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domingo, 30 de janeiro de 2011

CACOS

É tão viva esta lembrança
Dos heróis de voz armados,
Professando um não sonoro
E brandindo o violão.

Nós sentávamos nos bares,
Encantados com seu canto,
Discutindo os rumos pátrios,
Encharcados de bebida
E a sonhar um tempo novo
De progresso e de justiça.

Nós falávamos de música,
De poetas, prosadores,
Dos heróis de tempos outros,
Das mulheres e do mundo,
De questões inquietantes,
E nos víamos nos rostos
Certas luzes de esperança.

Hoje eu sei que o novo tempo
Nunca vimos ou veremos.
Todos nós nos dispersamos,
E os rebeldes de hoje em dia
Não têm causa ou cabimento.
Mesmo os bares já não pensam,
E eu fiquei por longos anos
A tentar juntar debalde
Cacos ínfimos, dispersos
De um tempo irretomável.

2011

CRIAR POESIA

Lidar co'as palavras,
Brincar co'as palavras como quem monta quebra-cabeças.
Salpicar as palavras nos versos,
Colocar as palavras nas pontas dos dedos
E soprar as palavras pra fazê-las levitar ao vento.
Lapidar os versos como se fossem pedras preciosas,
Retocar os versos como se fossem pinturas,
Arrumar os versos co'a mais zelosa combinação de palavras.
Puxar as palavras de dentro do peito como que arrancando o dorido coração.
Deixar sair a suave palavra como se ela fluísse com a respiração.
Botar pra fora a odienta palavra como se fosse água fervente...

É assim que um poeta produz poesia,
É assim que se faz um poema daquilo
Que brinca na idéia ou que dentro do peito
Lhe fica a pulsar.

2011

ABRIGO

Se a noite encontrassse teus olhos
Molhados da tua dor,
Se a brisa da noite secasse  tuas lágrimas
Mas não findasse teu pranto,
E a casa te parecesse tão morta,
E a rua, pela janela entrevista,
Te parecesse pejada dos sons mais tristonhos...
De acordes de piano talvez...
Ou de sons de violino que cortassem teu peito
Bem fundo... como te ferindo de morte...

Eu iria à tua casa e, se deixasses,
Te protegeria no calor do meu abraço,
E te olharia fundamdente, e tu verias
Na transparência dos meus olhos minh'alma
Totalmente entregue a ti.
E então tu sentirias o clamor de minha carne,
E nossos corpos se veriam numa amálgama sublime.
A aí a madrugada, miraculosamente,
Pareceria sob o canto das aves matutinas,
E a vida nos seria tão clara, tão leve e tão música,
Qual praça repleta
De gente e de bares, jardins e de sol,
Que quereríamos ambos existir para sempre.

2011

A DANÇARINA

Se a poesia brotasse
De repente
Em plena Rio Branco,
Na forma de uma bailarina
Que dançasse lascivamente enquanto
Se despisse por inteiro,
Dando ao vento os sete véus,

Seria preciso
Desviar o trânsito e recolher
Ao xadrez os transeuntes,
Por serem torpes e perversos
E por isto
Atentarem ao pudor.

Seria preciso chamar os libertinos,
Os palhaços, os circenses,
Os irreverentes
E os cantores loucos
Pr'eles isolarem num cordão humano
A encantada moça,
Que assim poderia,
Pura, sublime,
Saltitar em paz.

2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

MELANCOLIA

Nao dormiu a noite inteira
- Ruminava uma agonia -
E chorou inconsolável quando viu raiar o dia.

Foi botar o pé na rua
E saiu andando a esmo.
Morreu de tristeza quando ouviu bela canção.

Desejou sumir no mundo
Ou morrer bem de mansinho.
Solidão foi-lhe doendo mesmo em meio à multidão.

Foi seguindo pelos dias
Sem nutrir uma ilusão,
Pois sabia que seus dias eram sempre tão iguais.

2011

INDIGNAÇÃO

Quero almoçar com os porcos,
Quero jantar com os cachorros,
Quero lanchar com os pombos,
Quero cear com os gatos,
Quero falar com os papagaios,
Quero dormir com os morcegos.
Mas não há irreverência
Que me aplaque a indignação.

2011

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A EXTINÇÃO DA HIPOCRISIA

Fica extinta neste momento a hipocrisia,
E os casamentos quase todos se dissolverão,
E os futuros casórios de interesses não se consumarão,
E muitas pessoas se deixarão de apertar as mãos.
As reverências dos subordinados desparecerão,
Os bajuladores não mais conseguirão bajular,
Os políticos não mais conseguirão se eleger.
É extinta a hipocrisia, e o que antes era sorriso,
Agora se torna muxoxo,
Agora se torna insolência,
Escárnio, ultraje, desprezo,
E as pessoas, então, despidas de suas máscaras,
Ficarão horripilantes de se olhar.

2011

A ESCÓRIA

Quero longe de mim essa gente,
Essa gente aética e sórdida,
Essa gente que bajula e se vende
Por favores enormes ou ínfimos.
Essa gente que se dá por vantagens,
Que corrompe, se faz corromper.
Quero essa gente ausente, distante,
Em moradas de escarros e estercos.
Quero estar tão distante da escória,
Que essa escória sequer se dê conta
De minha existência no mundo.

2011

SEM SOLUÇÃO

E a fastidiosa presença dos tediosos
E cruéis humanos em cada trecho de rua?
E a insuportável monotonia dos dias
Que cansam os olhos de sua farta mesmice?
Estaria a solução na chegada da morte?

Mas e se acaso houver regiões umbralinas
E seres humanos então sem carne,
Mas demoníacos, a nos martirizar?
E se houver patamares astrais e preceitos
E gente etérea enfadonhos a obedecer?
A morte assim seria inócua:
O que se sabe cansaço da vida
Cansaço da morte se tornaria.

2011