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domingo, 1 de dezembro de 2013

REBENTO AO PEITO

Se você me olhar qual moça enamorada,
com ar de quem suplica e ainda sonha,
serei suave assim como silente noite
somente maculada por acordes leves
que venham do longe pra nos comover.

Serei seu poema de amor infinito,
serei seu abrigo, aconchego e calor,
serei sua lira, dançarino e cantor,
brinquedo, ciranda, seu frevo e folia,
menino, seu pai, seu irmão, seu ardor.

Eterno até quando permita este mundo,
mas seu como os dedos e as palmas das mãos,
entregue aos seus olhos, seu corpo e su'alma,
serei seu pedaço, seremos um só,
serei qual rebento ao peito da mãe.

ESCURIDÃO

Minha tristeza roubou a claridade,
e o dia então não pôde se acender.
É tão escura a noite deserta e fria...
Mas é tão triste o samba e a rua, as horas...
Ouço os cães uivando, lamentosos:
em tudo há pranto, silêncio e lástima.
Eu morro assim, de um modo sereno e triste:
não agonizo, não me contorço, tampouco grito.
Morro mansamente qual lentamente me dissolvesse:
minha'alma não tem lugar para infernos, céus:
apenas se dilui devagar na tristeza escura
e se perde no nada a que bem a tristeza nos sabe levar.


POEMA DA MINHA AGONIA

Ai, meu canto vem de uma agonia
que rasga a carne como lâmina afiada.
Ai, a dor é lancinante da ferida
das brenhas d'alma e transparece nos meus olhos,
no retrato, nos espelhos, nos meus versos.
Mas como sangro! É uma sangria que não finda.
Mas como é negra essa tarde ensolarada!
Esse horizonte não é mais que um precipício.
Desejo a morte, que não quero e me apavora.
Não creio em sorte, Deus, reviravolta.
Ah, o canto triste vem da chaga do meu peito,
e os membros, lassos, nem sequer mais se debatem,
e eu baixo os olhos e pranteio certos dias:
minha tristeza, sei, bem sei, vai me matar.

sábado, 26 de outubro de 2013


CASTELO DO PARQUE LAGE, NO JARDIM BOTÂNICO, RIO DE JANEIRO-RJ - VISÃO DE UMA DAS LATERAIS

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

SE VIER A ESCURIDÃO

Se os meus dias forem puras sombras e agonias,
Se a tristeza me doer como ferida latejante...
Se os caminhos se estreitarem, não puder eu percorrê-los,
Se as barreiras se fizerem impossíveis de transpor...
Se o inferno em minha mente não deixar lugar à paz...

Inda assim não me porei de joelhos ante altares,
Não porei no rosto tenso um postiço ar de alegria
Nem aos céus irei rogar as ajudas que se pedem.
Não verei nas cartas, búzios o caminho a se adotar
Nem cairei em louvações a um pai sisudo e mudo...

Mas terei nos próprios braços toda a força que procure,
Buscarei na minha mente os milagres que persiga
Com meus pés pisando  o chão, sem querer uma ilusão.

SE HOUVER INSÔNIA

Se eu acordar bem antes d'hora desejada
E achar que a vida inteira foi em vão...
Se ainda às quatro me invadir uma agonia
Que aperte o peito como o fosse esmigalhar...
Se o alvorecer mais parecer noite profunda,
Mas profunda de eu sentir um medo singular...
Se o arrependimento me bater como tabefes
E o desejo que me venha seja a morte, a morte unicamente...
Buscarei sofregamente uma mentira motivante,
Um devaneio inda perdido em minha infância?.
Quem sabe eu me darei a alguma luta sem sentido
Ou me atire como um louco se batendo contra Roma?
Empunharei as bandeiras mais chinfrins, irrelevantes?
Jogarei meus sonhos numa fêmea descabida?
Aguardarei com ânsia meu suspiro derradeiro,
Num querer tão sem medidas, que o meu medo se suprima
E  me alegre este momento como amor correspondido?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

EM PROL DOS QUE NÃO FALAM

Todos os animais são simples e puros como sorriso de criança, poesia singela e cantiga de roda.  São belos como afagos de casais enamorados ao luar. Por tudo isto, ame-os.  Se não conseguir, respeite-os.


sábado, 31 de agosto de 2013

LUCIANA

Deitaram-se na cama e Luciana lhe ofereceu os lábios ávidos.  Vestido curto, leve, solto, quase transparente,  preto com estampa de pontos brancos.  Guilherme ergueu o corpo da mulher e a sentou no colo, como fora ela um achado raro e precioso, um diamante, uma esmeralda, o bem maior do mundo inteiro.
Sabia que a moça era de se dar com facilidade, que tinha vários amantes e que jamais lhe entregaria a alma tão liberta e aventureira.  Sabia também que a não queria para si, pra todo o sempre ou alguns anos. Mas naquele momento a amava como o mais extremoso enamorado, como o mais possessivo dos machos existentes.  Porque a desejava... como a desejava! Ah, como a desejava!  Queria tanto desfrutar aquele corpo esguio e pálido, as pernas magras e roliças que há  tanto cobiçava, sentia tanto prazer em tê-la na cama, que o ardor parecia amor, entrega, sentimento fundo, suplicante e desvanecido.
No dia seguinte talvez Luciana fosse de outro, mas isto não importava ao homem, que era tão ávido e sôfrego,  que achava que o tempo não passaria, que aquele momento se eternizaria; que não tinha ciúmes, mas só desejo: um desejo de longo tempo, um desejo que não tinha medidas, um fogo que lhe abrasava o corpo inteirinho.
Levantou-lhe o vestido, deitou-a na cama, arrebatou-lhe a calcinha de renda e por pouco não lhe rasgou o escuro vestido.  Beijou-lhe a boca longamente inúmeras vezes,  sugou-lhe os seios, a língua, os lábios, a vulva e as nádegas, cheirou a mulher por inteiro: cada  milímetro do corpo e cada cavidade, e toda cavidade do corpo de fêmea, candente, adentrou.
Amanhã quem sabe outro a ela faria tudo o que ele agora fazia, mas pouco a Guilherme importava: hoje a mulher era dele; dele somente, e era na essência a mais pura magia: ninfa, deusa, valquíria, sereia, feminino demônio ou outra entidade, mas algo que em definitivo ao homem enlouquecia.
O  casal gemia, arfava, gozava, fremia, e tê-la consigo num ballet tão frenético,  entre frases tão quentes, obscenas palavras, lascivas carícias, era para Guilherme a conquista maior, a chegada ao paraíso, e este sequer se lembrava de algo que houvesse além do desejo, delírio, deleite, prazer inefável, esquecido mundo, da vida, do ontem, do dia vindouro, que havia amanhã.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

POEMA DE AMOR E MALDIÇÃO

Amar a Terra qual recém-nascido em seu apego à mãe que dá-lhe o peito, num afã e unicidade só encontrada nos amores mais extremos.   Dar aos animais, reconhecidos como irmãos por São Francisco, o amor por eles merecido.  Olhar as matas co'a ternura das mães enternecidas.  Entender que, como nossos filhos pequeninos, os filhotes têm o mais do que sagrado direito aos cuidados das mães tão extremosas. Respeitar as águas como a divindades poderosas, em genuínas atitudes de respeito e reverência... Deixar vivas as serpentes, que só lutam pela vida, nada mais.
Dar ternura e dar cuidados aos cachorros sem abrigo, aos bichanos graciosos, não causar a dor aos pombos.
Ah(!), espíritos das matas e das águas,  protetores dos bichinhos...!   Dai aos que molestam criaturas inocentes os infernos lancinantes.   Lançai sobre os demônios sofrimentos infinitos e a ausência do perdão. Jogai sobre esses torpes vossa fúria mais ardente e vos despi de compaixão... para que todos compreendam o tamanho do pecado de ofender o irmão ingênuo e puro, que nem  sabe suplicar. 

2013 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

MÚSICAS DE MARCELO BIZAR EM ALGUNS DE MEUS POEMAS


https://soundcloud.com/bar-o-da-mata/meu-santo-ant-nio

https://soundcloud.com/bar-o-da-mata/lirismo

https://soundcloud.com/bar-o-da-mata/mineirinha

https://soundcloud.com/bar-o-da-mata/vem-viver


Aqui você ouve '"MEU SANTO ANTÔNIO" ''LIRISMO", "MINEIRINHA" e "VEM VIVER", músicas nascidas de minha parceria com MARCELO BIZAR, compositor, cantor, instrumentista, escritor, meu colega de trabalho e amigo pessoal, que compõe com maestria e canta exibindo grande talento e primorosa interpretação. Peço que cliquem nos links (sem risco, não há vírus) e ouçam as canções, que ficaram magníficas.

Barão da Mata


Sobre MARCELO BIZAR


http://www.youtube.com/watch?v=0TF837hMbR0


http://www.youtube.com/results?search_query=Marcelo+Bizar&oq=Marcelo+Bizar&gs_l=youtube.12...0.0.0.36450.0.0.0.0.0.0.0.0..0.0...0.0...1ac..11.youtube.

domingo, 4 de agosto de 2013

O HOMEM E A CADELINHA DOENTE

O homem vinha dirigindo seu carro na rua Humaitá.  Uma cadela pequenina e doente, trôpega, estava  na pista, distraída.  Um tanto incauto, buzinou, para que o animal saísse da pista, e o resultado foi satisafatório: a cachorrinha, sarnenta e maltrapilha, subiu a calçada, e o motorista seguiu seu rumo.  Já bem adiante, algo bateu-lhe na mente, e ele refletiu por momentos, mudou o itinerário, tomu o caminho de retorno. Conseguiu reencontrar a cadelinha. Parou o carro, desceu, chamou-a, esta veio, e o homem a tomou no colo, doente, sarnenta, sofrida, depauperada.   Levou-a a um veterinário: a bichinha teve a sarna confirmada e tinha avançada e grave pneumonia,  e o seu novo amigo a levou consigo, decidido a lhe salvar a vida e proporcionar-lhe uma existência digna e sem os cruéis percalços das ruas.
E o mundo devia, desde o momento do resgate, ter parado para observar-lhe cada gesto e com ele obter senso de bondade e quem sabe aprender e copiá-lo.  O mundo devia ter parado para vê-lo naqueles momentos recolher o anjo, despojar-se de todo pecado e em anjo também  converter-se.   
A história é real.. Que a cachorrinha se salve, e os dois novos amigos sejam felizespara sempre.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

DUETO DOS DESAMADOS

ELA:

Meu rapaz é tão menino,
E eu passei da flor da idade;
Me rendi aos seus encantos,
Ele, ao saldo no meu banco.

Sou às vezes tão materna,
Ele, tão, mas tão meu filho,
Que me pede um dinheirão.
Eu lhe faço juras líricas, 
Ele fala em casamento,
Em seguro, garantias,
Com seus pés firmes no chão.

Eu lhe conto histórias lindas,
Ele conta os meus ativos.
Eu planejo mil viagens,
Ele, mil investimentos.

Eu me pego tão criança
Em sonhar coisas românticas,
Eu o encontro tão adulto, 
A falar em patrimônio.

Eu me nutro dos seus beijos,
Sou faminta do seu corpo,
Ele come a minha renda,
Tão voraz como um leão.

Eu me afundo em minhas dívidas,
A querê-lo eternamente,
Ele fica em suas dúvidas
De devermos prosseguir.

ELE:

Minha moça é tão bonita,
Tem a pele de veludo,
Somos unos, mas tão unos,
Que ela porta meus cartões.

Sou seu pai, mas tão seu pai,
Que ela vai até meus bolsos,
Retirando minhas notas,
Sai, me diz que volta logo
E só vem de manhã cedo,
Esgotada, embriagada,
Com aromas masculinos.

Eu lhe falo em vida eterna,
Ela lembra que é preciso
Que eu invista num jazigo
E lhe compre um bem imóvel.

Eu divago, meio tolo
Me sentindo principesco,
E ela diz que é necessário
Garantir o seu futuro.

Eu a faço inda mais bela,
Com vestidos, com ornatos
Que hoje fazem que me cheguem
Muitas cartas de cobrança.

Eu lhe conto meu desejo
De jamais nos separarmos,
Ela conta que no mundo
Nada pode ser eterno.

2013







sexta-feira, 26 de abril de 2013

MOMENTO SUBLIME

Encontro a Madona deitada no chão.  Agacho-me e começo a lhe acarinhar a barriga peluda.  A cadela põe as quatro patinhas pro ar e se delicia, e eu fico a passar suavemente as mãos em seu ventre.  E o momento é tão sublime, que só uma alminha de cachorro pode entender.

2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O MILAGRE DOS MÚSICOS

Era a rua do Lavradio.
Era noite e, de repente, nas sacadas os músicos surgiram
E se deram a espalhar no ar os sons mais belos, melodias mais esplêndidas,
E a atmosfera se encheu de uma coisa milagrosa que não se descreve com palavras,
E brilhou nos olhos das pessoas o alumbramento de quem sente o amor nascer.

2013

sexta-feira, 15 de março de 2013

O BESOURO


Se você chamar de meu amor algum besouro
E o disser co'o sentimento mais verdadeiro do seu peito,
Se encontrará tão cônscio do valor de nós, todos os seres,
Se encontrará tão chão, mas chão tão elevadamente
Como desejariam os homens de real e plena santidade.

2013

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A MORTE DO ANJO

A saudade me corrói por dentro como um ácido
E me dói como lança furando a carne lentamente:
Vi morrer Snoopy, meu cachorro, que era um anjo
Com toda a pureza e sublimidade de um anjo verdadeiro.
E minha dor é inda mais cruel porque não creio
Que ele esteja n'algum mundo angelical ou diferente.

2013

VIVÊNCIAS

Com mais de cinquenta de idade,
Vivi poemas tão belos,
Trilhei caminhos confusos,
Vivi tempestades intensas,
Senti emoções tão malditas.

Em minhas andanças na vida,
Senti tantos gostos dos dias:
Provei das dores mais fundas,
Lambi de alegrias festivas,
Morri, renasci tantas vezes.

Nos mais de cinquenta no mundo,
Fitei longamente as pessoas:
Me fiz tão  pobre de crenças.
Enchi-me de amor pelos bichos,
Me aflige o destino das matas.

Com tantos anos vividos,
Roído da ausência dos mortos,
Procuro por tantas respostas,
Ainda me vejo ignaro
Qual era nos tempos de infância.

2013

EM QUE ESPELHO?

Ninguém conhece, minh'alma, tuas faces, teus detalhes,
Ninguém sabe, minha alma, como és precisamente.
Nem a mim é dado  conhecer-te inteiramente.
Sendo asssim, dize então por fim  em qual espelho
Posso ver a mim com perfeita nitidez.

2012

QUIETA, ALMA!

Sossega, alma que incendeia tanto,
Que deseja,anseia e que tanto palpita,
Como fora um trovador enlouquecido,
Como um guerreiro totalmente enfurecido.
Quieta, alma que não tem limites!
Que se quer soltar pelo universo
E que almeja arder em tanto, tanto leito,
Se aprazer da embriaguez de Dionísio,
Copular com deusas, ninfas e valquírias,
Singrar os sete mares deste mundo,
Dançar um samba em frenesi mirabolante,
Viver a vida, a morte e mil prazeres
E se deixar embevecer das noites de luar.
Deita, alma, e te aquieta no teu leito,
Repousa e te contenta do que é doce
E é suave, não do vinho,
Que inebria e que te assanha em demasia
E faz que tu te firas tão profundo
E que percas tua paz tão preciosa.

2012

O CASAL


Aquele homem
Com olhos noturnos e opacos
E aqueles olhos
Tão cheios de aurora da moça
Que tinham a ver entre si?

Aquele rosto
Coberto de sombras do homem
E aquelas faces
Rosadas de vida da bela
Por que estavam diabos unidos?

A noite muda
E negra em garoa de inverno
E a primavera
Ornada de flores e sol
Que tinham, meu Deus, em comum?
A vida e a morte abraçadas,
A água e o fogo casados
Como podia? - me diga, meu Deus!

2013

AMOR MENDIGO

Ainda amo Janice,
Embora a danada me seja
Motivo de tanto chorar.

Ainda amo Janice,
Embora me tenha traído
Com todo o bairro onde moro.

Ainda amo Janice,
Embora ela me destroce
O coração por inteiro.

Ainda amo Janice,
embora eu tenha amargado
Seis meses de cela por ela.

Ainda amo Janice,
Embora se ria sempre
Que alguém lhe fala meu nome.

Ainda amo Janice,
Embora me tenha apontado
A porta da rua entre risos.

Ainda amo Janice,
Embora me tenha secado
Os bolsos pra todo o sempre.

Ainda amo Janice,
Embora me tenha o desprezo
Que só pelos vermes se tem.

Ainda amo Janice,
Embora esvazie por ela
Dois litros de cana por dia.

Ainda amo Janice
Com seu rosto inchado de álcool
E suas pernas arcadas.

Ainda amo Janice
E sonho co'a morte pra tê-la
Na outra vida após esta.

2013




BELA

Debalde
Tento às vezes desenhar-te em poemas
De seda
Que me nascem do peito tão cálido,
Que brilham
Nos meus olhos alumbrados e ternos,
Tão plena
É minh'alma de emoções que palpitam,
Tão bela
Te vejo e bem és na verdade
Desnuda,
Estendida sobre a cama de ardores,
A sede
Estampada no rosto bonito
Qual versos
Mais lindos já vistos no mundo,
Gazela
Selvagem em busca do amor.

2013

SONHO DE ASAS E DE AMOR

Não quero ser senhor, gerente ou líder,
Presidente, prefeito nem chefinho:
Só desejo ser livre e libertino,
Contador de piadas dos botecos,
Morador de um singelo povoado,
Sonhador de uma praça pequenina.

Só desejo ser guru dos tresloucados,
Anarquista dialético das noites,
O romântico avesso aos bons  costumes,
O eterno contrário ao vil sistema.

Um sarcástico, eterno iconoclasta,
Um sereno fazedor de poemetos,
Pontual contemplador da natureza,
Fervoroso defensor dos animais;

Caloroso devasso das noitadas,
Namorado das mocinhas mais tesudas,
Apolítico deitado sob arbustos
De um quintal tenro e fresco em Lumiar.

Ao morrer, conviver com os meus mortos
E os bichinhos finados que eu amei.
E ficar eternamente ouvindo música,
E a viver grandes amores no outro mundo.

Levitar entre hienas, tigres e cachorros,
Na doçura, numa paz de quem é anjo,
No deleite de quem faz só copular.

2013


POETAR NATURALMENTE

Fazer versos como quem deixa o arranjo adentrar a alma leve
E solta a voz a cantar naturalmente,
Como quem deixa arrebatar o corpo a melodia
E solta o corpo a dançar tão simplesmente:
É assim, com natural simplicidade e envolvimento,
Que eu desejo sempre poetar.

2013

A PRETENDIDA

Eu te quero cantiga da noite,
Mas da noite de entrega e alegria,
Exalando perfumes de fêmea
No ballet tresloucado do amor.

Eu te quero euforia dos dias
Como o vinho, que alegra, inebria,
Eu te quero suave doçura
Como a aragem das tardes de outono.

Teu sorriso é traquina e tão vivo,
É tão fresco e tão cheio de luz.
Tuas pernas morenas me atiçam,
Tua boca rosada é um ímã
Que a mim arrebata e seduz..

2013

DESEJO II

Não quero beber da cerveja,
Só quero beber dessa orgia,
Não quero sorver o conhaque,
Só quero beijar a morena
Com olhos de poesia.

Não quero uma dose de vodca:
Apenas roçar minha pele
Na loura tão arredia.
Não quero provar do vinho,
Desejo lamber a negra
Que dança e há pouco sorria.

Não quero me embriagar
Senão dos sabores lascivos
Da noite de tanta alegria.

2013

CANÇÃO AFRICANA

Era lindo
O canto dos homens retintos,
As vozes dos negros em coro,
O coro de tanta harmonia
E as ondas quebrando no mar.

Rebrilhava
A lua amarela nas águas,
A luz do farol sobre a areia.
O céu com o mar se encontrava
Formando um escuro horizonte.

E na música
Se ouviam as vozes da África,
Chegava a lembrança do escravo,
A história pejada de agruras,
Os povos sofridos de agora.
Mas, tão bela,
Trazia a canção tanto mito,
As selvas, as tribos, os deuses,
Viagem tão longa no tempo,
Tão rica e tão vária amplidão.

2012


A QUE SONHAVA

Sonhava,
Insana,
Tantos sonhos descabidos
E varava madrugadas
Tão distante deste mundo
E contava então estrelas.

Bebia
À noite
E se dava aos seus amores,
Venerava seus amantes
Em ternuras obscenas,
Numa chama sem igual.

Plantava
Sonhos
Onde quer que conversasse.
Tinha um verbo tão sem mágoa,
Tão ornado de utopia,
Que encantava seus ouvintes.

Casou-se
Um dia
E se viu parindo filhos,
Viu morrer seus devaneios.
E, então crua e um tanto triste,
Se mostrou de pés no chão.

2013

OSVALDO

Se não fosse o bar,
A mesa, essa mulher e a noite fria,
Que seria, Osvaldo, conta, do teu dia?

Se não fosse a noite,
O bar, essa mulher e a mesa fria,
Quanta tristeza, Osvaldo, tu ruminarias?

Se não fosse a mesa,
O bar, a noite e a mulher fria,
Quanto desejo de morrer tu sentirias?

Se não  fosse o porre,
O fumo, o som e tanta orgia,
A tua alma qual bem é tu bem verias.

Se não fosse a dança,
Essa lascívia e as moças libertinas,
Como a ti, meu caro, tu suportarias?

Se não fosse a esbórnia,
Os peitos, coxas, o fetiche, a fantasia,
O quão solitário agora tu te encontrarias?

Se a realidade
Parecesse doce ao teu palato, à tua língua,
Na bandida noite, eu sei, não estarias.

2012


OS BECOS

Ah! Os becos
Mergulhados no silêncio,
Numa escura quietude.
Há alguém
Que se evade, escorregando
Por paredes desbotadas.
Ah! Os becos
Dos lascivos namorados,
Das mordidas nas orelhas
E murmúrios sem pudor.
Ah! Os becos
Quase mudos da cidade,
Destilando amor e crime
Com perigo e poesia.
Ah! Os becos
Quase sempre entristecidos,
Numa calma de pintura,
Com seu ar de solidão.

2013

HIPOCRISIA

Se soltasse seus desejos mais infames,
Que nem sempre, bem sei, você contém.
Se exercesse as vontades ignóbeis,
Que esconde como a um filho monstruoso,
Num esforço sem medida e sobre-humano...

Se deixasse voar livre os maus instintos,
Se tornando ser nefasto, pavoroso
E se abrisse sua caixa de maldades
De egoísmo, de vilezas e ganâncias,
Tudo isto, se somado, não teria
O tamanho dessa sua hipocrisia.

2013

BIOGRAFIA DO HOMEM SEM VOZ


Nunca fora ouvido pelos santos
Nem ungido pelos padres e pastores.
Jamais fora escutado por doutores
Ou senhores mandachuvas de poder.

Na tevê os oportunistas discursavam,
Mencionando massacrados do sistema,
Não moviam no entanto palha alguma
Pra mudar tão cruel realidade.

Odiento, se sentiu qual fosse um mártir,
Foi levando uma vida nada honesta
E tornou-se tão mau como a engrenagem,
Insensível, violento, impiedoso.

Ostentava relógios, muitas jóias, 
Aramamentos, amantes, namoradas,
Divulgava seus atos de coragem,
Se sentia um herói dos tristes guetos.

Mas um dia foi achado numa esquina,
Sem a vida e de um jeito horripilante:
O sistema clandestino o não ouvira,
Outro mundo pra falar não sei se há.

2013



A INJUSTIÇA E A PAZ

Eu vejo a desesperança desenhada no olhar
Dos que se plantam nas filas da condução.
Eu leio o desalento nos rostos
Dos que mofam nas filas de desempregados,
Tendo sob um braço um jornal.
Eu sei da alegria acintosa dos raros homens
Que têm o mundo nas mãos.
Eu sei da inquidade cínica dos torpes
Que fazem do destino de multidões brinquedo
Para sua bestial satisfação.
Mas parece que só eu sei, ninguém mais:
O mundo me parece por demais ignaro.
Por isto, só me cabe temer por mim,
Pelos meus e tocar minha vida,
Esquecido dos percalços do mundo,
Eu, andorinha incapaz de fazer um verão,
Conformado por ser assim desde que o mundo é mundo,
Eu, já sem credo ou bandeira política,
Eu, em busca apenas de seguir em paz esta vida de tantos perigos.

II

Não, eu não faria uma guerra ou revolução:
A mim não seduz a idéia de uma profusão de corpos inertes, exangues e desfigurados,
Num espetáculo medonho,
Muito menos me agrada imaginar mães chorando filhos mortos.
Não guerrearia, apenas diria não.
Todavia, como o mundo inteiro diz sim,
Só me resta repetir o sim proferido
E seguir a vida na brandura da paz.


2011

A MELODIA

Pare, mundo, que eu preciso ouvir a melodia
Que acarinha minha alma com os seus macios tons,
Seus afáveis instrumentos e essa voz de querubim que me enternece e faz  tão brando como a paz.
Pare, mundo, que eu me quero aprazer dessa canção qual fora ela
          [ tudo o que existisse no universo.
Pare, mundo, tempo, e inspirem fundamente cada nota da cantiga,
E façam morta a pressa e deixem que essa música
Dê o tom e ritmo da vida a se viver.

2011

A MORENA DO DECOTE

A menina do decote
É um poema dissoluto,
É cantiga de luxúria
Lindamente desvairado.

A morena cor de bronze
Do vestido pequenino
É passista nas escolas,
Pagodeira nos botecos
E se dá nos becos negros,
Nos motéis de baixo preço
Em volúpia incendiada.

A mulher do ar de malícia
Bebe  assim como dois homens,
Nunca sonha, apenas vive,
Nunca chora, mas se alegra
E é a estrela das biroscas,
A princesa das bodegas
E a rainha do sambão.

A mulher exuberante
Faz parar inteira a Lapa,
Faz luzir a madrugada,
Faz sorrir o homem mais triste,
Faz sambar a multidão.

2013


A MORTE DA POESIA II


Os poetas estão mortos, a poesia está morta:
É que veio a tecnologia de ponta, e sua ponta perfurou os sentimentos dos homens                     [mortalmente.

Os poetas estão mortos, a poesia está morta:
É que a futilidade se espalhou pelo planeta
e futilizou toda nossa emoção.
É que é mister ficar rico e não cochilar
Para evitar que o governo tire até as calças dos cidadãos,
Que pensam equivocadamente que os são.
Os poetas estão mortos, a poesia está morta:
É que vêm os governos e nos roubam
E chutam as nossas paixões.

A poesia está morta e também os poetas:
É que os versos e músicas de hoje, é que os cantos, romances, novelas de hoje
Acham que a mulher só tem bunda, não tem coração.

A poesia e o poeta estão mortos
Porque a violência proliferou no planeta,
Se tornou o assunto dileto
E explodiu o lirismo de vez.

A poesia e o poeta morreram, é fato:
É que hoje os casais só trepam, não fazem amor mais, não.

É que hoje o mundo só raciocina e não ama,
Porque a economia, a política e os esportes
Não dão tempo a ninguém de amar.
É que hoje só se quer saber de poder:
Poesia é só depressão.
É que hoje os campos e as  matas
São bons pra invadir e asfaltar
E os animais sempre foram perfeitos
Pros exercícios de crueldade dos homens.
A poesia está morta e os poetas estão mortos também.

2013

AQUELA MOÇA

O que foi feito daquela morena
Que era bela como um poema,
Que tinha os olhos  negros e  meigos,
Que cantava como uma fada,
Que se dava como uma ninfa,
Que tecia emoções imensas
No meu peito de cantador?

Que foi feito daquela menina
Que me dava momentos belos,
Que sonhava um tempo de encantos,
Que erguia estâncias de sonhos
Que ornava de poesia?
Que amava as matas e ventos
Venerava a Mãe-Natureza?

O que foi feito daquela  moça
Que andava nua nos campos,
Que tinha uma voz de arcanjo,
Que tinha a pele como de índia,
Que tinha avidez no abraço,
Que tinha a aurora no verbo,
Que era um poema de amor?

2012

DA DOR NÃO NASCE ENCANTO

De minha agonia não sairá o mais belo poema,
De minha dor não nascerão os versos mais lindos
E não virão da impotente revolta as frases mais sábias,
Nem do desejo de não estar aqui e como estou brotarão as fantasias mais enlevantes.
De tudo só se verá esta fadiga das coisas e a sensação de não haver saída,
De nada decididamente poder mudar adiante.
Não, das mazelas não brotarão a criação e a beleza,
Do sofrimento só florescerá uma vontade de não haver nascido
Ou de morrer, mitigada pelo medo da morte.

2013

CANÇÃO QUE ME ARREBATA

Ah(!), canção que me arrebata(!),
Ignoro tudo à volta,
Só me ocupo de você.
Eu bem sei que existe o mundo,
Mas me atei às suas notas
Com meu tédio e minha dor.

Agarrei-me à melodia,
Às lembranças e cenários
Onde a letra me lançou.
De você fiz um abrigo
Pro meu peito entristecido:
Não termine, fique eterna,
Me mantenha nos seus braços
E, se o mundo está lá fora,
Não permita ao mundo entrar.

2013

MISSÃO CHINFRIM

Não, não nego, sei o quanto é você homem importante
E que tem uma missão aqui  na Terra que é inegável.
Importante, sim, mas sei que o é só quando em lote,
Como uma entre mil bilhas de uma roda gigantesca,
Uma engrenagem que só gira em torno de si própria
Ou em prol de uns deuses poucos e tão sórdidos.
O mais ridículo é se achar um grande homem
Por ser incônscio de que é fragmento prescindível do sistema,
Seja você um operário, executivo ou um chefinho,
Capitão-do-mato perseguindo seus iguais por toda parte
E a ofertar-lhes as cabeças aos seus senhores malcheirosos.
Mas tem missão, e a missão cruel que lhe foi dada
É a missão que tenho de fazer o mundo a cada dia
Mais bonito e doce pra cinco ou seis famílias
Que fazem do planeta o seu brinquedo mais gostoso.

2013

LETRAS APAGADAS

Não mais buscarei ler em seu rosto
O semblante súplice de amante devotada.
Já rasguei poemas, todos aqueles que lhe fiz:
São letras apagadas da memória fugidia,
Como fossem cinzas que alguém sopra à ventania
Ou assim voláteis como sua imagem tão prosaica,
Que se apaga em mim numa ligeireza impressionante.
Logo o que é ferida se fará o mais puro alívio
De sabê-la parte de um passado sem valia
A que dou as costas já neste momento aqui presente,
Livre do martírio de lhe dar amor imenso
Sem, senão sorrisos fúteis e de plástico,
Nada, nada mesmo receber.

2013

MISSA

E aquela oração que se ouvia
Fez que nascesse a esperança
No peito daquela gente
Que muito orava e pedia
E de inda mais carecia,
Mas não sabia do rumo,
Da direção a seguir.

E aquelas palavras de alento
Faziam brilhar os olhos
Daquele povo que achava
Viria um dia a justiça
- Depois da morte ou na vida -
E tudo deixava por conta
Da providência divina.

E aquelas histórias da Bíblia
Enchiam de luz os rostos
Daquelas pessoas sem norte
Que achavam que toda mazela
Era destino traçado
Pelo Senhor, que escrevia
Correto por linhas tortas.

E aquela massa cantava,
Rezava rosários e terços,
Ao fim da missa partia
Segura do próprio triunfo,
Das suas futuras conquistas,
De ter-se valido dos meios
Mais certos pra sua luta,
De ter cumprido o dever

2013

NÃO SEREI TRISTEZA

Não serei sombrio como a tristeza
De um semblante desolado de saudade.
Não serei lamento onde viceje a primavera
Nem a palidez de um dia deserto.

Não desejarei a morte como à mulher
De rosto mais belo e entranhas mais quentes.
Não me verei vil como um seixo nas ruas
Nem terei n'alma a inércia dos mortos.

Seguirei a vida com gosto e com zelo
E despertarei nas manhãs clareadas.
Sentirei vida nas tardes, crepúsculos,
E à noite dormirei na comum esperança
De um dia vindouro feliz.

2013

O ATALIBA

O Ataliba, entristecido, me contava
que a mulher que o fascinava, leviana,
Lhe dizia que a amava todo homem,
ao que o pobre replicava: "por momentos!"
- Se sentindo alguém tão vil, tão diminuto,
Entre os homens o indivíduo derradeiro,
Um mendigo a se vestir só de farrapos,
A deitar-se solitário nas sarjetas.

Ter pra si somente aquela moça
Era como ajeitar o travesseiro
E deitar-se alegremente sobre a paz

2013

OS GATOS


Amo os gatos com sua elegância,
Com seu jeito sorrateiro de andar.
Amo os gatos subindo nos muros,
Caçadores imponentes e belos.

Amo os gatos e odeio quem os não ama.
Não sei por que Deus não degola
Com mãos vigorosas de ódio
Aqueles que aos gatos fulminam.

2013

SENHORES E IMPÉRIOS

Seja Átila, o huno cruel, sanguinário,
Alexandre, não menos perverso guerreiro,
Napoleão, estratego brilhante, malévolo,
Seja Hitler, conquistador bestial e demente,
George Bush com predicados iguais
Tal como os bandidos sedentos de sangue,
Impudentes políticos de teias imensas
Ou clérigos cheios de pura ganância,
Pastor falso ou real que explore fiéis.
Mas todo demônio de peso e talento
Constrói seu império ou o tem como herança
Ou então um império arrebata de alguém.

2012

TUA AUSÊNCIA

Era drama,
Era chama, conflito, impudor, convulsão
O amor tão aceso no olhar
De nós dois, tão sedentos de nós.

Era festa,
Era samba, era frevo, multidão em folia
O tempo de plena alegria
Vivido no amor tão demente.

Fez-se morte,
Silêncio, deserto, fez-se frio, é doído
O tempo tão triste de agora,
Que vivo, ferido da ausência de ti.

2012

MANHÃ

Acorda, minha bela, que a manhã  já se acendeu,
Espalha teus cabelos sobre a cama para o amor.
Dize, espreguiçando, umas palavras tão amenas,
Que teu verbo mais pareça uma oração.

Vem comigo, minha bela, que é preciso
Salpicar por toda a rua a poesia
Tão flagrante e abundante de nós dois.

Vamos, moça, pr'onde o dia nos levar,
Qual catando só  doçuras pela vida,
Qual dançando entre estrelas e cantigas,
Como  feitos tão somente prá paixão.

2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

TÉDIO

Dias iguais, pessoas, carros e panoramas quase iguais.
Tudo é igual na igualdade dos dias,
Como se os dias fossem um único dia,
Fragmentado em pedaços com a mesmíssima feição.

O tédio...ah, o tédio(!), o intragável tédio!
O que fazer da vida então?
Despirmo-nos das roupas e mandarmos às favas os compromissos,
Os preceitos e o razoável senso do praticável,
Copularmos nos logradouros mais impróprios, ante a perplexidade
[ e a indignação dos mais contidos?

O que fazer então da vida?
Deixar que o mundo se dane
E apenas ouvir as vozes mais belas e os instrumentos mais lindos
Em melodias encantadoras?

Viver os delírios mais absurdos,
Fazer da loucura o caminho,
Deixando este mundo à deriva
Simplesmente?

O que fazer então da vida?
Apenas tragar o tédio,
Tragar o tédio intragável
E aguardar as surpresas dos dias
No afã de que sejam boas,
Viver a incerteza dos dias
Na expectativa de puros infantes
Contando com belos presentes.

2011

SURPREENDENTE PARTIDA

Nem mostrara em seus olhos uma luz de alumbramento,
Nem trouxera ao meu mundo uma alegria inebriante,
Não me dera nem mesmo o tempo de um poema à sua pele
E ao seu corpo estendido sobre a cama das volúpias.
Nem fizera dos meus dias melodia emocionada.
Mas se foi sem que eu pudesse decifrar seu ato súbito.
Nem sequer me dera a chance de ficar a contemplar sua figura
No enlevamento dos poetas desprovidos de razão.

2013

SONHO DE ASAS E DE AMOR

Não quero sere senhor, gerente ou líder,
Presidente, prefeito nem chefinho:
Só desejo ser livre e libertino,
Contador de piadas dos botecos,
Morador de um singelo povoado,
Sonhador de uma praça pequenina.

Só desejo ser guru dos tresloucados,
Anarquista dialético das noites,
O romântico avesso aos bons  costumes,
O eterno contrário ao vil sistema.

Um sarcástico, eterno iconoclasta,
Um sereno fazedor de poemetos,
Pontual contemplador da natureza,
Fervoroso defensor dos animais;

Caloroso devasso das noitadas,
Namorado das mocinhas mais tesudas,
apolítico deitado sob arbustos
De um quintal tenro e fresco em Lumiar.

Ao morrer, conviver com os meus mortos
E os bichinhos finados que eu amei.
E ficar eternamente ouvindo música,
E a viver grandes amores no outro mundo.

Levitar entre hienas, tigres e cachorros,
Na doçura, numa paz de quem é anjo,
No deleite de quem faz só copular.

2013

SE EU SOUBESSE CANTAR



Se eu soubesse cantar,
Poria os pés no infinito,
Pisaria no Céu dos arcanjos,
Deixaria a tristeza na Terra,
Tão longe de não me tocar.

Se eu soubesse cantar,
Voaria por entre os astros,
Tornaria pó minha dores,
Espalhadas em chãos ignotos,
Seria eu mesmo um poema,
Faria da paz minha casa,
Se eu soubesse cantar.

SE HOUVER SAUDADE

Se no céu houver estrelas,
Solidão na calma noite,
E se houver também silêncio
Só quebrado levemente
Por suave melodia,
Eu te faço, comovido,
O poema mais bonito
que me nasça da emoção.

Mas se houver uma saudade
De doer profundamente,
Eu me atiro pelas ruas
E te busco o corpo quente
E as palavras desvairadas
Pra varar a madrugada.

2013

ORAÇÃO

Meu Senhor, aqui estou a dirigir-vos pensamentos,
Vim encher minh'alma de ternura e de humildade
E pedir o bem maior até pros inimigos,
Embora na verdade eu lhes deseje a morte mais sofrida.

Ah(!), eu vim aqui pra me lotar de hipocrisia,
Tentando crer que neste instante eu me supero e que me elevo
Bastante acima do meu ódio, que me faz tão bestial.
Sairei daqui, Senhor, fingindo crer me haver purificado
A ponto, Poderoso, de fazer-me um ser merecedor das tuas graças
E até ingressar, depois da morte, no teu Reino tão sublime.

2013

O SONO DO ANJO

Meu cachorro se agita num latido enquanto dorme:
Anjo de primeira grandeza por sua inocência e pureza,
Entra em sintonia direta com Deus,  o Supremo Senhor,
Enquanto Este estala os dedos e o agrada e acarinha,
Levando o cãozinho à santa e pueril e divina euforia
A que só os animais, elevados e puros, conseguem chegar.

2011

O QUE FARIA?

Ah(!), bonita, se soubesse,
Imaginasse ao menos
A noite que me habita,
A dor que nunca passa,
Acaso, respeitosa,
Jamais me feriria?
Debalde tentaria
Fazer-me ver mil cores,
Beleza exuberante
Onde só vejo o cinza?
Quem sabe se faria
Orquestra em tarde clara,
A fonte da alegria?
Será que  me seria
Alento amante e amigo
De minhas agonias?
Ou então, bem simplesmente,
Você me deixaria
Sozinho com as sombras
Escuras dos meus dias?

2013

NOITE DE SEXTA

Na varanda do bar, um seresteiro apaixonado,
O elemento derradeiro talvez daquela espécie,
Cantava ardentemente uma cantiga tão sentida,
Como ao mundo expusesse uma ferida de paixão.

Pela rua um indigente entristecido, embriagado
Se arrastava na calçada, esfarrapado e solitário.
Desfilavam as mulheres, bundas belas e protusas
Sob malhas apertadas e vestidos pequeninos.
Ah, os desejos! Os desejos se somavam,
Se assanhavam , palpitavam em gostosas tentações.

Era o bairro tão quente e tão vário de pessoas,
De projetos, sentimentos, melodias e paixões.
Era sexta já de noite, era inferno e paraíso,
Era festa, tristeza, era fim e recomeço,
Esperança e desengano com crueza e poesia.
Era a síntese de tudo que se vê no mundo Terra.

2012

NO DIA EM QUE EU TE DEIXAR

No dia em que eu te deixar,
Te direi a fêmea mais formosa,
Entre todas as mães a mais perfeita,
A mulher que todo homem quer pra si.

Ao ouvirees, assim, meias verdades,
Se és tudo, indagarás, que enfim te digo,
Por que não fico contigo simplesmente.

É um pecado irresistível que há lá fora
E me aguarda com seus braços de chamego,
Sua boca sequiosa nos seus beijos,
Uma dança de amor que me enlouquece.

É uma coisa, mulher, que me fascina,
Que me enreda, faz escravo, um indefeso,
Mais parece feitiço, magia, coisa feita
Que me leva pr'um caminho tão incerto,
Tão lotado de meus medos, de perigos.

2013

NÃO RENEGUE O LIRISMO

Não, por favor, não chame o lirismo demodê.
Minha poesia nasceu lírica; livre e solta, mas lírica
E cheia de sentimentos, de emoções, de lancinantes dores,
De um modo que só o lirismo poderia os expressar.

Por favor, leitor, não se farte do lirismo,
Que é  em nós singular demonstração
De um Deus tão almejado e belo
E muito possivelmente inexistente.

Não renegue, eu suplico, o verso lírico:
Eu bem sei que ele tem dor quase que sempre,
Mas é bonto em seu semblante puro
E tão cheio de mansidão e quietude.

Não renegue o lirismo, não renegue,
Pois, fechando os olhos e o ouvindo,
Você pode até vir mesmo a prantear
E sentir-se humano, mas assim tão lindamente
Qual na acepção mais rara e bela da palavra.

2013

FIM DE FICÇÃO

Fim da novela, seriado ou filme, e os destinos de definindo ou mudando,
e uma comoção danada marejando os nossos olhos,
enquanto n'alma brinca a sensação de tudo haver-se resolvido.
Quando finda a história, porém, é tão crua e tediosa a volta á realidade tão pouco palatável
e saímos a viver a insipidez e a aspereza do morno dia-a-dia.

2013

ENQUANTO NÃO VEM A NOITE

Canta ante a festa da vida,
Enquanto não vem a noite,
Tão cheia de breu e silêncio,
Calar o teu canto pra sempre.

Luta por tudo que almejas,
Enquanto não vem anoite
E te manda à agonia do umbral
Ou às dores eternas  do Inferno.

Ama a mulher que te encanta,
Enquanto não vem a noite
Mostrar que não há a quem possas
Clamar por perdão ou justiça.

Dança nos dias de festa,
Enquanto não vem a noite
Fazer os teus membros inertes,
Em rumo à putrefação.

Arde no leito com gana,
Enquanto não vem a noite
Tonar-te tão pálido e gélido,
Incapaz de desejo e volúpia.

Sê nos momentos bem pleno,
Enquanto não vem a noite
Findar com tudo pra sempre,
Sem deixar um segundo pra ti.

2013

DOÇURA

Doce é o olhar dos cachorros
Suplicando afagos macios,
Doce é a ternura da moça
De olhar delicado de um anjo.
Doce é o vento que sopra
O corpo nas frescas manhãs.
Doce é o beijo da mãe
Nos olhos do filho pequeno.
Doce é o olhar da criança
Tão comovida e tão grata.
Doce é ler nos teus olhos
Sentimentos de amor e querer.
Doce é o regato que corre
Detrás dessa casa de campo.
Doce é a espuma do mar
Bulindo as areias brancas.
Doce é a noite serena
Quando na alma há paz.
Doce é a alegria no peito
E a chuva a cair de mansinho.
Doce é o cair da tarde
Com tuas mãos entre as minhas
E teu rosto colado no meu.

2013

DESENGANO

Como não  alimentar este tamanho desencanto,
Se nenhum vento subitâneo, inesperado
Vem trazer motivo de felicidade duradoura
E desejo de viver e festejar a própria vida.

Como abrigar no peito já cansado a esperança,
Se é tão firme a certeza de  que nada irá mudar,
Se não há justiça além da imoral justiça humana
Ou mundo etéreo onde os erros sejam reparados?

O olhar incrédulo olha o mundo, sem enganos,
O tédio se abate sobre a alma de anseios muito poucos.
Cansativa e árdua se faz a travessia pelos dias.
Tudo é pálido, tão desbotado, não tem qualquer razão.

2013

BIOGRAFIA DO HOMEM SEM VOZ

Nunca fora ouvido pelos santos
Nem ungido pelos padres e pastores.
Jamais fora escutado por doutores
Ou senhores mandachuvas de poder.

Na tevê os oportunistas discursavam,
Mencionando massacrados do sistema,
Não moviam no entanto palha alguma
Pra mudar tão cruel realidade.

Odiento, se sentiu qual fosse um mártir,
Foi levando uma vida nada honesta
E tornou-se tão mau como a engrenagem,
Insensível, violento, impiedoso.

Ostentava relógios, muitas jóias,
Aramamentos, amantes, namoradas,
Divulgava seus atos de coragem,
Se sentia um herói dos tristes guetos.

Mas um dia foi achado numa esquina,
Sem a vida e de um jeito horripilante:
O sistema clandestino o não ouvira,
Outro mundo pra falar não sei se há.

2012

A PRETENDIDA

Eu te quero cantiga da noite,
Mas da noite de entrega e alegria,
Exalando perfumes de fêmea
No ballet tresloucado do amor.

Eu te quero euforia dos dias
Como o vinho, que alegra, inebria,
Eu te quero suave doçura
Como a aragem das tardes de outono.

Teu sorriso é traquina e tão vivo,
É tão fresco e tão cheio de luz.
Tuas pernas morenas me atiçam,
Tua boca rosada é um ímã
Que a mim arrebata e seduz.

2013

A MULHER DO GOMES

A mulher do Gomes é uma simpatia:
Quando vê passando um rapaz vistoso,
Logo morde os lábios, se enche de alegria,
Lhe sorri de um modo muito afetuoso.

A mulher do Gomes é de grande apreço:
Os rapazes dizem que é tão sociável,
Que conhece algum, pega o endereço
E o visita e aperta – que mulher amável!

A mulher do Gomes é tão distraída,
Que, ao sair com este, perde-se na rua,
Quando  dá por si, desperta, exaurida
Num quarto de estranho, de ressaca e nua.

A mulher do Gomes é tão bem-querida
É por todos homens sempre elogiada,
E o marido a olha sempre enternecido,
E agradece aos anjos ter aquela fada.

                             II

(A DEFESA DA MULHER DO GOMES)

Mas com que motivo essa gente infame
Vive insinuando que sou leviana,
Se em meu altruísmo, só há quem me ame,
Se sou caridosa, de amizade insana?

Só porque o  carteiro, um rapaz garboso,
Se queixou do sol terrivelmente quente,
E eu, de um modo materno e afetuoso,
Me banhei com ele muito humildemente.

Só porque um rapaz, muito gentilmente,
Num final de tarde, num metrô lotado,
Para proteger-me, pôs-me à sua frente
E muito gememos, ternos e agarrados.

Só porque o vizinho é muito inspirado,
Diz ao meu ouvido verso arrepiante
Enquanto me abraça bastante apertado,
Ficam os canalhas nos dizendo amantes.

Só porque meu primo, homem de coragem,
Me conta seus feitos e brigas e glórias,
Eu eu lhe beijo o púbis de três tatuagens,
Já ficam dizendo que temos história.

Não sabe essa escória de língua ferina
Que eu sou tão carinho, tão afeto e paz,
Que vejo os humanos súplices, meninos,
Que a bondade minha é grande demais.

2012

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

SURPREENDENTE PARTIDA

Nem mostrara em seus olhos uma luz de alumbramento,
Nem trouxera ao meu mundo uma alegria inebriante,
Não me dera nem mesmo o tempo de um poema à sua pele
E ao seu corpo estendido sobre a cama das volúpias.
Nem fizera dos meus dias melodia emocionada.
Mas se foi sem que eu pudesse decifrar seu ato súbito.
Nem sequer me dera a chance de ficar a contemplar sua figura
No enlevamento dos poetas desprovidos de razão.

2013

POEMA CORDATO

Que Deus salve o meu patrão,
Que me paga o ganha-pão.
Que Deus salve o meu governo,
Que me faz bom cidadão.
Que Deus salve o mau palhaço,
Que me faz rir sem razão.

2013

MISSÃO CHINFRIM

Não, não nego, sei o quanto é você homem importante
E que tem uma missão aqui  na Terra que é inegável.
Importante, sim, mas sei que o é só quando em lote,
Como uma entre mil bilhas de uma roda gigantesca,
Uma engrenagem que só gira em torno de si própria
Ou em prol de uns deuses poucos e tão sórdidos.
O mais ridículo é se achar um grande homem
Por ser incônscio de que é fragmento prescindível do sistema,
Seja você um operário, executivo ou um chefinho,
Capitão-do-mato perseguindo seus iguais por toda parte
E a ofertar-lhes as cabeças aos seus senhores malcheirosos.
Mas tem missão, e a missão cruel que lhe foi dada
É a missão que tenho de fazer o mundo a cada dia
Mais bonito e doce pra cinco ou seis famílias
Que fazem do planeta o seu brinquedo mais gostoso.

2013

DESENGANOS

Como não  alimentar este tamanho desencanto,
Se nenhum vento subitâneo, inesperado
Vem trazer motivo de felicidade duradoura
E desejo de viver e festejar a própria vida.

Como abrigar no peito já cansado a esperança,
Se é tão firme a certeza de  que nada irá mudar,
Se não há justiça além da imoral justiça humana
Ou mundo etéreo onde os erros sejam reparados?

O olhar incrédulo olha o mundo, sem enganos,
O tédio se abate sobre a alma de anseios muito poucos.
Cansativa e árdua se faz a travessia pelos dias.
Tudo é pálido, tão desbotado, não tem qualquer razão.

2013




IMPUDÊNCIA GERAL

Na pornográfica emissora
Da tevê tão pornográfica,
A pornográfica autoridade
Disse mentiras pornográficas,
Para a pornografia geral.

O político impudente,
No telejornal sem pudor,
Declarou, despudorado,
Que não era um impudente,
Para a impudência total.

O obsceno locutor,
Obscenamente, não contou
O que havia de obsceno
No obsceno território,
Para a obscenidade universal.

2013




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

MESA DE BOTEQUIM

Mesa de botequim, tu és muito mais ampla
Do que as dimensões em que te veem nossos olhos,
Porque comportas alegrias, ideais, tristezas
E as mais baratas e as mais fundas filosofias.
Mesa de botequim, tu és infinita.

Acolhes a dor mais profunda,
O desespero mais latejante
E a inquietude cansada dos vencidos,
Sendo a confidente dessas coisas todas
Que o peito da gente bem sabe sufocar.

Suportas, impassível, compreensiva,
O murro inflamado inflamado de veemência
Dos mais ardorosos convictos
E ainda vês as imagens dos devaneios
Dos que alimentam seus ideais.

És inteirada, bem-informada,
Sabes da política,  do futebol,
Da fome, da história, da violência...
Sabes de tudo, de todos, dos meros boatos,
De todas as coisas em todas versões.

És ainda lasciva como a proposta
O o acerto feito com a mulher impudica
que sobre ti, seios à mostra, se debruça.

Mesa de botequim, és filosófica,
És culta, política, idealista,
És humana com mil sentimentos:
Mesa de botequim, tu és o mundo.

1980





O FOLIÃO


Não venha falar de vida, morte ou sorte
Nem da minha estrada com os seus espinhos,
Pois o que eu quero é me perder por entre cores,
Plumas, flores, brilhos, danças, tangas, brigas,
É me derramar
Pelo Carnaval.

Não venha falar das horas que eu já passo
No trabalho e dos momentos mais suados que virão,
Pois o que eu mesmo quero
É entrar no tumulto
Tal qual quem mergulha
Nas nuvens e voa.

Quero é me embriagar por entre penas,
Cores, danças, marchas, brilhos, sambas, luzes,
Ser onipresente
Neste Carnaval.

Quero é me espalhar por todo canto
Feito bomba que estilhaça e que cada pedaço
Seja vivo e reluzente como as cores deste dia.

Quero estar alheio a todo drama,
Fome, tiro, preço, "papo", acordo, míssil;
Só sei que nós, homens,
Somos ante Deus
Todos foliões.

1981

sábado, 12 de janeiro de 2013

REZA DO CAMPONÊS

Oh(!), meu Jesus
Crucificado,
Venho pedir:
Dai-me, Senhor,
O pão, trabalho e algum cantinho pr'eu morar.
Dai-me, Senhor,
Muito sossego,
A terra, a chuva e uma mulher pra muito amar.
Dai-me, Senhor,
Uma varanda
E um bom roçado bem verdinho pr'eu olhar.
Dai-me, Senhor,
Uma família,
Filhos bonitos pr'eu na missa apresentar.
Dai-me, Senhor,
Muita saúde,
Mas, se preciso, um bom doutor pra me curar.
Não me negueis,
Porém, Senhor,
Uma viola e a alegria pr'eu poder cantar.

2013

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

AQUELA MOÇA

O que foi feito daquela morena
Que era bela como um poema,
Que tinha os olhos  negros e  meigos,
Que cantava como uma fada,
Que se dava como uma ninfa,
Que tecia emoções imensas
No meu peito de cantador?

Que foi feito daquela menina
Que me dava momentos belos,
Que sonhava um tempo de encantos,
Que erguia estâncias de sonhos
Que ornava de poesia?
Que amava as matas e ventos
Venerava a Mãe-Natureza?

O que foi feito daquela  moça
Que andava nua nos campos,
Que tinha uma voz de arcanjo,
Que tinha uma pele de índia,
Que tinha avidez no abraço,
Que tinha a aurora no verbo,
Que era um poema de amor?

2011

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

IRMANAÇÃO

Minha harmonia co'a Natureza
É uma irmandade que reconheço
Em face às plantas, em face aos bichos
E cada árvore e cada regato que, cristalino,
Por entre ramos, por entre pedras, vejo fluir.

Olhar embevecido o verde das colinas
E das serras exibindo uma beleza  exuberante.
Notar entristecido os micos e gambás
Buscando o que comer em urbanas regiões.
Urbanizadas matas, invadidas pelas bestas
Humanas asquerosas que as usurpam por ganância.
Ah! Bichinhos despejados de seus lares e de abrigos,
Territórios estuprados por covardes racionais.

Eu me fascino ante as matas e folhagens majestosas
E assim cultuo as águas, cada arbusto e cada pássaro,
Numa emoção tão transcendente e tão singela de menino,
Na consciência plena que dos seres, todos seres sou irmão.


Armas e venenos no encalço de inocentes,
O fogo ao seu redor, lancinantes sofrimentos,
Morte, morte, profusão de mortes dos infernos
E a satânica alegria dos vis negociantes.


Quem disse que o Diabo não existe?
Ele existe em quantidades incontáveis
De malditos que entre feitos demoníacos
Vão matando os animais e agredindo a Natureza.
Como eu gostaria de os poder chamar de homens
Na bendita acepção dos que têm bom coração.

2013

DOS MEUS MORTOS

A ausência dos meus mortos é tão triste, inconsolável.
Falo dos mortos humanos e dos mortos animais,
Falo que não creio em vida que não seja esta da Terra
E por isto minha dor é muito mais profunda.
Meu consolo é que um dia morrerei como eles todos
E, inexistente, nunca mais terei saudades
E esta dor tão torturante que maltrata as  criaturas.

II

Se houvesse outra vida, eu abraçaria e beijaria os meus humanos mortos
E os meus mortos de quatro patas e focinho
E, sem exceção, todo finado animal que eu encontrasse:
E assim formaria com eles, os humanos e os bichinhos,
A família maior  do Universo sem tamanho.

2013