Google+ Followers

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

OS POBRES E O PÁROCO

Naquele cafundó tão quente,
De tanta escassez e seca,
Após assistir ao bizarro
Desfile de tanta miséria,
De tanta tristeza, infortúnio,
O padre daquela paróquia
Indagou num murmúrio inaudito:
"Senhor, perdoai-me a ousadia,
Mas às vezes eu me pergunto:
Amareis de verdade os filhos
Sem posses que vós criastes
Ou pouco vos importais
Com quanto estes sofram no mundo?"

2012

SORRIA

Sorria, minha bela, que a alegria a irá fazer criança,
Ande pelas ruas de cabelos soltos,
Pra que o vento a faça parecer voar
Ou levitar, tão livre e leve se verá.

Murmure entre seus lábios uma música
Que lhe acenda e que lhe aqueça o coração.
Esqueca se algum vento de tristeza lhe tocou
Em noites tão escuras, que mais pareciam morte,
E saia pela vida a cantar, viver e amar.

2012

AMO OS ANIMAIS

Amo os animais, todos os animais
Como se fossem seres de antigo convívio
E dormissem pelo meu quarto
E me dessem lambidas de afagos,
E voltassem pro ar o ventre,
Sequiosos de meu carinho.
Amo cada animal quase como a um filho
E os olho com tanto afeto, mas tanto afeto,
Que Deus, se houver, lerá o amor dos meus olhos
E verá quão injusto é  todo esse sofrimento
Que aos inocentes bichinhos é quase sempre reservado.

2012


SEM FOLIA

Hoje começa o Carnaval,
Mas a minha agonia não finda.
Hoje a folia é sonora,
Mas a minha alma é silente.
Hoje é dia de banda e de festa,
Mas só quietude há em mim.

2012

A MULHER DO GOMES

A mulher do Gomes é uma simpatia:
Quando vê passando um rapaz vistoso,
Logo morde os lábios, se enche de alegria,
Lhe sorri de um modo muito afetuoso.

A mulher do Gomes é de grande apreço:
Os rapazes dizem que é tão sociável,
Que conhece algum, pega o endereço
E o visita e aperta – que mulher amável!

A mulher do Gomes é tão distraída,
Que, ao sair com este, perde-se na rua,
Quando  dá por si, desperta, exaurida
Num quarto de estranho, de ressaca e nua.

A mulher do Gomes é tão bem-querida
É por todos homens sempre elogiada,
E o marido a olha sempre enternecido,
E agradece aos anjos ter aquela fada.

                             II

(A DEFESA DA MULHER DO GOMES)

Mas com que motivo essa gente infame
Vive insinuando que sou leviana,
Se em meu altruísmo, só há quem me ame,
Se sou caridosa, de amizade insana?

Só porque o  carteiro, um rapaz garboso,
Se queixou do sol terrivelmente quente,
E eu, de um modo materno e afetuoso,
Me banhei com ele muito humildemente.

Só porque um rapaz, muito gentilmente,
Num final de tarde, num metrô lotado,
Para proteger-me, pôs-me à sua frente
E muito gememos, ternos e agarrados.

Só porque o vizinho é muito inspirado,
Diz ao meu ouvido verso arrepiante
Enquanto me abraça bastante apertado,
Ficam os canalhas nos dizendo amantes.

Só porque meu primo, homem de coragem,
Me conta seus feitos e brigas e glórias,
Eu eu lhe beijo o púbis de três tatuagens,
Já ficam dizendo que temos história.

Não sabe essa escória de língua ferina
Que eu sou tão carinho, tão afeto e paz,
Que vejo os humanos súplices, meninos,
Que a bondade minha é grande demais.

2012




SE ELA VOLTASSE

Se ela surgisse de repente,
Despida,
Silente,
Ardente,
E se fossem os olhos dela
Suplicantes de carinho,
De perdão e de voltar?

Se ela surgisse assim do nada
E se desse, animalesca,
Quão bonito tu verias
Esse mundo ante teus olhos?

Se ela viesse simplesmente
E dissesse tudo fora
Um poema inacabado
Carecendo um recomeço
Sem resquícios do passado
E de entrega nova e cega?

Se ela apenas te voltasse,
Que esperanças nutririas,
Quantos medos sentirias,
Quererias solidão?

Se ela em cima do teu peito
Repousasse as coxas lisas,
Sentirias nela a fonte
Do elemento poderoso
De manter você vivente?

Se ela, sonsa, te tocasse,
Que alegrias te viriam,
Que tristezas causaria
Te saberes indefeso,
Tão cativo da mulher?

Se a tivesses novamente,
Quanto riso e quanto pranto
Encheriam teus momentos?

Quanto então te maldirias
Por perderes a vergonha,
Por saberes que sem ela
Não há sol nem alegria,
Nem desejo ou poesia,
Só vontade de morrer?

2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

MINHA INEXISTÊNCIA

Quando pus o pé no palco
E entrei em cena, exuberante,
Percebi que cena não havia,
Não havia palco, exuberância,
Mesmo eu próprio, notei, não existia.
Não nascera, não era e nunca fora,
Não passara jamais de uma ilusão.

2012

A MORTE DA POESIA

Quero os jardins.  Onde os jardins?
Quero as varandas e as casas desbotadas,
Os quintais de terra, o orvalho, os pés de futas,
As pracinhas e os casais enamorados.

O que foi feito da poesia?
Ficou senil, caduca, ultrapassada,
ficou morta no passado a poesia.
Agora só resta esse cenário tedioso
E essa gente tediosa pelas ruas.

2012

A MORTE DO PASSARINHO

Vi um filhote de passarinho agonizar
No momento cruel da sua morte.
O passarinho, que eu tentara salvar em vão,
Agonizou de forma tão assustadora,
Apesar da sua pureza e pequenez.
Senti uma  frustração quase prostrante
E uma tristeza de nada consolar.
Senti  um pavor da morte sem medidas,
Fiquei a pensar sobre a injustiça
Da morte e seus perversos estertores
Nos seres na alvorada da existência.
Lamentei o fim prematuro de jovens e crianças
E também dos inocentes animais.
Matutei sobre o quão perverso é este mundo
E, desolado, fui tocar o dia tão-somente,
Tentando apagar da memória aquela cena
Dilacerante daquele animalzinho perecendo.

2012

CASAMENTO CO'A SOLIDÃO

Ah, solidão, tive amores tantas vezes!
Mas não sei dizer se percebeste
Que nunca de ti me descasei.
Sei hoje que sempre foste e que serás
A minha eterna e infalível companheira.

Levei a vida enleado nos teus braços,
A pensar que estavas muito, muito longe.
Que fazer agora? - te pergunto e me pergunto:
Desejar a morte como à mulher mais sedutora?

Não quero dar fim à própria vida,
Com cena de sangue e gente histérica  a correr e gritar pelas ruas,
                                                              [ corredores.
Quero a morte talvez no seu devido tempo
E não ficar no aguardo da agonia lancinante.

Quero, sim, ser cônscio de tua presença eternizada
E aprender a te aceitar e amar como alma gêmea,
Como foras una comigo qual meu corpo.
Não deixarei que a tristeza me aniquile
Nem tampouco me incline a desejar uma ilusão.
Não, solidão, quero apenas viver num realismo
Que suporte a crueza que tu encerras
E seguir a vida, sem enganos, leve, em paz.

2012