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domingo, 30 de setembro de 2007

MEUS DIAS

Por que, negra, foi embora,
Se alumbrava meus momentos
E os fazia tão intensos
Como fosse o Universo
Todo feito de folia?
Por que foi, mulher, embora,
Se cantava em mim a vida
Como pássaros em bandos
Na alvorada, nas manhãs?

Que fez, negra, dos meus dias!
São noturnos os meus dias,
São tão tristes os meus dias,
Como notas de piano
Em crepúsculo de inverno.


Por que foi você embora,
Se era doce, era tão bom
Quando em horas de carícias
Me chamava de "meu negro"?

Todo o encanto do seu riso,
A lindeza do seu rosto,
Da nudez dos seus contornos...
Tenho já sua figura
Tão marcada na memória.

Triste, lembro nossas noites:
Os lençóis, o seu perfume,
Nossos corpos se esfregando,
Com furor se devorando,
Tão sedenta, tão faminta
Uma carne d'outra carne.


Logo, logo, sei, meus dias
Serão quietos e silentes,
Não terão qualquer cantiga,
Serão baços, incolores
Quais manhãs sem cor ou canto
Que se despem da alegria,
Que não têm sopro de vida.

1994