-AMOR

Quero fazer um poema que seja só não-amor.
Que não seja canto, mas silêncio;
que não seja perdão, mas ódio
calado,
velado
e mudo.


Quero fazer um poema que não olhe nos olhos da amada,
mas baixe a fronte,
jogando os próprios olhos
sem brilho
no chão.


Quero fazer um poema cheio de vazio,
que não afague,
mas ponha as mãos
cerradas
para trás.


Quero fazer um poema que nada expresse,
não faça gesto,
não olhe,
não sinta,
mantenha a boca
fechada,
trancada,
e o corpo
imóvel
tal como estátua
feita de pedra.

1999











Eu quero a embriaguez,
Não a embriaguez dos boêmios,
Mas a embriaguez dos desamados e dos solitários,
Dos desistentes da vida,
Dos bêbados cuja única aspiração
Cuja única paixão, cujo único desejo
É a garrafa de bebida;
A embriaguez dos que tombam a fronte sobre a mesa
E, esmolambados e sujos, dormem um sonho anestesiado e sem sonhos.


A música que me encantava passa diante dos ouvidos em vão,
Sem atingir minha alma,
Sem tocar meu coração.
Eu quero o dia sem sol e sem luz,
Eu quero a noite sem melodias nem luar,
Sem poesia e sem céu estrelado.


Eu quero os dias imóveis e silenciosos,
Numa quietude sepulcral.
Eu quero a morte,
Eu quero que a morte venha com brevidade:
A morte sem tristeza, sem horror, sem agonia,
Mas também sem suavidade ou lira que lhe adorne a face crua.


Eu não mais suporto o fastio da vida,
A vida pesando nos ombros;
Eu não quero mais seguir nenhuma estrada
Nem iludir-me em alimentar qualquer esperança.
Não quero deixar saudades, recordações,
Não quero louvações nem elogios póstumos:
Quero o mais absoluto esquecimento
E que nada exista além do corpo e da carne:
Eu quero a morte, quero somente a morte.

1996











Quem cantou
ao teu ouvido,
de manhã, quando acordavas,
foi a vida, que bradava no teu peito
e dançava uma dança toda feita de folia.


A viveza, que te fez querer pular da cama,
rodopiar e saltar pelos jardins floridos,
e abrir as mãos para pegar gotas do sol.


Quem te fez querer cantar a toda a voz
uma cantiga toda feita de alegre poesia,
foi a vida, retumbante no teu peito,
a alegria, a fazer-te então menina.

1998




























POEMA DE CONCRETO




Quero fazer um poema de arroz e de feijão,
cheio de pés no chão e dia-a-dia,
mas que nem por isto seja menos poético
que qualquer poesia ornada de rosais e de jardins.


Um poema carregado de pigarro e de olhos vesgos,
de beleza encoberta por suor e cabelos mal cuidados,
mas que nem por isto se despoje de fundos sentimentos
e das mais sublimes e dolorosas emoções.


Versos pejados de poeira de mobília e de cascalho,
mas que mesmo assim cantem as coisas mais intensas,
os desejos mais fervescentes do coração.


Quero fazer um poema cheio de frieira e cefaléia,
de emplastro, detergente, roupa suja e de cimento,
mas que encante e que enleve e que arrebate
tanto quanto os olhos súplices da amada sob os raios do luar.



II



Quero te fazer um poema sem bonitas expressões,
sem campos floreados ou luares de verão,
sem a leveza das imagens e cenários que mais se ajustam às poesias.
Quero te fazer um poema cotidiano e realista,
mas que ainda assim traduza um sentir tão sem tamanho,
que soe linda e divina a mais corriqueira das palavras.

1998


MILENA


Vem de algum lugar, Milena, que meu canto te procura
Por todo beco,
Por todo canto
E pelas noites silenciosas, Milena;
Noites de frio
Que não revelam
A tua imagem.


Surge, Milena, assim de repente como fada;
Nasce de um clarão multicolorido de magia
E então flutua
Bem docemente
Ante meus olhos.
Vem, Milena, chega assim de entre as nuvens;
Vem, que meu poema de ti se alimenta.
Chega antes que meu peito canse,
Antes que meu verso cale
E eu apenas seja folha seca a vagar sem rumo.

1996

O IMPÉRIO DOS DEMÔNIOS/DESESPERANÇA/FICA COMIGO/TEU NOME/VERSOS DE PURA AGOINIA

Como não alimentar apreensões, desgostos e o medo,
Se eu vejo o fantasma de Hitler pairando sobre a Europa,
Numa gradativa e estarrecedora matrerialização.
Amedrontado, avisto a ku-klux-klan em tantas almas do primeiro mundo
E, desalentado, noto a eterna vocação das nações latino-americanas
Para meras possessões.

Eu vejo o poder econômico formando quadrilhas gigantescas,
Onipresentes, monstruosas, implacáveis, pavorosas,
A massacrar a maioria, para quem a existência
É inglória, é derrota, sacrifício, é martírio, é penúria.

Homens de olhar altivo, de postura mussoliniana,
Condenando multidões ao infortúnio,
Do alto de seus elevados e malditos pedestais.

Gentes arrogantes e soberbas que odeiam, que desprezam outras gentes
Por questões de raça, de origem, de matiz ou descendência.
O menosprezo de opulentos, para quem não são os pobres
Mais que reles peças, animais de produção.

O que será de mim, vocês, de nós, dos meus, dos seus,
Dos nossos descendentes, de minha e nossa gente?
O que será, enfim, de tanta, tanta gente?
Eu me desolo pelo hoje e sinto medo do amanhã.
Por que tanta frieza, crueldade, indiferença?
Por que esse tamanho gosto pelo sangue?
O mundo, nos dias de hoje, como ontem e como sempre,
Vive o infernal  império dos demônios.

1995




DESESPERANÇA

Abaixo todo governante e todo governista!
Viva todo radical opositor!
E que os opositores nunca cheguem ao poder,
Pois o poder existe somente, unicamente
Para servir ao poder.

Não há esperança a nutrir no coração:
O mundo gira em torno dos tubarões capitalistas
E nunca, nunca o povo terá vez.
O povo é nada mais que um simplório gigante,
Incônscio do que poderia se soubesse abrir os olhos.

Não há esperança a nutrir no coração:
Eu quero apenas ser um homem arredio,
Desregrado, libertino, sem rédeas e sem travas
E me regalar da verde paisagem das estradas
Que me levam até as delícias do sul de Minas.

1997



FICA COMIGO

Fica comigo, morena:
Ele tem a voz possante, ornamentada e clara
E o ar imponente dos mais ricos dos senhores,
Mas eu trago um trecho decorado de um poema do Vinícius
Para murmurar docemente ao teu ouvido.

Fica comigo, morena:
Ele tem projetos bem palpáveis, calculados,
Tem ideias cristalinas, visão larga de futuro,
Mas eu nutro umas doideiras encantadas de quimera,
Pra fazer-te sonhadora, uma menina novamente.

Fica comigo, morena:
Ele tem a elegância, mais vitórias que derrotas,
A firmeza leonina e uma fibra quase heróica,
Mas eu tenho os braços quentes de paixão e de afago
E uns poemas pequeninos que escrevi só para ti.

Fica comigo, morena:
Ele tem pra relatar inúmeras vivências,
Com viagens, com sucessos, decisões, experiências,
Mas eu tenho pra contar a grandeza do meu êxtase
Quando o sol doura a mangueira de manhã, em meu quintal.

1997



TEU NOME

Na noite quieta te entreguei
Meu pensamento.
Tua lembrança tocou-me a alma
Como carícia.
Era saudade
Que não doía,
Pois vinha junto com esperança,
Co’a alegria
De estar vivo
Que se acendia
E assumia a supremacia
Do meu espírito.

És como o sol que entra
Pela janela
Nas manhãs frias,
Trazendo vida,
Trazendo luz
E ao peito, música.

Tua imagem na minha mente
Fez trepidar
Meu coração.
Deliciei-me em recordar
Tua figura,
Tuas palavras;
Fechei meus olhos
E murmurei
Então teu nome...
Teu nome... teu nome...

1996





VERSOS DE PURA AGONIA

Tanta morte, tanta doença, tanta tristeza,
Tanta miséria, tanto cinismo, tanta torpeza,
Tanta guerra, e violência, tanta maldade,
Tanto perigo, a injustiça, o revoltante
A cada dia bem mais presente,
Mais revoltante.
Se Deus não existe, ele precisa
Urgentemente
Ser fabricado.

1996

RECANTO SOMBRIO

Eu bem sei que estou atado ao meu recanto
Tão sombrio, umedecido, tão deserto,
E que Marina não virá me estender a mão de encanto
E de veludo, para conduzir-me ao paraíso
Que o sol acende, que o verde adorna
E que os riachos
Enchem de música.


O meu canto seguirá, teimoso e rouco,
Teimoso e mudo,
Sopro inaudível
Que tão somente
Se perderá
No vago nada.
O meu canto será sempre um sussurro vão
Que se desfaz no ar, sem que ninguém
Sequer um dia
Se aperceba
De que existiu.


O amanhã será exatamente igual ao hoje
E não verei a água converter-se em vinho,
E os meus olhos, cansados, baços,
Não mostrarão nenhuma ânsia;
Só se lerá
Nestes meus olhos
Alguma pressa
De a natureza
Me suprimir.

1997















A FADA ELIS


Elis era uma fada
Cuja voz miraculosa,
Cujo canto encantado
Extasiava as multidões.
Hoje eterna divindade
Em um mundo tão longínquo,
Já cumpriu missão divina
De deixar para este mundo
Sua voz perenizada,
De pra todo, todo o sempre
Inebriar os corações.,

1998































Eu bem sei que as altas castas
nos querem rezando,
nos querem na crença
de que o sofrimento
resignado
nos abre a porta
do Paraíso.


Eu bem sei que eles me querem
em frente à tevê,
engolindo de tudo
que ela me diga,
tal como avestruz
babona de parva.


Há muito percebo:
existe uma escória
que o povo cultua,
que pactua com o Demo
e, na hora da paga,
as almas que entrega
são nossas almas.


Eu bem sei que essa gente
nos quer sempre escravos,
nos quer bem famintos,
sem nada enxergar...


mas a minha voz não ecoa;
minhas mãos são muito frágeis,
minha fala nunca soa:
sou apenas um palhaço obscuro,
despercebido
na multidão.
1997

II

Por falar em Diabo,
fico às vezes pensando
que Deus foi vencido
ou então entregou
nas mãos do capeta
este mundo perverso.

CONFISSÃO DO REPULSIVO

Eu capitulei à pressão esmagadora do poder,
O meu medo foi maior que o ódio. Meu Deus!
Logo o meu ódio, que eu sempre amei,
Por que tanto zelei, que tanto preservei!


Eu beijei as mãos do poder,
Para não ser, é claro, por ele massacrado...
Mas eu beijei as mãos do poder!
Eu me ajoelhei diante do poder e lhe fiz reverências,
E o meu ódio era antes a única coisa que eu tinha.
Eu agora sou abjeto, vil, sujo e mesquinho.


Nada agora me ficou senão a inveja do heroísmo dos covardes,
Da grandeza dos traidores e da dignidade dos vermes.
Eu, que agora invejo a imponência dos bêbados desistentes da vida,
Que se sentam sozinhos no fundo dos bares
E se matam aos poucos de tanto beber.

1996
























MEUS ÍDOLOS


Não, os meus ídolos jamais foram deuses:
Nunca passaram de meros seres humanos
Com todas as fragilidades e seguranças,
Maldades, bondades, torpezas, nobrezas,
Tudo aquilo que é próprio dos homens.


Nunca foram nada, nada mais do que gente
E por terem, em sua arte, com muita arte,
Aludido às coisas de gente, manifestado coisas de gente,
Sempre foram em sua pequenez extremamente elevados.
E, ainda, porque sempre me fascinaram
Com sua obra divina, miraculosa e alta,
É que, reles, mostraram-se deuses mais deuses
Que a minha parca noção de deuses pode conceber.

1996































ÊXTASE


Os sinos repicaram, todos os sinos
De todas as igrejas, todas catedrais.
O dia cantou, encheu-se de cores,
Brilhou como um sol jamais vi brilhar.


As nuvens formaram figuras álacres,
No vento eu senti um odor de folia;
Meu peito vibrou, trepidou de euforia,
Explodiu o seu êxtase por todo o planeta.


Ela me ama... Que bom! Ela me ama!

1997

























EQUIPAMENTOS DE PENSAR


Não, não se dê trabalho;
Não, não se dê ao trabalho
De pensar:
Você já tem um cérebro eletrônico
Chamado televisão
Para fazê-lo por você.
Poupe massa cinza,
Deixe que a tevê trabalhe
Por sua cabeça.


O que você acha do mundo?
Não responda de pronto:
Pegue um jornal na banca,
E ele acha em seu lugar.


Em quem você deve votar?
Não gaste seus neurônios:
Ligue o rádio, ele decide
Que nome sufragar.


O que é o bem e o que é o mal?
Por favor, não queime a mufla:
Abra apenas a revista,
Que ela logo lhe dirá.


Veja, caro amigo,
Os tempos agora são bem outros,
Você não precisa mais pensar.
Por favor, não pense!

1997









COMEÇANDO E TERMINANDO PELO POETA VAGABUNDO (SATURE-SE DA FIGURA DO POETA VAGABUNDO E DA PRÓPRIA EXPRESSÃO EM SI, ALÉM DA FARTA REPETIÇÃO DAS IMAGENS E CENÁRIOS QUE O ENVOLVEM)


( O POETA VAGABUNDO)



O poeta vagabundo:
Vagabundo por repudiar trabalho
E também por ser um bardo dos chinfrins,
Já poeta porque inventa frases líricas,
Porque toca, sofre e canta ao violão.


Homenzinho insano, incomum, meio doido,
Já criou costume de parar no tempo
E também no espaço pra fitar estrelas,
Divagando tanto, ousando fantasias
Que não vi neste mundo um louco sonhar.


Comove-se co’a musa que adentra o bar,
Achega-se a ela e lhe diz galanteios
Com olhos luzentes e tão fascinados,
Que parece menino.


Quando solitário, acomoda-se à mesa
E consome-se em porre pela morena
Que o abandonou
E a linda mulata que o já encantou.


Esse vagabundo, na rua lotada,
É apenas um ser sozinho e errante
Que pára de repente e faz novamente
Que pare o tempo só pr’ele contemplar
O céu azulzinho do dia de sol.
Esse coisa-à-toa caminha perdido,
Soturno e sem rumo na rua deserta
Quando sua alma é sombria, escura, sem luz.


Despojado, informal, parece esses anjos
Desgarrados dos outros, que ficam bebendo
Nos bares alegres, em vez de ir pro Céu.
Incapaz de acatar, não sabe dar ordens.
Parece um cão solto deitado nas ruas:
Lírico e livre, o que mais ele lembra?
Talvez as cigarras, talvez borboleta...


II
( CIDADE SEM ALMA )


Que Rio emprestaria
Um poeta vagabundo,
Livre, avesso ao trabalho,
Pr’eu fazer uma canção?


Onde eu encontraria
Uma bela libertina
A aceitar propostas lúbricas,
A beber num botequim?


Onde o Rio acharia
Um malandro zombeteiro,
Imbatível na porrinha,
Dedilhando um violão?


Que birosca mostraria
Um amante abandonado,
Só, tristonho, embriagado,
A chorar de dor de amor?


Em que bar eu veria
Bebedores animados
A cantar Tom e Vinícius,
A falar de Bossa Nova?


Nos romances, devaneios,
Nas canções que ouço do rádio,
Nas imagens de outras décadas
Que eu vejo na tevê.


Rio insosso, tão sem graça,
Com seus bares burocráticos
De menu sofisticado
E ambiente de escritório.


Botequins sem alegria,
Onde fala-se de crimes,
De dinheiro, carestia,
Onde bebem-se queixumes.


Zona sul e centro belos,
Os mais belos dos infernos,
Com seu trânsito empacado
E as buzinas estridentes.


Violência organizada,
O subúrbio amarrotado
E essa ausência de alegria,
Essa ausência de tristeza.


Este Rio que não canta,
Que não ama, que não chora,
É assim como um autômato,
Desconhece a poesia.


II-II


O bar onde eu bebia estampava um imenso pôster do Rio antigo,
E isto me apertava o peito.
O Instituto Oswaldo Cruz contrasta com o panorama feio e desumano da Avenida Brasil,
E isto também me aperta o peito.
Os romances de Machado de Assis apertam meu peito
De saudades. Saudades! Que saudades!
Eu tenho saudades de um tempo que não vi nem vivi!
Eu tenho saudades de um Rio que não conheci!


III

Que poeta vagabundo
Ávido de vida
Chegaria à porta da bodega
Para olhar a lua cheia?


Que poeta encantado
Pararia no tempo e no espaço
Para ouvir canções amenas
E depois, tresloucado, versejar?


Que menina enamorada,
No silêncio de um quarto,
Revolveria as gavetas
Para ler cartas de amor?


Que velho passaria
As tardes mansas de outono
A balançar-se na cadeira,
Numa paz de dahlai lahma?


O poeta não existe,
Está preso, encerrado,
Fechado nestes versos,
Nesta minha fantasia.


A menina é muito prática:
Tem uns cinco namorados
Que não ama, e tem um verbo
Tão concreto, que eu me assusto.


E o velho na cadeira
Só sossega porque os ossos
Dóem quando em movimento:
Quieto, amarga a existência.


Nenhuma poesia no ar,
Nada de belo há no ar,
Todos parecem não ter sentimentos.
A vida é fria, mecânica,
E nós, seres robotizados,
Com projetos, mas sem sonhos,
Nascidos para, produzindo, cumprir nosso papel no contexto econômico
E depois morrer:
Nós somos assim como a máquina dos carros.



IV


As metrópoles não têm alma,
O mundo não tem alma:
O mundo é uma vastidão descomunal sem alma!


V


Eu sou apensas um insípido cidadãozinho que tem compromissos, chefe e cumpre ordens e
[ deveres;
Eu não sou mais que um burocratazinho com seu odor enjoativo de
[ carimbo.
Como eu desejaria, como eu amaria ser o poeta vagabundo!

1996

























Quando eu morrer, não quero deixar saudades,
Nem quero ser lembrado com amor ou doçura.
Quero apenas que não se esqueçam do meu desamor.
Quero apenas que não se esqueçam do meu mau-humor.