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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

SUZANA

Lembro Suzana,
Que tocava piano nas tardes
E tinha um olhar inocente
E tão cheio de ânsia e querer.

Tinha o sol morno,
Que transpunha as janelas de vidro,
Rebrilhava no piso da sala,
E Suzana, embevecida, tocava.

Tinha o namoro,
E Suzana abraçava seu moço
E falava de tantos anseios,
Misturando projeto e quimera.

Tinha a noitinha,
E Suzana se enchia de estrelas,
Invocava lirismos noturnos
E dormia na paz dos arcanjos.

Voaram os anos,
E Suzana ficou no passado,
É figura desbotada na mente,
Poesia perdida no tempo.

2011

POEMA SINGELO

Eu faço este poema tão singelo
Só prá alma se sentir tão sem pecado
Como riso de criança pequenina,
Como brisa batendo na roseira,
Borboleta voando no jardim.

Eu faço este poema puro e simples
Como nuvens brancas no céu claro
E a beleza da morena na varanda,
Como ave pulando galho em galho,
Como vaso de planta no quintal.

Eu faço este poema leve como névoa,
Alvo qual cantiga de ciranda,
Pra que o peito exale só brandura
E a alma se sinta como brisa
A correr suave como a paz.

2011

MULHER DOS OLHOS SONSOS

Vem, mulher dos olhos sonsos,
Tão bonita, mineira e tão menina,
Fala assim qual recitasse
Um poema de saudade
A lembrar Minas Gerais.

Vem, assim como quem sonha,
Me falar de rancho e serra,
Me contar de noites claras,
De luares e sobrados,
De fazendas e quintais.

Vem, mulher do rosto belo,
Tão delícia e tão viçosa,
Tão singela e tão princesa,
Vem, assim como um açude,
Me inundar desta paixão.


2011

VÃO COM DEUS

Podem ir,
Me banir,
Repelir,
Desprezar,
Me pisar
Sem pesar:
Não lamento:
Não frequento:
Não aguento:
Só me ausento.

Sou tinhoso,
Sou teimoso,
Não me curo,
Não procuro,
Não pondero,
Nunca quero:
É maçante:
Tô distante,
Fico longe
Feito monge
Eremita –
Deus permita.
Vão com Deus.
Vão, adeus!

2011

LUGAR DISTANTE

Estou cansado da infâmia das pessoas e do mundo ao meu redor:
Vou partir para um recanto remoto, bem distante,
Muito longe da balbúrdia, da ganância e hipocrisia,
Bem a salvo deste sol impiedoso dos infernos,
Sem alcance prá torpeza, a ganância, a iniquidade.

Vou regalar-me dos ventos mansos e frescores deleitantes,
Num lugar de matas verdes e de bosques majestosos,
De cachoeiras e regatos, águas brancas, rios límpidos,
Onde ouvirei as mais sublimes e elevadas melodias
E, mais que tudo, cante a paz numa constância absoluta.

Inspirarei os cheiros bons da atmosfera perfumada,
Farei amor, imune ao tempo e sua fria tirania,
Farei carinho no ventre dos cachorros e dos gatos,
Verei voar os passarinhos mais bonitos, comoventes,
Me esconderei num canto bom da minha mente tão imunda,
E as noites cantarão para mim com a doçura das amantes devotadas,
E os dias terão a pureza de crianças se aquecendo ao sol sereno,
E as nuvens pousarão e enfeitarão as serras imponentes,
E eu me verei tão despojado da maldade e tão liberto das intrigas,
Que, leve, flutuarei entre sublimidades encantadas,
Na inefável paz dos anjos e dos santos, paz do Éden, do Nirvana...

2011

QUEM DE MIM...?

Se eu fosse teu amante mais fogoso,
Namorado mais intenso, afetuoso,
O teu homem mais viril, impetuoso,
Teu mulato espadaúdo, musculoso,
Teu herói destemido, valoroso...?

Se eu fosse teu poeta vagabundo,
Teu cantor de sentimento mais profundo,
Teu guerreiro tão audaz, tão iracundo,
Teu guru a te ensinar coisas do mundo,
Teu mentor de terras longes oriundo...?

Se eu fosse um milagroso feiticeiro,
O teu caso mais bonito e mais faceiro,
Mulherengo atrevido e aventureiro,
Teu galante e delicado seresteiro,
Teu entregue apaixonado violeiro...?

Quem de todos enfim preferirias,
Quem de mim, mulher, escolherias,
Para seres minha e só minha tão somente,
Pra me amares então dementemente?

2011

DOS DEUSES E DOS HOMENS

Se eu fosse Deus, ignoraria a humanidade...
Mas na verdade acho que Deus já nos ignorou
Ou então não mandaria larvas de vulcões e maremotos,
Tempestades devastadoras e ciclones enlouquecidos e implacáveis.

Não mandaria doenças e epidemias assoladoras,
Não mandaria a própria humanidade,
Experimento malsucedido, que é, além de sórdida,
Tão perniciosa e tenebrosa como qualquer moléstia ou
[catástrofe natural.


II

Eu não tenho fé.
Eu duvido da existência dos espíritos e deuses ou que nome possam ter.
Eu não creio num deus único, onipotente, onipresente, onisciente...
Não sei se há algo além do que captam os cinco sentidos
E, se algo há, não tenho a menor idéia do que possa porventura ser.
Porém, o que é certo, decidido e o que é peremptório
É que não creio nos homens em definitivo...
Não creio nos homens em definitivo.

2011

AS MÃOS DE DEUS

O meu canto se faz macio e leve e te acompanha
Como o vento que balança os teus cabelos longos
E o vestido fino que te veste a pele apessegada.

Eu te adivinho as emoções e os desejos mais ocultos,
Tão teu e tão dentro de ti me pressuponho,
Tão parte de ti, perplexo, me vejo.

Se há Deus, que Ele te siga com as mãos repletas de carinho,
Se não há, que te acompanhe a poesia
Como as mãos de Deus suavemente a te afagar.

2011

OUTRA QUASE CANTIGA DE RODA

Se eu fosse o trovador
Das noites estreladas,
Enfeitava o meu caminho
De poemas e de prata.

Se eu fosse o sementeiro
Do amor mais infinito,
Eu plantava a minha estrada
Do feitiço da emoção.

Se eu fosse o mensageiro
Dos deuses do lirismo,
Eu enchia o universo
Dos seus versos mais bonitos.

Se eu fosse um ser errante
Caminhando sob a lua,
Eu da lua então fazia
Um lençol de me aninhar.

Se eu fosse enfeitiçado
Dos olhos da morena,
Eu fazia da morena
Paixão de me entregar.

2011

UM SEU MOMENTO

Venha, moça, à minha casa,
E eu lhe conto histórias belas
De namoros e paixões.

Venha, moça, à minha noite,
E eu venero as suas formas
Em mil gestos sensuais.

Venha, moça, ao meu recôndito,
E eu escrevo versos brancos
A louvar sua presença.

Venha, moça, até meu quarto,
E eu afago os seus cabelos
E lhe beijo os lábios rubros.

Venha, moça, à minha casa,
E a protejo em meu abraço,
Dou-lhe a paz que existe em mim.

Venha dar-me um seu momento
E eu desejo que o momento
Não termine nunca mais.

2011

PEQUENA CIDADE DE MINAS

PEQUENA CIDADE DE MINAS

A terra
fresca
e o seu cheiro bom de vida.
Suor
dos homens
e os anseios das mulheres.

As mãos
de fêmea
salpicando a terra escura
de amor,
sementes
e de sonhos de futuro.

Os homens,
gozo
e a vida se plantando
em noites
calmas,
nas entranhas das mulheres.

Manhã,
os sinos,
os fiéis e a ladainha.

O sol,
a praça,
as crianças, brincadeiras.

A gente,
as vozes,
multidão que acende o dia.

Mocinhas
belas
e seus sonhos tão românticos.

Ah, Deus!
Mas como é belo o dia!
Como é bela a rua, a gente
e esse verde exuberante
e tão vivo desses campos!
Como tudo é, Deus, tão belo!
Salve, Deus, Minas Gerais!

2011

II

(APOCALIPSE DE MINAS)

Fiz um poema
com suor, com terra e Minas,
com igreja, praça e e povo,
mas os demônios
devastaram chãos e gentes,
destruíram mata e bichos,
e viu-se Minas
convertida em pura lama,
soterrada em venenosos minerais.

Sei que os maus homens
Que contemplam sempre os ricos
lhes serão muito indulgentes,
mas não, meu Deus,
perdoeis jamais os torpes
nem tenhais misericórdia,
pois os infames
laceraram meu poema,
e um inferno nasceu, descomunal.

2016

NÃO DESISTA, NÃO, AINDA

Não desista, não, ainda,
Se a rolinha que se aninha
Entre os ramos da mangueira
Quebra o tédio do seu dia.

Não desista, não, ainda,
Se esse céu azul e branco
Faz nascer um sentimento
Parecido co’a esperança.

Não desista, não, ainda,
Se Paloma, tão bonita,
Acenou lá da janela,
Num sorriso luminoso.

Não desista, não, ainda,
Se é bonita a Rio Branco,
Ipanema, tão alegre,
Que nos faz amar a vida.

Não desista, não, ainda,
Se há estradas e caminhos,
Belas serras, lugarejos,
Pro prazer de viajar.

Não desista, não, ainda,
Se seus dias, vez por outra,
Vêm trazer certa alegria,
Não parecem tão iguais.

2011

QUE DIZERMOS DA VIDA?

Um pardal bebia água numa poça
E voou em fuga assim que me avistou:
Optou pela sede por me ver como ameaça.
Na natureza criaturas matam outras criaturas
Por fome ou território, por querer sobreviver...
Os homens, assassinos por instinto,
Precisam se proteger dos homens todo o tempo.

Todo ser precisa estar em alerta permanente,
Quer contra outros seres, acidentes ou turbulências naturais.
Há seres que sofrem física ou moralmente
Durante a maior parte da própria existência.
Seria então a morte a única paz possível?
Seria a vida então o próprio inferno?
Seria a existência, assim, ao invés de dádiva, o castigo mais cruel?

II

Uma suposta vida imaterial também teria percalços e martírios:
Então a paz, a tão almejada paz,
Só em não existir nós a encontraríamos?

2011

HUMANIDADE DESOLADORA

Soltar a voz, bradando num clamor insano
Por justiça, retidão, por paz e compaixão.
Prantear cada vida perdida neste mundo,
Por mais vis que pareçam  muitas delas,
Mais insignificantes pareçam certos seres.
Suplicar pela vida do ser mais modesto, pequenino.

Mas de que vale gritar a ouvidos moucos?
O que se pode contra mentes pétreas
Embotadas por antepassados trevosos e cruéis?

Como tolher a vocação despótica dos homens,
Sua frieza, sordidez, iniquidade natural?
Seria como tentar amoldar pedras tão-somente com as mãos,
Como querer conter incêndios com sopros impotentes.


A humanidade me desola profundamente.


II


Não, de nada adiantará ficares remoendo
A tua revolta pela ganância, prostituição e sordidez das pessoas:
Nenhum deus ou grupo de deuses ou o que quer que se imagine
Virá para julgar-lhes e impor-lhes castigo
Ou mesmo exigir-lhes qualquer tipo de reparação.

Esquece-as, não as ame, mas não as odeie,
Porque odiá-las irá apenas destruir as tuas vísceras
E tornar pobre e miserável a tua saúde.

Não te revoltes, apenas ignora-as e dá o teu amor
Aos poucos que tu achares merecedores,
E a maldade humana assim bem menos te atingirá.

2011

MEU LUGAR

Meu país é algum lugar
Onde vente brisa fresca,
Onde more a natureza,
Onde o pio da coruja
Seja belo de se ouvir.


Minha cidade é uma casa
Onde florem pés de frutas,
Onde trinem passarinhos,
Onde o tempo seja lento
E pareça não passar.

Minha casa é algum momento
Em que brotem pensamentos,
D’onde jorrem sentimentos
Mais intensos e diversos,
Onde o mundo fique longe,
Mas tão longe de eu não ver.

2011

SERÁ MESMO?

Será mesmo teu cabelo tão dourado?
Será mesmo tua pele tão morena?
Serão mesmo os teus olhos suplicantes?
Será mesmo o teu anel de diamante?

Será mesmo que não dormes se não chego?
Será mesmo teu sorriso sem maldade?
Será mesmo o teu fogo tão aceso?
Serão mesmo os teus braços aconchego?

Serão mesmo os teus brios como pedra?
Será mesmo o teu ar apaixonado?
Será mesmo tua tarde poesia?
Será mesmo teu discurso verdadeiro?
Será mesmo que a mim amas de verdade?
Será mesmo que és a vida entre mil danças?
Será mesmo que és enfim felicidade?


2011

NÃO MAIS TE AMO

Não, não mais te amo
E jamais eu te amei.
Amei, sim, alguém que forjaste,
Alguém que inventaste
E que me cativou.

E me esqueça as lisonjas:
Retiro as palavras
Ditas em falso:
Não foste jamais,
Também te inventava,
Também te fraudei.

Se um dia nos virmos,
Acena somente
Ou fala bem breve,
Ou vira teu rosto:
A mim não importa.


Mas como encontrar-te,
Se tu não existes,
Jamais exististe
Só foste uma fraude
E não me deixaste
Na alma lembrança,
Fragmento de ti?

2011

A DESAMADA

Meu rapaz é tão menino,
E eu passei da flor da idade;
Me rendi aos seus encantos,
Ele, ao saldo no meu banco.

Sou às vezes tão materna,
Ele, tão, mas tão meu filho,
Que me pede um dinheirão.

Eu lhe faço juras líricas,
Ele fala em casamento,
Em seguro, garantias,
Com seus pés firmes no chão.

Eu lhe conto histórias lindas,
Ele conta os meus ativos.
Eu planejo mil viagens,
Ele, mil investimentos.

Eu me pego tão criança
Em sonhar coisas românticas,
Eu o encontro tão adulto,
A falar em patrimônio.

Eu me nutro dos seus beijos,
Sou faminta do seu corpo,
Ele come a minha renda,
Tão voraz como um leão.

Eu me afundo em minhas dívidas,
A querê-lo eternamente,
Ele fica em suas dúvidas
De devermos prosseguir.

2011

PLENO PECADO

Pecar ardentemente na desordem doce
De lençóis e travesseiros, deleitar-se
Dos odores excitantes de perfume,
De saliva, de epiderme e genitália...


Percorrer o corpo querido e agitado
Co’as mãos irrequietas, sem limite,
E a boca sequiosa e enlouquecida...


Fremir num êxtase, delírio ou algo
Que a língua humana nunca encontre
Palavra adequada pra expressar...


É viver os deleites mais inebriantes
Do universo e levitar num céu sem fim
De campos e águas frescas colossais...


Delirar de uma maneira milagrosa,
Encantada, transcendente e tão sem nome,
Que é como tornar-se um ser tão diferente:
Anjo, deus, titã, também alguma coisa
Que a mente dos homens não consiga precisar.


2011

A MULHER DO GOMES

A mulher do Gomes é uma simpatia:
Quando vê passando um rapaz vistoso,
Logo morde os lábios, se enche de alegria,
Lhe sorri de um modo muito afetuoso.

A mulher do Gomes é de grande apreço:
Os rapazes dizem que é tão sociável,
Que conhece algum, pega o endereço
E o visita e aperta – que mulher amável!

A mulher do Gomes é tão distraída,
Que, ao sair com este, perde-se na rua,
Quando se dá conta, desperta exaurida
Num quarto de estranho, de ressaca e nua.

A mulher do Gomes é tão bem-querida
É por todos homens sempre elogiada,
E o marido a olha sempre enternecido,
E agradece aos anjos ter aquela fada.

                  II

(A DEFESA DA MULHER DO GOMES)


Mas com que motivo essa gente infame
Vive insinuando que sou leviana,
Se em meu altruísmo, só há quem me ame,
Se sou caridosa, de amizade insana?

Só porque o carteiro, um rapaz garboso,
Se queixou do sol terrivelmente quente,
E eu, de um modo materno e afetuoso,
Me banhei com ele muito humildemente.

Só porque um rapaz, muito gentilmente,
Num final de tarde, num metrô lotado,
Para proteger-me, pôs-me à sua frente
E muito gememos, ternos e agarrados.

Só porque o vizinho é muito educado
E me diz no ouvido verso arrepiante
Enquanto me abraça bastante apertado,
Ficam os canalhas nos dizendo amantes.

Só porque meu primo, homem de coragem,
Me conta seus feitos e brigas e glórias,
Eu eu lhe beijo o púbis de três tatuagens
Já ficam dizendo que temos história.

Não sabe essa escória de língua ferina
Que eu sou tão carinho, tão afeto e paz,
Que vejo os humanos súplices, meninos,
Que a bondade minha é grande demais.

2011

MARCO E JÚLIA (OU O VENTO DO TEMPO)

Marco Léo era paixão repleta de alegria:
Vivia uma euforia tão prenhe de luxúria,
Como se a razão da vida fosse Márcia Júlia
E suas ousadas transparências.

Vivia uma avidez tão tórrida e vibrante,
Como se sob a saia daquela deusa erótica
Fosse o próprio paraíso,
Os sublimes jardins do Éden.

Era um louco afã, entrega, só delírio,
Como se entre as pernas de sua Márcia Júlia
Fosse tudo simplesmente.

Quando os olhos dele pousavam nos da moça,
Se sentia assim como um filhote sem defesa,
Incapaz de sobrevida sem o peito, o colo
E aconchego maternal.

Mas um dia a moça viu que o mundo
Era imenso, era tão vário e cheio de surpresas,
Que ela precisava no mundo se atirar.
Ficou Marco sozinho, sem saber-lhe o paradeiro,
E, enlouquecido, murumurou por longos meses
O seu nome em noites brancas, tão insones...

Desolado, chorou como quem perde os braços,
Bebeu como o mais desgraçados dentre os homens,
Como se  tudo para ele houvera se acabado.

Mas veio o tempo trazendo então consigo
O seu vento veloz e de tudo tão pejado
E o poder de enterrar e mudar tida paisage.
E aí Marco Léo foi pouco a pouco levantando
Do caos e dos cascalhos da apatia e tanta dor.
De repente viu-se alvorecendo novamente,
E o dia que nele raiou era de samba tão repleto,
Era cheio de brilho e de cores tão aceso,
Graças ao tempo, que tudo cura, tudo apaga, tudo muda,
Pode tanto com seu vento milagroso, sua força sem igual

2010
Revisto e modificado em 2017